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O médico responde
ORIENTAÇÃO À FAMÍLIA DE USUÁRIOS DE DROGAS O verdadeiro papel do Centro Espírita
No dia 04 de agosto deste ano foi-nos repassado a seguinte carta de uma leitora, aflita, do JDE: "Estimado senhor Dr. Iso, peço desculpas pelo incómodo, todavia, aproveitei a oportunidade que o senhor doutor e o Jornal de Espiritismo me ofereceu para solicitar orientação. Freqüento um Centro Espírita, não por mim, mas porque tenho um filho dependente de drogas fortes e meu marido do álcool. Como médico psiquiatra e espírita o senhor pode-me dar essa orientação?!".
A .C. – Tondela
A nossa aflita leitora portuguesa solicita-nos orientação quanto a
familiares dependentes de "drogas fortes" e diz ser freqüentadora de um
Centro Espírita, destacando: "(...) não por mim"... Como se vê, essa Sra.
talvez esteja mal orientada quanto às funções do Centro Espírita e o seu
verdadeiro papel.
A nosso ver, o Centro Espírita é o local de convergência de pessoas interessadas no estudo da Doutrina Espírita, na prática mediúnica e nas suas conseqüências morais, isto é, na prática da caridade bem compreendida, dirigida tanto a encarnados quanto a desencarnados, daí a importância de trabalhos de desobsessão em todos os Centros Espíritas.
Por tudo isso, especialmente, os dirigentes espíritas precisam conhecer profundamente as obras de ALLAN KARDEC, e as pessoas que acorrem aos Centros Espíritas em busca de consolação espiritual, precisam de orientação segura e necessária quanto às suas dificuldades espirituais, e tais dificuldades são personalíssimas, intransferíveis...
Por isso, prezada A.C., a Sra. deve freqüentar um Centro Espírita bem orientado e que ali encontre um ambiente de harmonia e fraternidade e de estudo sério da Doutrina dos Espíritos, codificada por ALLAN KARDEC. À proporção que o seu conhecimento doutrinário for crescendo, a Sra. saberá como melhor lidar com seus familiares problemáticos e, muitas vezes, deverá ter uma certa resignação, porque muitas vezes os familiares problemáticos surgem em nossas vidas como provas para nossa evolução espiritual.
Obviamente, caríssima leitora, o Centro Espírita poderá ajudar seus familiares, através de preces ou eventual trabalho de desobsessão, mas sem a disposição do seu filho e do seu marido para enfrentarem seus próprios problemas, os Espíritos Superiores pouco poderão ajudá-los, pois tal classe de Espíritos nunca tentam interferir no livre-arbítrio das pessoas.
Dependência de drogas e álcool. Como psiquiatra e espírita, a orientação que lhe damos, Sra. A. C., é que procure um psiquiatra aí em Portugal, de preferência espírita, e explique a ele as suas apreensões e tente encaminhar seu filho e seu marido para tratamento médico-psiquiátrico.
As "drogas fortes" em geral, como a morfina, a cocaína, a heroína, haxixe, etc. geram uma dependência psicofísica, problemas financeiros e desestruturação familiar, na maioria das vezes, e, por isso mesmo, o tratamento deve ser realizado por uma equipe multiprofissional, isto é, por psiquiatras, psicólogos e assistentes sociais. Além disso, há o problema da ilicitude das drogas, o que envolve, muitas vezes, aspectos legais, nos quais quase sempre as pessoas dependentes se envolvem... Enfim, há outra dimensão humana que não pode ser esquecida, talvez a mais importante, trata-se da dimensão espiritual.
As pessoas dependentes de drogas não estão, na maioria das vezes, com o livre-arbítrio comprometido, por isso, para quase todos elas vale o dito popular: Ajuda-te que o céu te ajudará. Se o dependente não se dispuser a se afastar das drogas, pouco pode ser feito para ele e, neste caso, haverá a agravante de que, nesta condição ele estará com a "porta" aberta para os hóspedes indesejáveis – os obsessores. A pessoa dependente está sintonizada com a pior espécie de Espíritos desencarnados, que se aproveitam da invigilância dessas pessoas para aniquilarem, espiritualmente, seus eventuais algozes de encarnações pretéritas, hoje vítimas... Neste caso, também se enquadram os dependentes de álcool, e esta também é uma droga; mas, na maioria dos casos, nos dependentes de álcool, os prejuízos são adquiridos a médio e longo prazo e não são agudos, como no caso das "drogas fortes".
