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Personalidades

Amélia dos Santos Costa
Cardia
Destacou-se no viçoso movimento
espírita português. Formada em medicina, foi a primeira mulher que defendeu tese
inaugural, em 1891, tendo escolhido para tema «A Febre Histérica». Como médica
teve uma clínica entre as melhores casas de Lisboa e montou uma Casa de Saúde
que foi frequentada pelos cirurgiões e médicos portugueses mais categorizados.
Escritora de reconhecidos méritos, publicou numerosos artigos em vários jornais
e romances em folhetins no «Diário de Notícias», tendo publicado romances como
«A Judia», «Episódios da Guerra» e «Na Atmosfera da Terra», romance
neo-espiritualista. Foi directora de «O Mensageiro Espírita».
Na continuidade do tema que
iniciámos no nosso número anterior, desta vez, é como se perguntássemos à Drª.
Amélia Cardia como se tornou espírita. Em suma, abriu-se na sua frente, «de modo
imprevisto e muito surpreendente para mim, essa evidência: uma tarde, em 1916,
foram introduzidas na minha sala de consulta duas senhoras de aspecto comedido,
decentemente vestidas, uma delas servindo de companhia à que vinha consultar-me
e que me disse que vinha ali por conselho do meu colega X... para que eu,
observando-a, a tranquilizasse e dissipasse o temor que lhe inspiravam os seus
padecimentos, a que ele não atribuía aliás gravidade alguma.
- Mas - respondi-lhe - engana-se por certo. Há quanto tempo esse meu colega
faleceu!
- Há já anos, bem sei, mas é o meu guia e vim cá por conselho dele, que me
prometeu acompanhar-me, embora afirme que o caso não tem gravidade. Está aqui
presente». Duvidou «sem que um músculo da face me atraiçoasse o pensamento. No
meu transcurso escolar pelos manicómios tinha aprendido o bastante para não
contrariar nunca um louco, mostrando duvidar da sua sanidade - a maior ofensa
que se lhe pode fazer e em que não corremos pequeno risco - e condescendi de
boamente em aceitar a conferência com o colega, invisível para mim, mas que
diziam estar presente e de que eu ria no íntimo com aquele riso imbecil dos
ignorantes, diplomados ou não, ufanos da sua sabença. (...) Sentia-me totalmente
avessa a tudo que desviasse da orientação positiva das escolas que tivera de
frequentar e que só podia atribuir a um cérebro desequilibrado, se bem que...
digamo-lo aqui à puridade, essa relutância era meramente ostensiva; no intimismo
do meu eu não podia negar crédito a fenómenos insólitos, passados comigo, para
os quais nem buscava explicação, contentando-me de os registar nos mais secretos
arquivos da memória mais recôndita. Feita a observação escrupulosa da consulente
- na verdade um caso ginecológico banal - precisou ela de se retirar a um
compartimento contíguo. Aproveitei a ausência para me informar do seu estado
mental e perguntei a meia voz à sua companheira:
- Há muito tempo que esta senhora está perturbada da cabeça?
- Perturbada?!... Está em seu perfeito juízo. Esta senhora é uma boa médium
espírita que tem por guia o doutor X.
Emudeci, desviando o olhar para que ela não pudesse ler que eu a classificava
sob a mesma rubrica da amiga. Rir do que ignoramos é só próprio de idiotas.
(...) Satisfazendo a importância da sua consulta, contente com o diagnóstico, a
singular consulente disse-me:
- Está em aberto a dívida do meu
reconhecimento, que desejo manifestar-lhe, fazendo qualquer cousa que lhe seja
agradável, minha senhora. Todos gostam de conhecer o que se relaciona com o seu
futuro, os seus planos de vida. Se quer que eu lhe saiba alguma coisa nesse
sentido posso servi-la. Diga-me por escrito o que deseja que eu lho farei
conhecer em carta.
