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O médico responde

 

 

FOBIA SOCIAL E FOBIAS ESPECÍFICAS

Medo de escrever e assinar documentos em público

Aspectos clínico-psiquiátricos e espirituais

 

 

No dia 15 de novembro/2005 recebemos a seguinte carta eletrônica: “Leio sempre com o maior interesse os trabalhos que tem vindo a ser publicados no Jornal de Espiritismo da autoria do Dr. Iso Teixeira a quem saúdo pela excelência e profundidade dos conteúdos. Aproveitando a sugestão relativa ao encaminhamento de perguntas gostaria, se possível, de saber se através dos conhecimentos inerentes à Doutrina Espírita será possível o tratamento de fobias, no meu caso concreto uma fobia social que me persegue desde os cerca de 15 anos de idade e que agora com 62 anos continua, em situações pontuais (caso concreto de assinatura ou preenchimento de documentos na presença de outras pessoas) a colocar-me numa situação de verdadeiro pânico. Agradeço desde já e aguardo com muito interesse os comentários que este assunto possa merecer. Cordiais cumprimentos”.

 

A. P.

 

 

Respondemos, preliminarmente, ao Sr. Leitor, informando a ele que escreveríamos um artigo usando pseudônimo dele (A.P.) para preservar sua privacidade e dissemos, ainda, que não encontramos nada ESPECÍFICO sobre o assunto - Fobia social, do ponto de vista da Doutrina dos Espíritos; não obstante, os princípios doutrinários se admitidos como CERTOS, sem dúvidas, em muito auxiliarão a pessoa a enfrentar a vida sem inseguranças, incertezas - problema central das pessoas com pânico e fobia social; além disso, há medicamentos que melhoram, e muito, a qualidade de vida, além da psicoterapia.

 

Os transtornos fóbico-ansiosos – Que é Fobia social? Que são Fobias específicas?

 

As fobias sociais incluem-se nos transtornos fóbico-ansiosos, que são assim subdivididos: Agorafobia, Fobias sociais e Fobias específicas (isoladas). Diz a classificação Internacional da Organização Mundial de Saúde, vigente, a CID-10, sobre os transtornos fóbico-ansiosos:

“Neste grupo de transtornos, a ansiedade é evocada, apenas ou predominantemente, por certas situações ou objetos (externos ao indivíduo) bem definidos, os que não são correntemente perigosos. (...)”.

 

O termo agorafobia que, originariamente, designava medo de espaços abertos, hoje é utilizado para medos não só de espaços abertos, mas também de aspectos relacionados, como a presença de multidões e a dificuldade de um escape fácil e imediato para um local seguro (usualmente o lar).

 

Já as FOBIAS SOCIAIS estão centralizadas em torno de um medo de expor-se a outra pessoas ou grupos comparativamente pequenos em oposição às multidões (que ocorre na Doença do pânico). A nosso ver, cabe distinguir, também as Fobias sociais – se é que elas existem autonomamente – do temperamento tímido, introvertido, em que as pessoas temem ficar ruborizadas (com a face vermelha) no contato social (medo de enrubescimento) ou mesmo medo de assinar documentos em presença de outras pessoas (como é o caso do Sr. leitor).

 

Questionamos a existência de uma doença específica chamada Fobial social, porque, na realidade trata-se, em geral, de quadros neuróticos, conflitivos, da pessoa, magistralmente descritos e interpretados por SIGMUND FREUD, onde o protótipo foi o caso do menino HANS, que sofria de fobia a cavalos (uma zofobia).

 

O Sr. leitor diz apresentar uma “fobia social”, que o persegue há 47 anos... Parece-nos muito tempo de doença!...Com o moderno tratamento medicamentosos e psicoterápico, o transtorno costuma ceder em tempo MENOR! É possível que o tratamento não esteja adequado ou não esteja sendo seguido corretamente, enfim, falta-nos elementos para tentar explicar o porquê da cronificação do distúrbio.

 

Diferença entre fobial social e “Câimbra de escrivão” – Fobias

O Sr. leitor informou-nos de que sofre de uma fobia em situações “pontuais”, o que nos faz pensar não em fobia social, mas numa Fobia específica (isolada), de acordo com a CID-10. Nesta, o medo restringe-se a situações muito específicas, tais como: zoofobia (medo de animais); vertigem fóbica; medo de escuridão em adultos (nictofopbia); medo de escrever em público – como é caso do Sr. leitor A.P; etc.

