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Reportagens

I Jornada Espírita de
Barcelona (2003)
146º ANIVERSÁRIO DA DOUTRINA ESPÍRITA
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Teresa Vasquez, anfi-triã
do evento, presi-dente do CEADS de Barcelona e directora da Área da
Divulgação da Federação Espírita Espanhola, com o seu filho mais novo. |
O 146º aniversário da
Doutrina Espírita celebrado em Espanha, ocorreu na cidade de Barcelona no
dia 27 de abril de 2003. Organizado pelo Centre Espírita Amália Domingo
Soler (CEADS) de Barcelona, contando com vários dirigentes da Federação
Espírita Espanhola (FEE)”.
Barcelona é cidade de referência para o movimento espírita europeu e
mundial. Outrora foi palco do “Auto-da-fé” a 9 de Outubro de 1861, com a
fogueira inquisitorial de 300 volumes, enviados por Allan Kardec ao editor
Lachatre. Também no mesmo século e na mesma cidade, realizou-se o Primeiro
Congresso Espírita Internacional, nos dias 8 a 13 de Setembro de 1888.
Depois da ditadura do general Franco, Barcelona trouxe-nos mais um
Congresso, desta vez em pleno século XXI. Um facto que ficará nos anais do
movimento espírita.
Abertura do evento
Teresa Vasquez, presidente do CEADS e directora da Área da Divulgação da
FEE, abriu o Evento saudando todos os presentes. Com um discurso, sóbrio e
lúcido, Teresa Vasquez explicou a importância dessas jornadas
comemorativas, quer para a cidade de Barcelona quer para Espanha,
salientando ainda que a ditadura franquista já “lá vai” e que chegou o
momento de se olhar para o presente e para o futuro que se depara. “Temos
muito que reconstruir e construir...” salientou a anfitriã para uma
plateia de mais de cem pessoas, onde o auditório se tornou pequeno para o
grande fluxo de público, alguns provenientes do sul e centro de Espanha.
Face à qualidade da organização e de seus conferencistas, as expectativas,
foram ultrapassadas. A organização já se prepara para um espaço com
capacidade de 3 a 4 vezes mais lugares para o próximo evento a realizar-se
em 2004.
Congressistas espanhóis e portugueses
David Santamaría, o primeiro conferencista, é presidente do Centre
Barcelonés de Cultura Espírita (CBCE) e presenteou o auditório com o tema
“Allan Kardec y los inicios del Espiritismo”. Seu trabalho colocou a
importância histórica do surgimento do espiritismo no momento e no lugar
exacto, explicando a razão de tais acontecimentos, face ao momento
sócio-cultural francês vigente à época, destacando a figura singular do
professor Hippolyte Léon Denizard Rivail, que com uma personalidade bem
determinada e um espírito crítico e racional, fruto da sua educação e
formação, bem como da influência do pedagogo suíço Pestalozzi. “Mas sobre
o tríplice aspecto, não há, de facto, um tri-partidarismo. Na verdade, não
há espiritismo científico, nem espiritismo filosófico, e muito menos
espiritismo religioso. Porque a questão doutrinária desses três aspectos
não é de fraccionamento, de subdivisão, mas é de unidade, e não depende –
facto histórico que é, já consumado desde meados do século XIX – das
inclinações de gosto ou de aroma de quaisquer prosélitos (...) A ideia
espírita engloba, constituindo-se nesse tríplice aspecto unindo-os, e só
assim, na verdade, estaremos a trabalhar com ela.”, concluiu um dos
oradores mais apreciados em Espanha.
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Luís de Almeida. |
Salvador Martín, presidente
da Federação Espírita Espanhola iria apresentar, pessoalmente o tema
“Actualidad del movimiento espirita en España” todavia, por motivos
profissionais de última hora, Salvador delegou o seu trabalho, já
elaborado pelo próprio, à sua colega também da FEE, Teresa Vasquez, que o
representou. Assim Salvador, através da “voz” de Teresa, com uma clareza e
honorabilidade que lhe são peculiares, aclarou de uma vez por todas a
postura do Espiritismo em Espanha como uma ciência filosófica de
consequências morais. “Se existe um assunto que tem criado polémica,
dissensões, separações e divergências em Espanha nestes últimos anos, é se
o espiritismo é ou não é uma religião”, inicia assim o presidente da FEE.
Depois, de transmitir trechos na íntegra do codificador da Doutrina
Espírita, Salvador Martín, muito bem documentado e tendo sempre como
bússola Allan Kardec, conclui: “Então podemos afirmar com Allan Kardec,
que o espiritismo não é uma religião. (…) Nossa opinião é a do codificador
e o equívoco está naqueles que querem fazer do Espiritismo algo puramente
cientifico e aqueles que pretendem reduzir o Espiritismo a mais uma
religião. Uns e outros estão equivocados. (…) Allan Kardec definiu o
Espiritismo como "uma ciência que trata da natureza, da origem e do
destino dos Espíritos, e de suas relações com o mundo corporal",
acrescentando que ele é, "ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma
doutrina filosófica.
Como ciência prática, consiste nas relações que se podem estabelecer com
os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que
decorrem dessas relações", e o presidente da FEE, finaliza com um claro
alerta para o estudo sério e sadio, bem como para a unidade entre todos os
espíritas, deixando bem claro que todos somos diferentes, logo, como
espíritas temos o dever de construir a Fraternidade apesar das
divergências, e a disposição de aceitar e de aprender com aqueles que são
e pensam diferente. Esta sua exposição foi marcada pela maior ovação,
sendo um dos momentos mais marcantes do Congresso.
