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O médico responde
TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO, MEDIUNIDADE E MEDIUNATO “Grande confusão” com desastrosas conseqüências – estudo de caso
No dia 14 de agosto/2004 foi-nos repassada a seguinte carta de leitor do JDE: “Estimado Dr. Iso, pretendo saber o que se passa comigo. Desde pequeno, ainda de colo, que sofro de obsessões, compulsões, idéias fixas e manias. Pensamentos recorrentes. Ultimamente o meu estado de saúde tem-se vindo a agravar de dia para dia. Sensação de mal-estar. Dores de cabeça. Sensação de um peso na minha cabeça. Pensamentos obsidiantes, recorrentes sobre o sexo. Penso que um dia vou ficar louco e passar o resto dos meus dias num hospital psiquiátrico.
Os
psiquiatras dizem que eu tenho uma Neurose Obsessivo-Compulsiva, mas os
medicamentos não fazem nenhum efeito. Em face da sintomatologia que
apresento, sempre tenho tido acompanhamento psiquiátrico e psicológico,
mas sem nenhum resultado. Já fiz todos os exames possíveis e imaginários
e nada me foi detectado. Os psiquiatras e psicólogos não sabem o que eu
tenho. Uns dizem que é uma coisa, outros dizem que é outra. É uma grande
confusão! Um psiquiatra português já me disse que podem ser espíritos que
andam comigo.(...)”
E prossegue o nosso leitor:
E o nosso leitor conclui dramática e desesperadamente:
“Uma coisa é certa, sendo médium ou não, trabalhando ou não, continuo
cada vez pior e já passou mais de uma dezena de anos nesta situação.
M.J. – Portugal
TOC e seu tratamento. A julgar-se pelos sintomas referidos pelo Sr. MJ (obsessões, compulsões, “manias”, etc.) é bem possível que ele sofra de uma Neurose Obsessivo-Compulsiva, hoje chamada Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), segundo a Classificação Internacional da Organização Mundial de Saúde (OMS)...
Podemos resumir a conceituação do TOC dizendo que nesta doença os pacientes apresentam idéias intrusivas (obsessivas), recorrentes, geradoras de ansiedade e, na luta contra elas, resultam rituais repetitivos, compulsivos... Por exemplo: uma paciente ao entrar numa Igreja católica tem idéias intrusivas de que deve olhar para a genitália da imagem de determinado santo e, depois de uma luta quase incessante para afastar tal idéia do campo de sua consciência, é levada a ”rituais de purificação”, como o de lavar as mãos, várias e várias vezes, embora elas já estejam limpas. Tais “rituais” ocupam, muitas vezes, várias horas do dia, caracterizando-se a inutilidade e o caráter patológico, doentio, de seu comportamento compulsivo.
Os exames complementares nos pacientes com TOC não revelam, via de regra, nenhuma anormalidade, pois a alteração é funcional do cérebro, com disfunções bioquímicas, ainda incompletamente esclarecidas... Ainda que os medicamentos não estejam fazendo efeito no TOC – como parece estar acontecendo no caso do Sr. M.J. -, isto não significa que o diagnóstico de Neurose Obsessivo-Compulsiva esteja errado, pois o TOC é, talvez, a Neurose mais grave e de mais difícil tratamento...
O Sr. leitor não citou o(s) medicamento(s) dos quais fez uso, mas gostaríamos de esclarecer que a substância clomipramina, assim como antidepressivos mais modernos, como a fluoxetina, o cloridrato de sertralina e outros, produzem bons resultados no tratamento do TOC; no entanto, os resultados nem sempre são satisfatórios, devido à gravidade dos sintomas da doença e aos eventuais efeitos colaterais da droga utilizada; por isso, só devem ser usados sob prescrição médica, por um médico-psiquiatra. Não obstante, o tratamento farmacológico deve ser aliado a uma psicoterapia e complementado por orientação espiritual e recebimento de passes por pessoas hígidas mental e fisicamente.
