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O médico responde
DEPRESSÃO Aspectos do diagnóstico diferencial
No dia 6/03/04, um confrade aveirense pergunta-nos: "Sr. Dr. Iso Teixeira, qual a diferença entre "Depressão" e "Processo obsessivo"?
Paulo Pinto, Mealhada
Tristeza normal e Depressão. Com a vulgarização do termo depressão, principalmente pelas indústrias farmacêuticas e através da Psiquiatria dos EUA (esta domina atualmente o marketing mundial), é necessário distinguir, primeiramente a tristeza da depressão, confusão esta que até alguns médicos especializandos em Psiquiatria vêm fazendo...
A tristeza pode ser normal, já a depressão é sempre patológica (doentia). Na tristeza normal o indivíduo não é levado por ela ao suicídio, por exemplo; ou seja, na tristeza normal não se perde a auto-estima, embora haja, como na depressão, uma diminuição da reatividade e uma atitude de desalento. Tal característica da tristeza normal foi vislumbrada por FREUD no seu livro Luto e Melancolia (1913-1917), embora com uma concepção pansexualista (que explica quase tudo pela sexualidade), da qual discordamos. Já na depressão a pessoa perde a auto-estima e, por isso, freqüentemente, comete o suicídio. Há também matizes diferenciais entre tristeza, pesar, tédio, asco, repugnância, desespero, etc., que não cabe aqui discutir, pois ultrapassam o propósito deste nosso artigo. Entretanto, é importante observar a diferença entre pesar (ou luto) e tristeza. O pesar é um estado afetivo importante, pois somos constantemente colocados ante provas difíceis e não devemos murmurar contra DEUS, ao passo que a tristeza normal revela, na maioria das vezes, um descrédito na Providência Divina... A propósito, KARDEC fez uma "observação" a propósito de duas comunicações de um Espírito, dizendo que pareciam a ele "(...) escritas sob o império de idéias um pouco sombrias e um tanto misantrópicas" e, mais adiante diz o mestre de Lyon: "(...) Seja como for, todas as suas comunicações atestam muita profundeza e sabedoria" (A TRISTEZA E O PESAR. In Revista Espírita – Jornal de estudos psicológicos. Publicada sob a direção de ALLAN KARDEC, Junho/1860. Trad. JÚLIO ABREU FILHO. EDICEL, São Paulo, p. 199). Eis uma dessas comunicações, através da Sra. LESC..., médium: É um erro ceder freqüentemente à tristeza. Não vos enganeis: o pesar é o sentimento firme e honesto, que fere o homem atingido no coração ou nos interesses; mas a tristeza lassa não passa de manifestação física (o grifo é nosso) do sangue afrouxado ou precipitado em seu curso. A tristeza cobre com o seu nome muito egoísmo, muita fraqueza. Debilita o espírito que a ela se abandona. Ao contrário o pesar é o pão dos fortes; este amargo alimento nutre as faculdades do espírito e diminui a parte animal. (...) Os homens compreendem que devem mover pernas e braços para manter a vida do corpo, e não compreendem que devem sofrer para exercitar as faculdades morais. (...) GEORGES (Espírito Familiar) - (op. cit., p. 198).
Enfim, a tristeza normal propicia a ação de eventuais desafetos de nossas pretéritas encarnações, daí a importância de não valorizarmos excessivamente as coisas materiais para não nos sentirmos frustrados em nosso egoísmo, em nossos interesses...
Depressão. Na depressão há alterações bioquímicas cerebrais, já bem determinadas pela Ciência atual. Há uma disfunção de uma substância chamada serotonina na fenda sináptica, isto é, no espaço entre um neurônio e outro, que se comunicam eletricamente. A serotonina estaria hipofuncionante nos pacientes deprimidos.
Os sintomas da depressão são variados, mas os principais são três: tristeza, inibição psicomotora e inibição do fluxo do pensamento, decorrentes deles há, diminuição ou ausência de prazeres outrora cultivados (anedonia), perda da auto-estima, podendo chegar ao suicídio e, às vezes, delírio de ruína, de culpa e de pecado. A característica existencial é a falta de projetos futuros; o deprimido não se lança para o futuro, por isso, fica ruminando o passado, naquilo que ele possui de pior...