Em muitos casos de dependência de "drogas fortes" e de álcool há necessidade de internação psiquiátrica involuntária, isto é, à revelia da vontade do dependente, inclui-se nestes casos as psicoses alcoólicas, com alucinações e delírios (Delirium tremens, Alucinose alcoólica, Delírio de ciúmes dos bebedores) e aqui também se incluem as síndromes de abstinência das "drogas fortes", cujas descrições não cabe aqui no espaço de que dispomos.
Orientação às famílias de pacientes dependentes. Os dependentes de drogas em geral, inclusive do álcool, devem ser tratados por uma equipe psiquiátrica multiprofissional, inclusive com ingestão diária de medicamentos psicotrópicos indicados para cada caso... Mesmo na eventualidade de uma obsessão, onde há necessidade de um trabalho de desobsessão, os medicamentos não devem ser descartados, pois o homem é um TODO, individual, em suas dimensões bio-psico-sociocultural e ESPIRITUAL.
O Centro Espírita é um local, por excelência, de estudo do Espiritismo e de prática mediúnica. Os chamados "tratamentos espirituais", a nosso ver, não cabem num Centro Espírita, até porque discordamos de que o Espírito adoeça, rigorosamente falando... Não obstante, a aplicação de passes magnéticos e espirituais possui uma função no reequilíbrio energético do organismo de uma pessoa, e devem ser aplicados nos Centros Espíritas, ou fora deles, como complemento do tratamento médico dos dependentes, ou seja, não se deve dispensar o tratamento médico em casos de doenças...
É preciso ressaltar-se que o passe só deve ser aplicado por pessoas sãs, física e mentalmente e sem problemas espirituais sérios, pois sendo o passe uma doação de fluidos, não deve uma pessoa que está precisando de fluidos restauradores, doar o seu, que está em desequilíbrio. Propor-se a uma pessoa obsidiada ou doente mental (mesmo neuróticos leves) que aplique passes num Centro Espírita seria atitude semelhante àquele que propusesse a uma pessoa com anemia grave que doasse seu sangue, ou seja, seria um absurdo; mas, parece que tal comportamento ocorre com alguma freqüência em Centros Espíritas mal orientados...
Enfim, caríssima Sra. A.C., continue a freqüentar um Centro Espírita, mas não busque nele a solução para os seus problemas. Ele poderá ajudá-la a encontrar seu caminho, mas a resolução das suas inquietações espirituais é tarefa sua, individual, intransferível.
Epílogo. Prezados leitores, procurem levar seus familiares, dependentes de drogas, a um psiquiatra, para que ele diagnostique e trate deles. Se seus familiares forem simpatizantes do Espiritismo, estimule-os a freqüentar um Centro Espírita sério, para orientação conveniente; se eles se recusarem, que assumam a responsabilidade pelos compromissos reencarnatórios que terão de assumir, certamente, em vindouras encarnações. Isto me parece doloroso, Sra. A.C., mas é com a realidade sem véu, que procuramos esclarecer os nossos leitores, embora a vida espiritual sempre nos reserva uma consolação para as nossas aflições e, certamente, não será diferente no seu caso... A Sra. poderá alegar que estamos sendo muito duros em nossa apreciação, no entanto, as palavras de KARDEC são cristalinas em relação à Justiça Divina, leia a observação dele, a propósito de UMA NOVA CURA DE UMA JOVEM OBSEDADA DE MARMANDE: "Se se perguntasse por que Deus permite que maus Espíritos saciem sua raiva nos inocentes, diremos que não há sofrimento imerecido, e aquele que hoje é inocente e sofre, sem dúvida tem ainda alguma dívida a pagar. Esses maus espíritos servem, neste caso, de instrumento de expiação. Sua malevolência é, além disso, uma provação para a paciência, a resignação e a caridade".(REVISTA ESPÍRITA – Jornal de estudos psicológicos. ALLAN KARDEC. Ano 1865, EDICEL, São Paulo, trad. JÚLIO ABREU FILHO, p. 13). Essa é a nossa orientação, Srs. leitores, e que a Sra. A .C. não se aflija, pois DEUS é Misericordioso e, muitas vezes, o sofrimento resignado de hoje traz benefícios espirituais,incalculáveis, amanhã (sem masoquismo).
Um grande abraço e muita PAZ!
Texto publicado no "Jornal de Espiritismo" e oferecido por um membro da AME Porto que é responsável pelo espaço jornalístico da coluna "Medicina e Espiritualidade"
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