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I Simpósio Nacional Médico-Espírita
PORTO (2003)

 

Cartaz do I Simpósio Nacional Médico-Espírita, que decorreu na cidade do Porto no dia 3 de Novembro de 2003, no Salão Nobre do Ateneu Comercial do Porto.

Decorreu no dia 3 de Novembro de 2003, na cidade do Porto, o I Simpósio Nacional Médico-Espírita.

Com o tema «Fenomenologia orgânica e psíquica dos estados alterados de consciência» o médico brasileiro Sérgio Felipe Oliveira (1) encheu o auditório do Ateneu Comercial do Porto. Apesar da hora de jantar para a qual foi marcada a palestra, 20h00, e do clube de futebol da cidade, campeão em várias frentes, aglutinar a atenção do povo com um jogo europeu no mesmo horário, uma grande parte dos mais interessados nesta temática fez questão de estar presente, e escutou a conferência, o que revela com clareza o elevado interesse centrado nestas matérias.

O simpósio teve início com uma breve apresentação deste médico psiquiatra. Na tentativa de dar respostas a questões de carácter existencialista, tais como "para quê vivemos?", "de onde viemos?" e "para onde vamos?", o psiquiatra concluiu que existe uma permeabilidade da ciência de hoje para o tema da espiritualidade. Neste sentido, os Estados Unidos constituem um caso paradigmático do interesse pela questão espiritual, pois este país é responsável por uma vasta produção científica. Tal como foi referido por Sérgio Felipe, até a famosa revista «Time» num dos seus números chama a atenção para o facto dos médicos descobrirem evidências surpreendentes, questionando até se a espiritualidade pode promover a saúde. Também o periódico «U. S. News», numa das suas publicações, aborda a temática da vida após a morte, noticiando o facto da ciência investigar o significado das experiências de quase-morte.
 

"Master Doctor" Sérgio Filipe de Oliveira, médico psiquiatra, e a "Master Doctor" Lígia Almeida, médica cardiogeriatra.

"Master Doctor" Sérgio Filipe de Oliveira, médico psiquiatra, e a "Master Doctor" Lígia Almeida, médica cardiogeriatra.

Já na área da Medicina, o «Tratado de Psiquiatria» de Kaplan, mais especificamente o capítulo das Teorias da Personalidade, apresenta uma terminologia própria dos estudos de espiritualidade e de religiões. A Associação Americana de Psiquiatria (APA), na sua célebre publicação do DSM-IV (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), apela aos cuidados que o clínico deve ter para não diagnosticar, erradamente, como alucinação ou psicose casos de pessoas que dizem ver ou ouvir espíritos de pessoas mortas, visto que, em determinadas comunidades religiosas, isso pode não significar esses diagnósticos. Perante isto, o psiquiatra Sérgio Felipe salienta esta directriz da APA de que a mediunidade ou estado alterado ou modificado da consciência pode ser verdadeiro, constituindo uma abertura para esta questão. Por seu lado, a CID (Classificação Internacional das Doenças) inclui uma perturbação denominada por estado de transe e possessão por espíritos, podendo este tipo de denominativa surpreender o clínico, na medida em que existe uma forma de diagnóstico para o estado de transe. Com isto, o psiquiatra afirmou que falar de espiritualidade na medicina já não é uma heresia científica.

Ainda na área médica, o «Journal of American Medical Association» relata o facto de mais de 50 escolas médicas norte-americanas oferecerem cursos que englobam as áreas da espiritualidade, concluindo-se assim que, se num prazo de quatro a cinco anos não tivermos nas nossas universidades formação sobre saúde e espiritualidade, estaremos desactualizados. Apesar de tudo isto, a classe médica continua a insistir em negar a espiritualidade, alegando que esta não tem qualquer relação com a ciência. Todavia, como nenhum cientista provou que o materialismo seja realidade existencial, também é pertinente referir que a ciência não provou ainda que não existe vida após a morte; logo a hipótese de existir vida após a morte constitui-se como viável em ciência.
 

Aspecto do "Salão Nobre" do Ateneu.

Aspecto do "Salão Nobre" do Ateneu.

