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O INCONSCIENTE E O ATEÍSMO CONTEMPORÂNEO

 

 

Em 04 de agosto deste ano foi-nos repassada a seguinte carta de nossa leitora do JDE: "Senhor Dr. Iso, parabenizo-o bem como o Jornal de Espiritismo, por terem uma Coluna dedicada a um tema tão interessante "Psiquiatria e Espiritismo" que para nós espíritas é muito pouco entendido. Sou uma fã de seus trabalhos que me esclarecem muito. Aproveito a oportunidade que o JDE me confere para solicitar ao respeitado espírita como médico psiquiatra e docente que escrevesse sobre o "Inconsciente: sua ligação com a Doutrina Espírita".

 

Fernanda da Silva - Santa Maria da Feira

 


Muito obrigado, caríssima Sra. FERNANDA, pelas palavras de incentivo ao JDE e, em particular, a nossa Coluna; sinto-me feliz, pois alguns dos objetivos desta página começam a serem atingidos: o esclarecimento e a interatividade com os leitores.

 

Bem, o tema proposto foi desenvolvido em boa parte de nosso livro Sexualidade & Afetividade (Editora DPL, São Paulo, Brasil, 2003). Não obstante, tentaremos dar uma idéia geral sobre o assunto, que é vasto, porque não caberiam detalhes no espaço de que dispomos (para aqueles que desejarem estudar o assunto, com mais minúcias, remeto-os ao nosso referido livro)...

 

Que é o Inconsciente – A Doutrina pansexualista de FREUD. Segundo SIGMUND FREUD (Moravia 1856- Londres1939), o criador da Psicanálise, o Inconsciente seria o principal, quase único, determinante de todo o nosso psiquismo, normal e patológico (doentio). Para ele, o Inconsciente seria uma instância instintiva, pulsional, que apesar de seus conteúdos não estarem na consciência de maneira permanente, aí apareceriam freqüentemente, sem que nos apercebêssemos da origem deles, e seriam capazes, eventualmente, de dirigir toda a nossa conduta, todo o nosso comportamento explícito.

 

O Inconsciente apareceria em estado quase puro no sono, através dos sonhos, os quais, segundo FREUD, seriam nada mais do que realizações INCONSCIENTES de desejos...

 

Atuariam na consciência duas instâncias básicas do Inconsciente: 1- o pré-consciente, originariamente descrito por PIERRE JANET como sub-consciente, considerado por FREUD como pertencente também ao Inconsciente; 2- o Inconsciente, propriamente dito, ou Inconsciente profundo... O pré-consciente seria representado por aqueles conteúdos capazes de consciência; por exemplo: esqueço-me de uma palavra em meu discurso, estou com a palavra "na ponta da língua", porém, não consigo me lembrar dela naquele momento, por mais que me esforce. A seguir, desisto de concentrar-me para buscar aquele palavra esquecida por mim... Então, espontaneamente, a palavra vem à minha consciência, ou seja, ela foi capaz de consciência, isto é, estava no meu pré-consciente e passou para a consciência.

 

Já o Inconsciente, propriamente dito, o Inconsciente profundo, seria dinâmico, representado metapsicologicamente por três instâncias: o Id, o Ego e o Super-Ego...

 

O Id seria a pulsão instintiva quase pura, indiferenciada, isto é, seria o animal feroz e libidinoso que existe em nós, que busca o prazer a qualquer preço, mesmo que acabe disfarçado, através de mecanismos de defesa ao passar para o Ego, instância mais ou menos consciente. E o Super-Ego seria a nossa censura moral, que interceptaria a atuação do Id, modulando-o, segundo as conveniências sociais. Um Super-Ego muito rígido geraria conflitos, neuroses principalmente.

 

Assim, a nosso ver,uma das conseqüências deletérias para a Sociedade foi a admissão e a adoção mundial das teses freudianas, levando-a a uma permissividade sexual e à violência desenfreada, sem precedentes, a partir do século 19 e que persiste até os dias atuais, embora tenha sido útil para o entendimento da dinâmica do psiquismo em determinados casos individuais.

 

A Psicanálise leva a conseqüências práticas, às vezes, de libertação de conflitos neuróticos; mas, na maioria das vezes, de liberação sem freios dos instintos, pois seus princípios teóricos induzem as pessoas a que não controlem seus impulsos, gerando libertinagem e, muitas vezes, aumento da agressividade, não contida...