Confusão entre Mediunidade e Mediunato. É lamentável a confusão conceitual e prática de alguns dirigentes espíritas, conduzindo, muitas vezes, a conseqüências desastrosas, como parece ocorrer no caso do Sr. MJ... Quando o Sr. leitor afirma que pessoas lhe revelam ser ele “um grande médium curador”, sem o mínimo de conhecimento dos seus sintomas e de sua pessoa, e o estimulam a aplicar passes em outras pessoas, isto denuncia como alguns Centros Espíritas, em Portugal (embora seja de ocorrência freqüente no Brasil), estão mal orientados doutrinariamente, faltando estudo sério da Doutrina dos Espíritos...
Não há nenhum sinal ou sintoma específico, revelador de mediunidade de um indivíduo (a este respeito, leia-se o item 200, Cap. XVII, de O Livro dos Médiuns, de ALLAN KARDEC, especialmente as páginas 237 e 238 (op. cit. Edit. FEB, Rio de Janeiro, 30 ª ed.); além disso, confunde-se mediunidade geral ou estática (que todos nós a possuímos) com o mediunato ou mediunidade dinâmica, isto é, mediunidade de serviço ou missionária)...
É desaconselhável a participação nas mesas mediúnicas de pessoas com qualquer tipo de doença, especialmente, a aplicação de passes por estas; porque, já o dissemos nesta Coluna, quem está doente precisa de “fluidos restauradores” e não cabe a um doente doar seus fluidos, pois tal comportamento seria semelhante à recomendação a uma pessoa com grave anemia que doasse seu próprio sangue!!... Enfim, uma total falta de bom senso de alguns dirigentes espíritas portugueses, e também brasileiros, pois temos notícias de que isso também ocorre entre nós, aqui na cidade do Rio de Janeiro...
Epílogo Em tese, sugerimos aos Srs. leitores, que sofram de TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), que mantenham seu tratamento psiquiátrico e que o Sr. MJ confie no seu médico e, de preferência, que este faça psicoterapia e que o Sr. MJ freqüente um Centro Espírita bem orientado e não aceite participar, em nenhuma hipótese, de trabalhos mediúnicos, pois, a nosso ver, estão contra-indicados para qualquer pessoa doente, principalmente, para casos de TOC.
Há “uma grande confusão” - como diria o Sr. leitor – no movimento espírita, pois alguns dirigentes ainda não conseguiram compreender o que seja mediunidade estática ou geral – que não necessita ser “trabalhada” – e nem o que seja mediunidade dinâmica ou mediunato, esta sim, uma mediunidade de serviço, missionária. Por isso, aconselhamos aos nossos leitores, especialmente os Srs. e Sras. dirigentes espíritas, que releiam a mensagem XII, do Espírito JOANA D’ARC, contida no Cap. XXXI, de O Livro dos Médiuns, de ALLAN KARDEC e que leiam, também, o livro Mediunidade (Vida e Comunicação), de J. HERCULANO PIRES (EDICEL, São Paulo), especialmente os capítulos II e III e, em particular, as páginas 18 e 19 (op. cit., 6 ª ed., 1986).
Não se desespere. Sr. leitor, o seu mal é de difícil tratamento, mas este existe e com resultados bons; porém, é preciso também a sua participação ativa e positiva nele, porque além do problema psiquiátrico, específico, do TOC, este seria também uma auto-obsessão espiritual, pois o seu psiquismo estorvante inibe todos os seus eventuais projetos espirituais e existenciais, que, provavelmente, o Sr. assumiu ao reencarnar-se e, conseqüentemente, tal inibição compromete o seu enfrentamento das provas, autenticamente; retardando, sobremaneira, a sua evolução espiritual.
Quando JESUS curava com passes, costumava dizer ao doente: Vá e não peques mais! Ou seja, apesar da gravidade de uma doença devemos sempre fazer a nossa parte e enfrentarmos as nossas provas com autenticidade, existencialmente falando, e praticar o Bem, sempre...
Muita PAZ a todos os nossos leitores.
Texto: Dr. Iso Jorge Teixeira
Texto publicado no "Jornal de Espiritismo" e oferecido por um membro da AME Porto que é responsável pelo espaço jornalístico da coluna "Medicina e Espiritualidade"
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