Na óptica deste psiquiatra, como já passou a época em que os portugueses avançaram para descobrir novos mundos usando as técnicas da náutica e da astronáutica, agora é o momento dos portugueses empreenderem outra viagem para descobrirem outros mundos, utilizando as técnicas da psiconáutica porque, tal como os brasileiros, «os portugueses são pessoas que têm o coração que funciona» e este, aliado à razão que utiliza os aspectos cognitivos, constitui um método de acesso à espiritualidade. Na sua opinião existe uma importante necessidade da participação do sentimento no cientista. No entanto, questiona: como é que a ciência vai descobrir a vida, se está comprometida com a morte?, referindo, por exemplo, que o grande volume de pesquisa dos departamentos de física e engenharia é dirigido para produzir armas.
Nesta linha insiste: como é que vai descobrir a vida se o orçamento da ciência, na sua maior parte, está voltado para a morte? Na medicina, a situação é semelhante, pois as grandes discussões nesta ciência, actualmente, estão voltadas para o aborto e para eutanásia.

Ao longo da sua conferência, o psiquiatra, com o intuito de reforçar a possibilidade da existência do espírito, cita Sigmund Freud, na sua obra "A interpretação dos sonhos", quando este conhecido autor demonstrou que a vida psíquica podia "caminhar" paralelamente ao funcionamento do cérebro, afirmando a existência da alma. Além disso, na base da psicopatologia, Freud estudou os estados conversivos histriónicos, precursores dos distúrbios psiquiátricos, e para os quais não encontrava nenhuma lesão orgânica, mas onde se verificava intensa alteração do comportamento, da mobilidade física e das acções da pessoa, indiciando uma doença da alma, que se manifesta mas que não apresenta alterações do corpo. Aí se explica que Freud designasse a psicanálise como uma "conversa de alma para alma". Ainda sobre a hipótese de Freud, o psiquiatra afirma que esta é correcta, já que só havendo uma neurose ou um problema psíquico é que existe a possibilidade de se instalar aquilo que em medicina se designa de possessão por espíritos.

Deste modo, as questões da influência espiritual são inconscientes porque a pessoa capta e a informação fica alternada no tálamo que é inconsciente. Daí que a pessoa vivencie múltiplos problemas, sem saber a sua origem.
No que concerne ao desenvolvimento da mediunidade, esta não é o desenvolvimento das capacidades paranormais, mas sim a capacidade da pessoa entender os padrões da sua sensibilidade e de os dominar.
Por fim, em jeito de conclusão, este médico enfatiza a ideia de criar uma ciência para a vida, uma vez que a espiritualidade permite uma melhor compreensão e encaminhamento do diagnóstico do médico.
 

Pedro Miguel. Lígia Almeida, Sérgio Filipe, Pedro Rio, Armando Silva e Luís de Almeida.

Pedro Miguel. Lígia Almeida, Sérgio Filipe, Pedro Rio, Armando Silva e Luís de Almeida.

Com o adiantado da hora, Sérgio Filipe continuou numa autêntica maratona, respondendo às perguntas colocadas pelo público, que se recusava a sair do auditório totalmente lotado, ultrapassando mesmo as 2h00 da madrugada. Note-se que o auditório se compôs, na maioria, por profissionais de saúde com destaque para médicos, psicólogos, enfermeiros, bem como estudantes de várias universidades de psicologia e da Faculdade de Medicina do Porto, contando também com alguns espíritas. Vários media estiveram presentes, incluindo rádios, jornais e televisões.
Tornou-se possível a presença deste médico em Portugal, na sequência da realização em Espanha, Barcelona, do I Encontro Europeu de Medicina e Espiritualidade (2), no início de Novembro do ano passado.

 


NOTAS:
1) Licenciado em Medicina e Mestre em Ciências, pela Universidade de São Paulo, Brasil. Trata-se de conceituado médico psiquiatra e investigador. Sérgio Felipe Oliveira é Director Clínico do Pineal-Mind Instituto de Saúde de São Paulo e é presidente da Associação Médico-Espírita de São Paulo, uma instituição com várias décadas de trabalho que surgiu através do interesse no estudo do Espiritismo e da mediunidade comum a vários médicos.
2) Este certame decorreu em Barcelona, organizado pela Federação Espírita Espanhola. Uma particularidade: foi o 1.º evento na área médico-espírita a realizar-se em toda a Europa. Nele participaram diversos pesquisadores, médicos e profissionais da área de saúde que também se dedicam à investigação e estudo do Espiritismo aplicado aos seus campos de actuação.

 

 

Texto oferecido pelo autor, que é membro da AME Porto,

e publicado no "Jornal Espírita da Federação Espírita do Estado de São Paulo”

 

 
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