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O médico responde

 

 

TENTATIVA DE INTERPRETAÇÃO ESPÍRITA NUM CASO RARO DE 'IRMÃS SIAMESAS'

'Craniopagus parasiticus'

 

 

No dia 28 de maio recebemos o seguinte mail sobre raro caso médico e indagações complexas do ponto de vista espiritual: “M.M. [o Sr. leitor colocou o nome da pessoa] nasceu a 30 de Março de 2004 com uma deficiência rara, a «craniopagus parasiticus», que acontece quando um embrião começa a dividir-se para formar gémeos idênticos mas não completa o processo, deixando no útero um bebé por desenvolver. Essa criança egípcia foi-lhe amputada uma das duas cabeças com que nasceu, tornando-se única sobrevivente em dez casos semelhantes em todo o Mundo. O Dr. Iso Jorge Teixeira poderia explicar estes casos à luz da doutrina espírita? Duas cabeças, dois espíritos? Porquê? O que os espiritos, neste caso em particular, terão para evoluir?

 

José Magalhães – Braga

 

Nas perguntas do Sr. leitor, muito teríamos de argumentar para respondê-las, pois há uma série de distorções da Doutrina dos Espíritos, relacionadas ao assunto, que vem se perpetuando em nosso movimento espírita... Mas, vamos sintetizar asa nossas idéias neste espaço que nos é reservado...

 

Gêmeas siamesas - Classificação dos casos de Teratologia em gêmeos. A palavra siamês provém do caso descrito de anormalidade anatômica acusada em gêmeos, que nasceram acoplados, unidos, um no outro... Este 1.o caso ocorreu em Sião, atual Tailândia, em 1811.

 

A partir de então, convencionou-se chamar gêmeos siameses a tais casos de “teratologia”, isto é, de seres humanos “monstruosos”, duplos, ligados pela cabeça, pelo tórax, pelo osso esterno, etc. Assim, do ponto de vista médico, tais anormalidades corporais são classificadas no interessante capítulo da embriologia chamado "teratologia” em:

1- "Monstros” de eixos corporais paralelos" (teratópagos);
2- “Monstros” em forma de Y;
3- “Monstros” em forma de Y invertido;
4- “Monstros” parasitários.

 

No 1o. caso, há a subclassificação, dependendo das partes do corpo acopladas, unidas:

a- toracópagos – ligados pelo tórax; b- esternópagos ou xifópagos propriamente ditos – ligados pelo osso esterno, no apêndice xifóide deste; c- cefalo-toracópagos – ligados pela cabeça e tórax; d- metópagos – ligados pela face; e- pigópagos – ligados pelo dorso.

 

No 2o. caso, em forma de Y, há uma bifurcação a partir de certa região do eixo do corpo, com 2(duas) cabeças, 2(dois) troncos, para um par de pernas.

 

No 3o. caso, em forma de Y invertido, há uma cabeça e tronco e pares de membros duplos.

 

E, finalmente, no 4o. caso, no qual nos concentraremos aqui neste trabalho - o grupo dos “PARASITÁRIOS”, um dos indivíduos é atrofiado e “parasita” o outro (“autosita”), que, em geral, é bem desenvolvido e proporcionado.

 

O gêmeo “parasita” está subdesenvolvido, como bem relatou o Sr. leitor JOSÉ MAGALHÃES, isto é, num dos gêmeos não é completado o processo embrionário... Há casos em que só existe uma cabeça “parasita” inserida na cabeça (“autosita”) do gêmeo desenvolvido. No caso relatado pelo Sr. Leitor, além da cabeça “parasita”, há um esboço de tronco em M.M. (VER FIGURAS)...

 

Explicação médica dos casos de gêmeos siameses. Como temos dito, há confrades que tudo querem explicar através do Espírito, esquecem-se de que temos um corpo e, alguns, sem o mínimo de formação médica, arriscam-se a escrever e palestrar sobre o que não conhecem – Medicina. Um desses confrades, do qual omitiremos o nome por motivos óbvios, chega a dizer a seguinte barbaridade do ponto de vista da Lógica Formal: “ Os médicos explicam as causas, mas não respondem o porquê”!!!!...

 

Há algumas dúvidas, do ponto de vista médico, das causas desses casos de Teratologia em gêmeos. No caso de “Craniopagus parasiticus” o que parece ocorrer é que haveria um comprometimento da perfusão sangüínea a um dos gêmeos unidos, e foi observado através da detecção de HIPOPLASIA (desenvolvimento incompleto) DAS ARTÉRIAS UMBILICAIS... Enfim, faltando sangue para o desenvolvimento embrionário de um dos fetos, este ficaria incompleto, daí a anomalia, a “monstruosidade”, a teratologia...

 

“Duas cabeças, dois Espíritos? Por que?” As perguntas do Sr. Leitor são instigantes e complexas para serem respondidas, no entanto, há confrades que as responderiam sem nenhuma sustentação científica e doutrinária, assim: “(...) a justiça divina encontra, nesta situação de siamesas, a alternativa de colocá-las NUM SÓ CORPO a fim de que, necessitando uma da outra para viver e desenvolver suas atividades - (...). - o grifo é nosso.

