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AS EPILEPSIAS E A "CÓLERA DOS DEUSES"

 

 

No dia 20/05/04, escreveu-nos de Amadora uma pessoa que, por questões éticas, óbvias, citaremos somente as suas iniciais, diz ela no seguinte mail: "Caro Dr. Iso Teixeira, como psiquiatra e espírita o que o senhor sugere: Tenho Epilepsia e tomo carbamazepina (medicamentos), mantendo uma boa qualidade de vida. Todavia, uma amiga sugeriu-me ir a Centro Espírita, onde disseram para parar imediatamente com esses medicamentos, que só fazem mal, pois o meu problema é de foro mediúnico e tenho que trabalhar de imediato nas «reuniões de desobsessão». Eu não entendi, mas parece-me que é uma reunião para os espíritos comunicarem-se através de mim."

 

A.P., Amadora

 

 

Medicamentos indicados para Epilepsias. Os medicamentos indicados para as Epilepsias são os barbitúricos, hidantoinatos, benzodiazepínicos, derivados do iminostilbene, dentre outros. A carbamazepina é um derivado do iminostilbene, com grupo carbamil na posição 5, que lhe confere grande potência antiepiléptica. É um medicamento cuja estrutura química é semelhante aos antidepressivos tricíclicos, daí ser utilizado também como antidepressivo. Portanto, a medicação está bem indicada e, por isso, a sua "qualidade de vida " está sendo boa.

 

Riscos da suspensão brusca de medicamentos psicotrópicos. Caríssima Sra. A.P., quanto ao conselho da sua amiga de "parar imediatamente os medicamentos", não me parece correcto. De facto, os medicamentos anticonvulsivantes, assim como quase todos os medicamentos provocam efeitos colaterais, indesejáveis, mas os benefícios auferidos com o seu uso são grandes e, por isso mesmo, os médicos competentes prescrevem-nos. Em nenhum caso de transtorno mental ou cerebral, com risco de acidente, como no caso de perda de consciência de um epiléptico – como seria o seu caso -, não se deve interromper o tratamento, bruscamente, pois a Sra. poderia sofrer o chamado estado-de-mal epiléptico, em que há crises convulsivas sucessivas, podendo levar o cérebro à exaustão e, inclusive, levar à desencarnação.

 

Epilepsia e Obsessão. Discordo de que as Epilepsias sejam obsessões, portanto, por que "reuniões de desobsessão" para tratar pessoas com epilepsia?... Já escrevi alguns artigos sobre o assunto no Jornal Espírita (JE) da Federação de S. Paulo (FEESP), aqui do Brasil... A propósito, a tendência humana ao espírito de sistemas leva muitos confrades ao desejo de explicar a maioria das doenças mentais como obsessões, às vezes, sem nem conhecê-las; essa é uma atitude semelhante a dos psicanalistas que desejam tudo explicar através do inconsciente...Não devemos colocar nossas construções teóricas em toda a Humanidade, esquecendo-nos da individualidade de cada caso e do livre-arbítrio do Homem.

 

Quanto a "uma reunião para os espíritos comunicarem-se através" da Sra., caríssima A.P., também discordo, pois não aconselhamos a participação de pessoas doentes (especialmente as que sofrem de epilepsia) em reuniões mediúnicas. Também a esse respeito já escrevemos no JE da FEESP...

 

Passes e preces são recursos genéricos para qualquer patologia mental ou obsessão – se bem realizados, mal não fará ! Contudo, não se deve abolir o uso de medicamentos somente pelo facto de um médium (por melhor que ele seja) acreditar que o caso é de obsessão...

 

"Cólera dos deuses"? As epilepsias são decorrentes de alterações orgânicas, do cérebro, e caracterizam-se principalmente por uma alteração da bioeletrogénese cerebral, com hiperssincronia eléctrica neuronal (das células cerebrais)...

 

No passado, na mais remota Antigüidade, quando não se conhecia a doença, os epilépticos eram tidos como possuídos pelo demónio e isso fica bem claro no relato bíblico do menino endemoninhado (Marcos, cap. 9,vv.13-28) e a esse respeito KARDEC comentou:

(...) Provavelmente, naquela época, como ainda hoje acontece, atribuía-se à influência dos demónios todas as enfermidades cuja causa não se conhecia, principalmente a mudez, a epilepsia e a catalepsia - (o grifo é nosso) – (ALLAN KARDEC. A Génese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Cap. XV, item 33 (3 ª frase), Edit. FEB, 25 ed., Rio de Janeiro, 1982, p. 329).

