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II Jornadas Espíritas de Barcelona (2003)
147º ANIVERSÁRIO DA DOUTRINA ESPÍRITA

 

Dra. Lígia Almeida, médica cardiogeriatra e presidente da AME Porto em Seminário no CCCB.

Dra. Lígia Almeida, médica cardiogeriatra e presidente da AME Porto em Seminário no CCCB.

As II Jornadas Espíritas de Barcelona, comemorando o 147º aniversário da doutrina espírita, celebrado em Espanha, ocorreu na cidade de Barcelona no dia 18 de Abril de 2004, no Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona (CCCB). Organizado pelo Centre Espírita Amália Domingo Soler (CEADS) de Barcelona, contou com vários dirigentes da Federação Espírita Espanhola e como convidada de honra, a médica, Dra. Lígia Almeida presidente da AME Porto – Associação Médico-Espírita da Área Metropolitana do Porto.
Barcelona é cidade de referência para o movimento espírita europeu e mundial. Outrora foi palco do “Auto-de-fé” a 9 de Outubro de 1861, com a fogueira inquisitória de 300 volumes, enviados por Allan Kardec ao editor Lachatre. Também no mesmo século e na mesma cidade, realizou-se o Primeiro Congresso Espírita Internacional, nos dias 8 a 13 de Setembro de 1888.
Depois da ditadura do general Franco, Barcelona trouxe-nos mais um Congresso, desta vez em pleno século XXI, onde o Governo de Barcelona, cedeu o CCCB para o evento, considerando oficialmente “que o espiritismo é um movimento cultural e por essa razão tem o apoio do Departamento da Cultura da cidade de Barcelona”. Um facto, que ficará nos anais do movimento espírita.


Abertura do evento
Teresa Vasquez, presidente do CEADS e directora da Área da Divulgação da FEE, abriu o Evento saudando todos os presentes, agradecendo o apoio das historiadoras e espíritas, Pilar Doménech de Valência e Mercedes García de la Torre de Córdoba, bem como do Governo de Barcelona. Com um discurso sóbrio e lúcido, Teresa Vasquez explicou a importância dessas jornadas comemorativas, quer para a cidade de Barcelona quer para Espanha, salientando ainda que a ditadura franquista já “lá vai” e que chegou o momento de se olhar para o presente e para o futuro que se depara. “Temos muito que reconstruir e construir...” referindo-se ainda ao facto inédito de a Cidade de Barcelona, reconhecer oficialmente o espiritismo como um movimento cultural de importância para o desenvolvimento da sociedade catalã, salientou a anfitriã para uma plateia de mais de 200 pessoas, onde o auditório se tornou pequeno para o grande fluxo de público, provenientes do sul e centro de Espanha, com predominância da Catalunha, Valência e Andaluzia.


Congressistas espanhóis e portugueses

Vista parcial do auditório.

Vista parcial do auditório.

Salvador Sanchís do Centre Fraternitat Espirita-Cristiana de Barcelona abriu a conferência com o tema “Homenagem ao Sr. Salvador Sanchís”, seu pai, nascido a 16-12-1913 e falecido a 2-7-2003. Um valenciano oriundo de uma família não espírita e face a um problema de saúde teve contacto com a doutrina espírita, fundando há 20 anos o referido centro espírita. Sem recursos, conseguiu pagar seus estudos obtendo o título de contabilista com a nota mais elevada. Teve um filho e uma filha, seis netos e 3 bisneto, vivendo a Guerra Civil, onde manteve contacto por carta com espíritas espanhóis e estrangeiros, fundando a “Revista Fraternitat Espirita-Cristiana” sendo um elo importante de ligação entre os espíritas sobreviventes à Ditadura e Guerra Civil.
David Santamaría, presidente do Centre Barcelonés de Cultura Espírita presenteou o auditório com o tema “O Livro dos Espíritos: Introdução ao estudo da Doutrina”. Seu trabalho colocou a importância histórica do surgimento do espiritismo no momento e no lugar exacto, explicando a razão de tais acontecimentos, face ao momento sócio-cultural francês vigente à época, destacando a figura singular do professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, com uma personalidade bem determinada e um espírito crítico e racional, fruto da sua educação e formação, bem como da influência do pedagogo suíço Pestalozzi. Mas sobre o tríplice aspecto, não há, de facto, um tri-partidarismo. Na verdade, não há espiritismo científico, nem espiritismo filosófico, e muito menos espiritismo religioso. Porque a questão doutrinária desses três aspectos não é de fraccionamento, de subdivisão, mas é de unidade, e não depende – facto histórico que é, já consumado desde meados do século XIX – das inclinações de gosto ou de aroma de quaisquer prosélitos (...) A ideia espírita constitui-se desse tríplice aspecto, unindo-os, e só assim, na verdade, estaremos a trabalhar com ela, como tão bem definiu Allan Kardec, o Espiritismo é «uma ciência que trata da natureza, da origem e do destino dos Espíritos, e de suas relações com o mundo corporal", acrescentando que ele é, "ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que decorrem dessas relações"», concluiu um dos oradores mais respeitados em Espanha.
 