 

Ora, há erros grosseiros na tese, acima. Em primeiro lugar, ‘UM SÓ CORPO” não pode abrigar “dois Espíritos”; além disso, não está demonstrado, cientificamente, que gêmeas siamesas “necessitem uma da outra para viver”... No caso, específico, de M.M., a gêmea “parasita” é que necessitaria da outra para viver e a outra (“autosita”) em nada necessita da “parasita” para viver e sobreviver... Haveria, então, dois Espíritos? A resposta, neste caso específico de craniopagus parasiticus, é bem mais difícil do que em outros casos de gêmeos siameses...

 

O que define, fundamentalmente, a presença do Espírito em um corpo, encarnado, é o Princípio Inteligente, pois “um corpo pode viver sem inteligência, mas a inteligência só pode manifestar-se por órgãos materiais através da “união com o espírito”, pois ela “dá inteligência à matéria animalizada” [cf. resposta à questão 71 de O Livro dos Espíritos (OLE)]. Haveria no gêmeo “parasita” a presença da Inteligência? Parece-nos que a resposta é NÃO... E aqui é que há uma grande confusão no movimento espírita em relação às conexões entre “vida” e “Espírito”. Repetiremos aqui o que dissemos alhures: o que dá vida a um corpo é o “princípio vital” , que tem sua fonte na “MATÉRIA universal” (cf. resposta à questão 67 de OLE) e não o Espírito, e o caso do gêmeo “parasita” de M.M. parece-nos um exemplo disso... Porém, poderiam argumentar: se há um corpo, haveria um Espírito!.... A nosso ver, não! Em resposta à questão 356 de OLE, referente aos natimortos, a Espiritualidade Superior diz: “Sim, há as que JAMAIS tiveram um Espírito destinado aos seus corpos; nada devia cumprir-se nele.(...)”.

 

Assim, Srs. Leitores, respondemos à última pergunta do Sr. leitor JOSÉ MAGALHÃES: o corpo “parasita” de M.M. não terá nada para evoluir, nada devia cumprir-se nele, sua vida é meramente VEGETATIVA, aliás, FOI vegetativa, porque M.M. foi submetida a cirurgia e foi extirpada a “cabeça parasitária”...

 

MOB e DOB. Tem sido explicado por alguns confrades que o perispírito modelaria o corpo, como se aquele fosse uma fôrma... Já nos posicionamos contrariamente, nesta Coluna, em relação a essa tese fatalista. O que nos parece é que haja uma DIRETRIZ Organizadora Biológica (DOB), espiritual, e não perispiritual! Não obstante, o corpo procede do corpo (cf. parte da resp. à questão 207 de OLE) e é através de anomalias embrionárias, no caso, provocado por hipoplasia das artérias umbilicais, que se irá formar o gêmeo anômalo, parasita, sem Princípio Inteligente e, portanto, sem Espírito.

 

Quando nascem gêmeos siameses, com cabeças duplas, bem proporcionadas, obviamente, haveria 2(dois) Espíritos, mas com DOIS CORPOS e não um somente!... No caso de craniopagus parasiticus, não! Haveria UM SÓ ESPÍRITO, com um corpo quase normal e outra cabeça (e um esboço de tronco no caso de M.M.), sem Espírito. Por que afirmamos isto? Porque a cabeça “parasita” não deu sinais de Inteligência, somente piscava os olhos e esboçava outros movimentos automáticos, nada mais...

 

Razões espíritas para o caso de M.M. Bem, alguns confrades interpretam os casos de “gêmeos siameses” como tendo sido esses Espíritos “inimigos em vidas anteriores” e que teriam sido colocados “juntos”, “num mesmo corpo” para a reconciliação...

 

Baseados em quê, tais confrades afirmam isto? Em informes mediúnicos, sem concordância universal dos espíritos? Baseados em “fisiologia” dos “chakras”, sem base científica?...

 

No caso específico de M.M., a única razão espiritual para a ocorrência da anomalia é uma PROVA para os pais, conforme podemos depreender da resposta à questão 356 DE ole, “in fine”... Poderiam contra-argumentar que a gêmea “parasita” não nasceu morta... É verdade, mas do ponto de vista espiritual a gêmea “parasita” de M.M. não teria condição de sobreviver e, além disso, a sobrevida dos gêmeos siameses, EM GERAL, é muito curta...

 

Por que DEUS permite casos, assim, tão extravagantes e dolorosos? As obras do Criador muitas vezes são “INCOMPLETAS” e isso pertence aos desígnios de DEUS e ninguém é chamado a julgar. Leiamos isso num trecho da resposta da Espiritualidade Maior à questão 360 de OLE:

“(...) Por que não respeitar as obras da criação, que, às vezes, são INCOMPLETAS, pela vontade do Criador? Isso pertence aos seus desígnios, que ninguém é chamado a julgar.”

 

Texto: Dr. Iso Jorge Teixeira

 

 

Texto publicado no "Jornal de Espiritismo" e oferecido por um membro da AME Porto

que é responsável pelo espaço jornalístico da coluna "Medicina e Espiritualidade"

 
 

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