Processo obsessivo espiritual e Depressão. Já o processo obsessivo espiritual seria a ação persistente de um Espírito (em geral desencarnado) sobre outro Espírito (em geral encarnado) com o objetivo de prejudicá-lo, isto é, praticar o Mal, em geral por vingança decorrente de situações pretéritas...
Para que ocorra o "processo obsessivo" é necessário que haja sintonia entre dois Espíritos, ou seja, não há obsessão se não houver afinidade espiritual entre obsessor e obsidiado.
É nossa opinião, caríssimo PAULO PINTO, que, através da subjugação, um Espírito poderá induzir no outro a tristeza e aprofundá-la, mas provocar a depressão seria difícil, embora possível teoricamente. A depressão, por processo obsessivo só ocorrerá, a nosso ver, se houver uma predisposição orgânica da pessoa afetada, pois está demonstrado cientificamente que a depressão sem causa aparente (endógena) é a mais genética das doenças mentais. Por exemplo, estudos de KALLMANN em gêmeos univitelinos (isto é, com o mesmo material genético) revelaram uma concordância de 92,6 % para psicose maníaco-depressiva (atual transtorno afetivo bipolar) e nos gêmeos plurivitelinos (com material genético semelhante) essa concordância caiu para 23,6% ... Portanto, o fator genético-hereditário não é tudo, mas é muito importante nas depressões (endógenas)... Já nas depressões reativas (isto é, uma reação depressiva ante um trauma psíquico) o fator causal é evidente, é terreno. Se reagimos com depressão (neurótica) a fatos corriqueiros da vida, às nossas provas, é porque não acreditamos em DEUS ou somos inautênticos e egoístas.
Não se deve abolir o uso de medicamentos somente pelo fato de um médium (por melhor que ele seja) acreditar que o caso é de obsessão... Por exemplo: tivemos conhecimento de que pessoas recomendavam suspender a medicação (sem serem médicas) de pacientes, porque tinham lido uma série de situações descritas pelo Espírito ANDRÉ LUIZ e acreditavam, por isso, que os pacientes sofriam de uma "influenciação espiritual sutil"... De fato, ANDRÉ LUIZ descreve uma série sinais sutis de obsessão, entretanto, diz ele, inicialmente: "Sempre que você experimenta um estado de espírito tendente ao derrotismo, perdurando há várias horas, sem causa orgânica ou moral de destaque, avente a hipótese de uma influenciação espiritual sutil" – o grifo é nosso – (FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER. Estude e Viva . Pelo Espírito ANDRÉ LUIZ. Edit. FEB, p. 202). Ou seja, antes de pensar-se em obsessão é preciso afastar as possíveis causas morais, psicogenéticas (isto é, traumas psíquicos) e orgânicas. Assim, neste caso, ANDRÉ LUIZ está com toda a razão.
Num trabalho de desobsessão, que haja médiuns competentes (estudiosos, de boa índole e que não sejam enganados com facilidade), como disse a Espiritualidade Superior sobre os médiuns: "(...) O melhor é aquele que, simpatizando somente com os bons Espíritos, tem sido o menos enganado" (ALLAN KARDEC. O Livro dos Médiuns. Cap. XX, item 226, resp. à questão 9.ª "in fine"). Que os detalhes do caso sejam concordantes, através de vários médiuns... Sem uma concordância, fica-se sujeito ao animismo e à mercê dos Espíritos brincalhões.
Não devemos nunca nos entregar à tristeza , pois haverá sempre um sol nascendo para todos nós. A Providência Divina é infalível, embora soberanamente justa.
Prezado PAULO PINTO, somente no caso específico poderíamos dizer quando se trata de luto, tristeza, depressão endógena, reativa ou processo obsessivo.
Um grande abraço e muita PAZ ao povo de Mealhada.
Texto publicado no "Jornal de Espiritismo" e oferecido por um membro da AME Porto que é responsável pelo espaço jornalístico da coluna "Medicina e Espiritualidade"
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