Gerard Horta, doutor em Antropologia Social pela Universidade de
Barcelona, não sendo espírita, brindou os presentes com a tese de seu
doutoramento, fruto de 10 anos de investigação “L´espiritisme català del
segle XIX com a movíment de transformació social”. O tema foi riquíssimo,
pois mostrou a importância do “pensamento” espírita e sua influência na
sociedade, tornado as pessoas mais coerentes e actuantes junto à realidade
vigente. O orador deixa a ideia de uma politização do movimento espírita
da época e da actualidade, traduzindo-se por uma ampliação da consciência
social do indivíduo frente aos problemas comuns, onde o espírita não mais
consegue fechar seus olhos às injustiças e problemática comum seja em
qualquer tempo e lugar.
Luís de Almeida, articulista e presidente do CECA na cidade do Porto,
encerrou o evento com a conferência “El movimiento espirita en Portugal:
Desde los inicios hasta la actualidad”. O conferencista português levou a
plateia a uma viagem desde os finais do século XIX, em que o triângulo
“Portugal-França-Brasil” foi um registo histórico, com as primeiras
publicações espíritas surgidas no século XIX, na Monarquia, em que avulta
a figura de Fernando de Lacerda: o médium português, passando pela
proclamação da Republica a 5 de Outubro de 1910 destacando algumas
personalidades: António Joaquim Freire, Afonso Acácio Martins Velho,
António Lobo Vilela entre tantos outros na formação do I Congresso
Nacional de Espiritismo realizado de 15 a 18 de Maio de 1925 e da fundação
da Federação Espírita Portuguesa em 1926, sendo que à época existiam cerca
de 30 centros espíritas em Portugal. Mais tarde, o ditador António
Oliveira Salazar a 7 Dezembro de 1953 manda confiscar todo o património
dos espíritas e persegue-os.
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Teatro da juventude
espírita catalã. |
Com a liberdade restaurada a
25 de Abril de 1974, surgem as primeiras associações espíritas,
destacando-se: Julieta Marques, Palma Cláudio, Izidoro Duarte dos Santos,
Eduardo Matos, Maria Raquel Duarte Santos, Manuel dos Santos Rosa, João
Xavier de Almeida, Albuquerque Rocha, Júlia Pereira etc.… e o jovem Jorge
Gomes bem como o papel capital da Juventude dos anos 80. A Juventude une e
dinamiza os dirigentes espíritas portugueses com os seus Congressos
realizados por jovens e para jovens. Destes encontros juvenis (ENJE´s), os
mais velhos, somente como observadores, pensam em intercâmbios e na
criação de um Congresso Nacional, realizando-se 9 anos depois dos
primeiros congressos juvenis. O astrofísico português, demonstrou com
factos e de forma inequívoca, a importância da Mocidade no movimento
espírita após a “Liberdade” até início de 2000, altura em que a Juventude
foi relegada a um papel secundário dentro do movimento, não sendo
incentivada no seu real potencial e utilidade actuante de outrora, só lhes
restando “cantar e bailar”. Face à situação, realçou algumas conferências
proferidas em Portugal por Raul Teixeira: «Já não serve estarmos sempre a
dizer que a juventude é o futuro e nada fazermos por tal. Muito menos
pô-los sem fazer nada, ou então a colocá-los a dançar e cantar. Os
detentores da "verdade absoluta" estão condenados ao fracasso. Hoje, a
juventude tem o seu estatuto bem característico e há que saber aproveitar
todo o seu potencial. Colocá-los a dirigir, organizar e administrar o
centro espírita.». A 31 de Julho de 1999 é constituída a Associação de
Divulgadores de Espiritismo de Portugal. Fundada por 11 jovens dirigentes
espíritas, distribuídos por todo o território português, a maior parte
deles oriundos da Juventude da década de 80. O articulista português tocou
ainda nas boas relações com os media e a sociedade civil até início de
2000. Actualmente, só resta o dinamismo e a credibilidade de algumas
associações, à margem de qualquer instituição aglutinadora nacional. De
alguns dirigentes espanhóis fica o comentário final “Com esta exposição
tivemos a oportunidade de conhecer a realidade do espiritismo no país
vizinho, tão perto e tão desconhecido para nós.
Este trabalho causou um enorme impacto entre o público porque pudemos
vivenciar os erros e dores que se podem causar quando se converte o
espiritismo numa ferramenta autoritária e manipuladora. Até ao inicio de
2000 o espiritismo em Portugal foi riquísimo e tinha uma continuidade
invejável. O espiritismo é livre, e ninguém é detentor da verdade
absoluta. Presidentes vitalicios?! Qualquer acção e imposta, que pretenda
retirar ao espiritismo o seu carácter libertador e que não esteja
alicerçado no seu triplice aspecto, sem respeitar as diferentes opiniões e
passar por cima de tudo e de todos, é afastar-se dos seus postulados. A
ditadura de Franco e Salazar, já terminou faz quase 30 anos».
Texto oferecido pelo autor,
que é membro da AME Porto,
e publicado no "Jornal
Espírita da Federação Espírita do Estado de São Paulo”

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