Alfredo Tabueña, dirigente do Centre Espírita Amália Domingo Soler (CEADS).

Alfredo Tabueña, diri-gente do Centre Espí-rita Amália Domingo Soler (CEADS).

Alfredo Tabueñas, do Centre Espírita Amália Domingo Soler de Barcelona apresentou o tema “Espiritismo: Como eu te sinto”. Muito bem documentado e tendo sempre como bússola Allan Kardec, definiu os princípios fundamentais da doutrina espírita, descrevendo passo-a-passo cada um deles, destacando ainda a importância do estudo de O livro dos Espíritos.
Lígia Almeida, médica presidente da AME Porto – Associação Médico-Espírita da Área Metropolitana do Porto e dirigente do Centro Espírita Caridade por Amor explorou em Seminário, ao longo de uma autêntica maratona de mais de três horas, o Modelo Organizador Biológico nos seus aspectos morfológicos e fisiológicos e sua importância na avaliação clínica dos pacientes. Iniciando com uma breve referência do conceito e da natureza do elo inter-existência, a dirigente espírita de Portugal, apontou a necessidade do médico “observar” o seu paciente como um ser físico-espiritual. Sem se esquecer de explicar o desenvolvimento progressivo do corpo espiritual paralelamente ao do ser inteligente, também elucidou o auditório quanto à evolução integral do ser, desde as formas de vida mais rudimentares até à condição humana. Lígia Almeida abordou ainda, as variadas propriedades e funções perispirituais nos dois planos existenciais, explicando sua estrutura, composição molecular e bioquímica, sua ligação ao corpo físico, e como se dá esse intercâmbio. No final a médica da cidade do Porto, respondeu a dezenas de perguntas colocadas pelo público.

Gerard Horta, doutor em Antropologia Social pela Universidade de Barcelona, não sendo espírita, brindou os presentes com uma parte de sua tese de doutoramento, fruto de 10 anos de investigação “Dialogo e violência: O posicionamento do Espiritismo catalão relativo à violência nos finais do século XIX.”. O tema foi riquíssimo, pois mostrou a importância do “pensamento” espírita e sua influência na sociedade, tornando as pessoas mais coerentes e actuantes junto à realidade vigente. O orador deixa a ideia de uma politização do movimento espírita da época, traduzindo-se por uma ampliação da consciência social do indivíduo frente aos problemas comuns, onde o espírita não mais consegue fechar seus olhos às injustiças e problemática comum seja em qualquer tempo e lugar. Gerard, salientou ainda que os espíritas apresentavam-se na sociedade catalã, como pessoas dinâmicas, racionais, livre-pensadoras, e canalizavam sua energia contra a agressividade e violência vigente à época, apelando ao esclarecimento e diálogo.

Camisolas do evento fornecidas no CCCB pela organização.

Camisolas do evento fornecidas no CCCB pela organização.

Afirmavam que a reforma moral do indivíduo seria a base do sucesso de uma civilização sadia, onde a Liberdade, Igualdade e Fraternidade eram suas “armas”. Face a tal proposta dos espíritas, aliadas à horizontalidade e simplicidade de sua estrutura, sem hierarquias, sem donos e senhores, sem mitos e religiosidade dogmática e ritualista, valeu-lhes a aceitação pela sociedade, o que traduziu, num dos movimentos culturais mais importante na Catalunha do Sec. XIX. O espiritismo triunfa, face a suas ideias libertadoras, racionais e pacifistas e à libertação do Deus- Amor que não tinha paralelo com o deus propalado pelas religiões. Três deputados espíritas de então, tentam instituir o estudo do espiritismo nas escolas oficiais catalãs, finaliza o antropólogo catalão.


Facto curioso
No final, realçamos, uma das funcionárias do respeitado e conceituado Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, que nos confidenciou, “não fazia a mínima ideia que o espiritismo era um movimento cultural, livre-pensador e racional, sem rituais, crendices e chefes. Afinal é constituído por pessoas normais da sociedade. Pensava que o espiritismo era mais uma seita religiosa cheia daquelas “coisas” místicas e esotéricas. No fundo, mais uma nova religião, sem qualquer expressão na sociedade espanhola e europeia e que vive e sobrevive, explorando os mais incautos, em beneficio próprio. ”Onde poderei saber mais sobre esta doutrina libertadora e consoladora”, perguntava-nos a responsável pelo CCCB.

 

 

Texto oferecido pelo autor, que é membro da AME Porto,

e publicado no "Jornal Espírita da Federação Espírita do Estado de São Paulo”

 

 
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