 

No entanto, o Sr. leitor não forneceu detalhes do seu medo de escrever em público e este tem de ser diferenciado e não deve ser confundido com um distúrbio ocupacional, chamado Câimbra do escrivão. Esta é uma disfunção neurológica, uma distonia, isto é, a contração involuntária de um determinado grupo de músculos. Uma distonia pode ocorrer durante um tipo específico de movimento como, por exemplo, ESCREVER, digitar ou tocar um instrumento musical. Nessa fase, as distonias são conhecidas como câimbras ocupacionais. A mais freqüente é a câimbra do escrivão que ocorre apenas durante o ato de escrever e fica restrita ao membro que está sendo utilizado. Entretanto, com o tempo, os espasmos podem ocorrer durante a realização de outros movimentos ou mesmo durante o repouso. Não se conhece a relação entre a utilização continuada de um grupo muscular e o aparecimento de distonia, porém, a causa da câimbra de escrivão parece estar relacionada a uma disfunção dos núcleos da base (isto é, grupo de estruturas nervosas situadas na base do encéfalo relacionadas a aspectos importantes do controle motor do corpo).

 

Na CID-10 a “câimbra de escrivão” é classificada como “Outros transtornos neuróticos especificados”, ou seja, cuja causa ainda é incerta.

 

Explicações espíritas questionáveis para as Fobias

Como dissemos, não encontramos nada ESPECÍFICO sobre o assunto na Doutrina dos Espíritos, não obstante, alguns confrades querem estabelecer relações entre o transtorno (Fobia social) e acontecimentos em encarnações pretéritas da pessoa...

 

Imaginemos, só para exemplificar a tese dos confrades, que uma pessoa em encarnação passada cometeu um ato grave, suponhamos: um Juiz de Direito assinou uma sentença de morte de uma pessoa sabidamente inocente... Assim, nesta encarnação sofreria a fobia específica de “assinar documentos”... Esse tipo de interpretação é comum em pessoas influenciadas pela Psicanálise e defensoras da técnica de TVP - Terapia de Vidas (ou vivências) Passadas, das quais discordamos...

 

E por que discordamos? Os casos relatados na literatura espírita ainda não foram separados das fantasias dos analisandos e o facto de uma pessoa conseguir saber a “causa” de um distúrbio, não é condição sine qua non para sua cura. Este é um erro básico da tese freudiana e dos seus seguidores, assim como daqueles que advogam a técnica da TVP, pois o conhecimento vivenciado da causa de um problema emocional não dá à pessoa a garantia da cura – a prática demonstra isto.

 

Não há impossibilidade de que o “medo de escrever em público” seja um compromisso reencarnatório, mas só o caso individual irá comprovar, ou não, essa assertiva; não se deve generalizar algo que é personalíssimo.

 

Epílogo

No chamado “Quinto Evangelho” – o EVANGELHO DO APÓSTOLO TOMÉ -, um dos apócrifos da Bíblia, encontrado com outros manuscritos, em caracteres coptas, no cemitério de Nag Hammadi, no Egito, lemos no item 37:

“Perguntaram os discípulos a Jesus: Em que dia nos aparecerás? Em que dia te veremos? Respondeu Jesus: Se vos despojardes do vosso pudor; se, como crianças, tirardes os vossos vestidos e os colocardes sob os vossos pés, percebereis o filho do Vivo – e não conhecereis temor.”

 

Essas palavras, aparentemente incompreensíveis, mostram segundo a interpretação espiritual, que a forma para “vermos Jesus” é nos despojarmos das influências, materiais, corporais, pois o corpo nos é dado para exercitarmos o Espírito ante os obstáculos, as resistências... “Sem resistência não há evolução”, já dizia o espiritualista HUBERTO RHODEN...

 

Enfim, não devemos fugir ao contato social com o Outro, pois este Outro será sempre uma “resistência” para nosso Espírito, às vezes, um “obstáculo” para nossa evolução espiritual.

 

Dancemos a vida com alegria, com os outros, exercitando o nosso Espírito e não o corpo... Se por acaso o Outro for um obstáculo, ele será sempre um fator para a nossa evolução.

 

Como já o dissemos alhures: quando estamos doentes precisamos de médico e não de chazinhos sem nenhum efeito farmacológico; nem de TVP, pois se DEUS nos deu a amnesia de outras encarnações, por que forçar uma situação contra a Providência Divina? Acrescente-se a isso que está provado que a lembrança do passado não leva necessariamente à cura; o axioma de FREUD não se confirmou na prática, dizia ele que a verdade - extraída do inconsciente - levaria à cura. Quando estamos doentes, também não precisamos de outros "tratamentos", sem nenhuma base científica, como a Apometria, a Psicometria, etc...[jornal O SEMEADOR (órgão da FEESP), julho/2002, págs. 8 e 9, Seção ESTUDOS].

 

A vida inautêntica, existencialmente falando, de um neurótico é que o leva ao sofrimento desnecessário. Não obstante, as fobias isoladas podem ser tratadas com êxito, através de antidepressivos e com terapia cognitivo-comportamental. Além disso, os PASSES espirituais também são úteis para coadjuvar o tratamento médico-psiquiátrico.
 

 

Texto: Dr. Iso Jorge Teixeira

 

Texto publicado no "Jornal de Espiritismo" e oferecido por um membro da AME Porto

que é responsável pelo espaço jornalístico da coluna "Medicina e Espiritualidade"

 
 

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