Não resisti ao convite e fiz três perguntas sobre assunto só de mim conhecido,
em termos quase enigmáticos e entrguei a folha de papel, saboreando de antemão a
certeza que iria ter da inutilidade duma tal tentativa que justificaria o meu
cepticismo asnático. Regressando a casa, referi à família o cómico incidente,
omitindo todavia uma das perguntas feitas por mim à pretensa pitonisa, aquela
que a todos em casa interessava oportunamente por ser relativa a um pedido a que
eu opunha tenaz resistência. Absorvida por graves preocupações, tinha esquecido
ao fim de três ou quatro semanas a estranha consulta quando encontrei na minha «boite-aux-lettres»
ao chegar ao consultório, o envelope em que eu própria escrevera a minha
direcção e introduzira a celebrada folha de papel, contendo em cada lauda uma
das três perguntas e abaixo das quais via agora, numa caligrafia apertada,
irregular, as respectivas respostas, referentes a pessoa que a mencionada
consulente não conhecia nem por tradição. Só pelas palavras estupefacção, pasmo,
posso traduzir a sensação que me empolgou ao ler o que o papel continha.
Definição exacta de caracteres com peculiaridades só de mim conhecidas, de
tendências, de gostos, de estados de saúde, de ocupações, de predilecções,
afirmações seguras que me contrariavam fortemente mas de que vislumbrei a
realização possível em vista da veracidade de tudo mais... um assombro. Como
fora aquilo? Só mergulhando fundo na alma das pessoas se podem descobrir os mais
secretos intuitos, os seus mais recônditos pensamentos. Só pela introspecção nos
organismos se pode descobrir a sede precisa de uma lesão. E aludia-se a uma que
passara desapercebida à observação de muitos clínicos e só fora revelada por um
sintoma brutal na marcha insidiosa de uma infecção!
Era inexplicável para mim o que sucedia. Cortei a meia folha que se referia ao
assunto que eu não permitia que se discutisse entre os meus e mostrei-lhes a
restante. Confundiu-os o mesmo espanto. Sugeriu-se a palavra espíritos. Alguém,
que já presenciara sessões tiptológicas, narrou factos insólitos, eu tinha uma
dessas mesinhas de coluna apoiada em três pés. Impressionada pela carta, lembrei
que se fosse buscar a mesa e nos sentássemos à volta dela para ver se ela
respondia ao nosso interrogatório, confirmando os dados do estranho documento.
E não tardou que a mesa se movesse e nos desse a mensagem do espírito de um dos
meus mais queridos finados, correspondendo à pergunta que eu tinha
cuidadosamente ocultado. O meu estratagema foi descoberto. Outras mensagens se
seguiram de espíritos que na vida terrena tinham exercido sobre mim incontestada
autoridade, impondo-me agora amoravelmente, mas com firmeza, que abandonasse as
minhas prevenções e assentisse ao que os meus solicitavam.
Essas mensagens, num estilo que só eu conhecia entre os presentes, deram-me a
convicção de que provinham dos meus desaparecidos e submeti-me à sua vontade
respeitosamente. O resultado não poderia ter sido mais favorável aos meus e a
mim. «Procede assim... disso depende a ventura de todos.» - foi-me dito. E a
profecia realizou-se integralmente. (...)
Que era preciso fazer? Ler espiritismo, verdadeiro espiritismo. Só isso.
Espiritismo expurgado dos elementos supérfluos, prejudiciais à concepção,
contraproducentes mesmo, com que o deturpam as divagações imaginárias dos
sensitivos, propositadamente ou não, e até o subjectivismo inconsciente dos
experimentadores.
Escolhi criteriosamente. Li com atenção. Formei um juízo desapaixonado, que
evocou na minha mente uma nova realidade espiritual positiva - o Espiritismo.
Assim me tornei espírita».
Texto oferecido pelo autor,
Jorge Gomes, à AME Porto
e publicado na "Revista de
Espiritismo" nº22

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