 

É verdade que FREUD falava em sublimação dos instintos, através de atos socialmente admitidos na nossa Civilização... Até obras de arte foram interpretadas como instintos sublimados, de forma determinista, fatalista. O melhor exemplo disso é a obra MONA LISA (LA GIOCONDA), de LEONARDO DA VINCI, interpretada por FREUD como resultante de conflitos de homossexualidade latente do autor, no entanto, DA VINCI era homossexual manifesto, e não latente...

 

Assim, caríssima Sra. FERNANDA DA SILVA, o Inconsciente seria representado pelos Instintos ancestrais no homem; desde a infância ele iria se diferenciando, tanto assim é que FREUD afirmou que as crianças são perversas polimorfas, isto é, enfatizou a sexualidade infantil, chegando mesmo a descrever as várias fases do desenvolvimento da libido: oral, anal e fálica... O conceito de Inconsciente está intimamente ligado ao conceito de libido, ou seja, FREUD propôs uma doutrina pansexualista, isto é, atribuía tudo como proveniente da sexualidade, embora esta tivesse uma ampla acepção, em FREUD. Entretanto, acreditamos em que isto seja um eufemismo usado por ele e seus seguidores, para justificar o injustificável radicalismo – a idéia da preeminência da sexualidade em todos os acontecimentos da vida.

 

Enfim, FREUD era ateu, confessadamente e a sua teoria psicanalítica esconde em seu bojo este ateísmo e, portanto, a principal causa do egoísmo e do materialismo desenfreados que nos acompanha até os dias atuais, desde meados do século 19, principalmente, e foi exatamente neste século que surgiu a Doutrina dos Espíritos – o CONSOLADOR que JESUS prometeu pedir ao Pai e cumpriu a promessa...

 

Ligação do Inconsciente com o Espiritismo. Para nós, caríssima leitora, o Inconsciente é o arquivado em nosso Espírito (e não no perispírito, como admitem alguns), ele é o repositório de vivências importantes de nossas vidas, que ficaram e ficarão indelevelmente guardadas em nosso patrimônio mnêmico, isto é, da memória, mas tais vivências não estão a todo momento perpassando a nossa consciência, não, como o admitia SIGMUND FREUD... Normalmente, somente conseguimos lembrar-nos do nosso passado naquilo que ele possui de importante para a nossa evolução espiritual e o porquê disto está explicitado na resposta à questão 392 de O Livro dos Espíritos, de ALLAN KARDEC.

 

Epílogo. Por tudo o que foi dito, caríssimos leitores, discordamos de alguns confrades que tentam misturar Psicanálise com Espiritismo e até com orientalismo, como na Psicologia de JUNG, por exemplo... A concepção de Inconsciente, segundo a Psicanálise é, no fundo materialista e o orientalismo antigo é misticista, que não se coadunam com o verdadeiro Espiritismo. Não obstante, seria factível compatibilizar a a Psico(pato)logia e Psiquiatria com o Espiritismo? Poderia haver essa ligação? No meu modo de entender, SIM e, aliás, tratamos disso em nosso livro, acima citado, e ali dissemos:

 

(...) podemos compatibilizar a Psico(pato)logia e a Psiquiatria com o Espiritismo se levarmos em conta que a doença mental compromete o homem globalmente considerado, e este é um todo indivisível e o todo é anterior às partes; por isso, nem o psicologismo freudiano, nem o organicismo pragmático dos norte-americanos, nem o sociologismo utópico dos marxistas modernos, nenhum deles conseguiu compreender a pessoa humana "(op. cit., p. 24).

 

Amparados em FREUD, algumas pessoas negam os fenômenos espirituais, dizendo que são mecanismos inconscientes de defesa do Ego das pessoas problemáticas ou, então, negam por má-fé, levantando hipóteses "parapsicológicas" absurdas unidas ao conceito indefensável de Inconsciente, no estilo freudiano (como ainda o faz o Padre espanhol OSCAR GONZALEZ-QUEVEDO, radicado no Brasil) para explicar fenômenos efetivamente causados por Espíritos desencarnados.

 

A nosso ver, FREUD e seus seguidores ortodoxos foram os principais responsáveis, do ponto de vista psicológico, pelo ateísmo contemporâneo e pela recrudescência do egoísmo e do materialismo da Humanidade.

 

Obrigado leitora pela sugestão do tema, um grande abraço e muita PAZ a todos.
 

Texto: Dr. Iso Jorge Teixeira

 

 

Texto publicado no "Jornal de Espiritismo" e oferecido por um membro da AME Porto

que é responsável pelo espaço jornalístico da coluna "Medicina e Espiritualidade"

 
 

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