 

Também na Antigüidade e até na Idade Média considerava-se que os epilépticos ou eram endemoninhados ou sofreriam de um "mal sagrado" (morbus sacer), consequência da "cólera dos deuses", como em HÉRCULES, por exemplo... No actual movimento espírita brasileiro é comum lermos e ouvirmos pessoas dizerem que as obsessões são causas, frequentes, de epilepsias; talvez, por isto, a amiga da Sra. A.P. deva ter ouvido tal informe... Certa vez, quando fui entrevistado numa emissora espírita, algumas pessoas chegaram a dar explicações "científicas", alegando que as "moléculas"(??) do perispírito actuam na "rede fluídica" do outro. Tais pessoas supõem conhecer Física, arriscam-se até em emitir conceitos de Física quântica, mas, talvez, não saibam fazer o diagnóstico diferencial entre epilepsia e hístero-epilepsia. Esta, sim, talvez pudesse ser causada por obsessores... Contudo, as epilepsias verdadeiras, repetimos, são doenças físicas.

 

Após a descoberta do eletroencefalograma (EEG), por HANS BERGER, em 1924, ficou provada a organicidade do distúrbio e, hoje, temos exames mais sofisticados, como o EEG com mapeamento cerebral computadorizado. No entanto, espíritas sem conhecimento de causa, às vezes bem intencionados, como a amiga da Sra. A.P., são capazes de dar conselhos estapafúrdios como aqueles referidos e, o que é pior, há espíritas renomados que defendem a mesma tese... Obviamente, um epiléptico pode sofrer uma obsessão, como qualquer doente orgânico, mas neste caso a obsessão não é causa.

 

Por que DEUS permite uma obsessão numa pessoa já afectada por uma doença, por que o "anjo de guarda" não a protege? A esse respeito disse KARDEC: "Pois que há Espíritos maus que obsidiam e espíritos bons que protegem, perguntam muitos se os primeiros são mais poderosos que os segundos. Não é que o bom espírito seja mais fraco; o médium é que não tem força bastante para alijar de si o manto que lhe atiraram em cima, para se desprender dos braços que o enlaçam e nos quais, cumpre dizê-lo, às vezes se compraz" –o grifo é nosso- (ALLAN KARDEC.Obras Póstumas. FEB, Rio, 13 ed., 1973, p. 69).

 

Epílogo.Gostaríamos de acrescentar que a Epilepsia NÃO É contagiosa, outra superstição em torno da doença, e talvez tenha origem na Antigüidade romana, onde a doença era denominada "mal comicial", pois ocorrendo em comícios romanos, estes eram encerrados em obediência à vontade dos deuses, por temor de contágio e da "cólera dos deuses". Antes de pensar-se na "cólera dos deuses" ante uma pessoa com sintomas epilépticos, conduza-a a um psiquiatra, de preferência espírita, pois hoje há tratamento eficaz. Estimule essa pessoa à prática do Bem e da prece sincera, que são os ingredientes profiláticos das obsessões, das subjugações.

 

Um grande abraço e muita PAZ para a Sra. A.P. e a todos os que sofrem de Epilepsia e muita resignação e paciência, pois há medicamentos que controlam muito bem as crises, como a carbamazepina, por exemplo!... A todos gostaria de lembrar-lhes as belas palavras de FERNANDO PESSOA, lisbonense, poeta maior português, de todos os tempos, que também se aplicam a vocês:
Valeu a pena? Tudo vale a pena. Se a alma não é pequena.

 

Quem quer passar além do Bojador. Tem que passar além da dor.

 

Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. (Mensagem - Mar Portuguez).
Saudações ao povo de Lisboa - Mui Nobre e Sempre Leal Cidade -, especialmente às pessoas de Amadora.

 

Texto: Dr. Iso Jorge Teixeira

 

 

Texto publicado no "Jornal de Espiritismo" e oferecido por um membro da AME Porto

que é responsável pelo espaço jornalístico da coluna "Medicina e Espiritualidade"

 
 

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