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O médico responde
O ABORTO: DEUS CASTIGA? Aflição da leitora e a propaganda contra o Aborto
Em 20 de junho passado, recebemos a seguinte mensagem eletrônica: "Senhor Dr. Iso Teixeira, quando tinha 18 anos, ainda estudante universitária, fiquei grávida de meu namorado, e por vergonha, "medo" da família e falta de dinheiro, resolvemos abortar. Passado quase 2 décadas, não consigo esquecer esse facto, embora à época, pensei que era a melhor e mais fácil opção para todos os problemas que surgissem. Como católica, não tive o que necessitava; carinho, amor e entendimento. Mais tarde, voltei-me para o Espiritismo, mas apesar da doutrina espírita ser Libertadora, de Esperança e de Amor, eu fui severamente condenada e crucificada pelos espíritas de um determinado centro, e me afastei. Será que sou uma assasina e não tenho mais perdão?"
M.J.
Alerto os Srs. leitores, que encaminharem suas perguntas para esta Coluna,
para que não deixem de inserir o nome completo (ou pseudônimo completo,
preservando a privacidade), e a Cidade e o Distrito em que residem...
O tema aqui tratado, o aborto, é muito polêmico... Médicos, psicólogos,
leigos, religiosos, se dividem quanto à questão fundamental: é ou não um
crime O assunto é tratado passionalmente, quando deveria ser estudado à
luz da razão e é isto que tentaremos fazer, à luz da Doutrina Espírita.
Temos perfeita consciência de que nossa opinião aqui defendida terá muitos
contraditores, não almejamos a unanimidade; embora amparada
doutrinariamente, trata-se de opinião pessoal...
Aborto é a morte do feto no ventre de sua mãe, produzida durante qualquer
etapa, que vai desde a fecundação (união do espermatozóide e do óvulo) até
o momento em que o bebê deveria nascer. O aborto pode ser espontâneo
(quando a morte do feto é provocada por alguma anomalia ou disfunção, não
prevista, nem desejada, por exemplo: incompatibilidade sangüínea de fator
Rh da mãe, alterações anatômicas do colo uterino, etc.) ou provocado
(quando a morte do feto é conseguida deliberadamente por meios domésticos,
químicos e cirúrgicos). As variedades de tipos de abortos domésticos são
inumeráveis. Tais variedades são descritas num portal católico da
Internet, com endereço www.aciprensa.com, El Aborto.
A visão católica é de que o aborto é um assassinato, um infanticídio, e
nada é descrito em termos espirituais. E a nossa aflita leitora portuguesa
bem demonstra isso nas suas palavras: "Como católica, não tive o que
necessitava: carinho, amor e entendimento"... Em casos de exceção a
Espiritualidade Superior se manifestou, em defesa da vida da mãe.
Estudemos a questão do ponto de vista espírita:
Diz a Espiritualidade Superior na resposta à questão 358 de O Livro dos
Espíritos (OLE), de ALLAN KARDEC: "— Há sempre crime quando se transgride
a lei de Deus. A mãe ou qualquer pessoa cometerá sempre um crime ao tirar
a vida à criança antes do seu nascimento, porque isso é impedir a alma de
passar pelas provas de que o corpo devia ser o instrumento". Contudo, a
Espiritualidade Superior prevê uma condição em que seria admissível o
aborto: quando se sacrifica o feto para salvar a mãe que estiver em perigo
pelo nascimento da criança - cf. questão 359 de O Livro dos Espíritos
(OLE).
É preciso ressaltar-se que há uma diferença fundamental entre a
transgressão da Lei Divina e a transgressão de lei humana. Quando a mãe ou
qualquer pessoa "impede uma alma de passar pelas provas de que o corpo
devia ser o instrumento" (cf. resposta à questão 358 "in fine" de OLE)
estará transgredindo a Lei Divina. O crime está em se transgredir a Lei
Divina e não na morte do feto em si, pois o Espírito reencarnante nada
sofre (cf. se depreende das respostas às questões 346 e 357 de OLE, de
ALLAN KARDEC). Já a lei terrena depende da Sociedade em que é
estabelecida. Em nossa Sociedade, o Código Penal Brasileiro considera
crime o fato, em si, de se impedir o produto da concepção de vir ao mundo
e não de impedir a alma de passar pelas provas ou expiações que porventura
tenha que resgatar.
Em alguns livros, palestras e programas radiofônicos espíritas, a questão
do aborto (que é polêmica) é tratada radicalmente, quase como uma pena de
talião para quem pratica o aborto. A lei de causa e efeito não deve ser
confundida com a pena de talião, àquela dependerá das condições
espirituais de cada um, não há fatalismo espiritual matemático que diga:
para cada aborto, uma dívida para a próxima encarnação, não! A nossa leitora portuguesa, Sra. M.J., afirma: "eu fui severamente condenada e crucificada pelos espíritas de um determinado centro, e me afastei" e conclui aflitivamente: "Será que sou uma assasina e não tenho mais perdão?"... O trauma psíquico em si produzido, em quem pratica o aborto, pode trazer sérias conseqüências psicopatológicas, dependendo da sensibilidade individual: depressão reativa, início reacional de um processo esquizofrênico, transtornos de ansiedade, etc... Ora, o Espiritismo não tem dogmas !!..
A melhor forma de nos reconciliarmos com a Lei Divina é o Amor a DEUS e a
Prática do Amor ao próximo, nisto está contida toda a LEI DIVINA. Se a
Sra. leitora submeteu-se a abortos na juventude; mas, ao longo de sua
existência, praticou ou pratica atos louváveis de amor ao próximo, é
possível que ainda nesta encarnação já tenha se reconciliado com DEUS e
não tenha mais débitos. É possível que a Sra. tenha sofrido muito, com uma
dor moral atroz e não seja necessário um resgate em outra existência.
Não somos, obviamente, a favor do aborto, contudo, discordamos da maneira
sensacionalista, que pressuponha a punição, o castigo de DEUS, como forma
de propaganda contra o aborto. E isto é feito pelos católicos, como na
página da Internet que referimos, em que são apresentados "testemunhos
gráficos", com fotos reais verdadeiramente macabras, que não as divulgamos
aqui para não incorrermos no mesmo erro. Outros, dão ênfase ao social para
defenderem a legalização, indiscriminada, do aborto ... E citam o filósofo
JEAN PAUL SARTRE, que, embora, com uma obra filosófica rica, sem
hipocrisia, não foi exemplo de moralidade!... Acertadamente, diz ele sobre
o Aborto: Metade vítimas, Metade cúmplices, como toda a gente...
Que a leitora apócrifa se tranqüilize, o resgate de nossas dívidas pode
ser realizada ainda nesta encarnação. A transformação íntima de MARIA
MADALENA (Lc 8,2 e Mc 16,9) é o belo exemplo de conversão do amor sensual
para o espiritual (cf. o excelente romance filosófico de J.HERCULANO PIRES
– Madalena (Do amor sensual para o espiritual). EDICEL, 5 ed., São Paulo,
1987). E a conversão de SAULO DE TARSO no caminho de Damasco é outro
notável exemplo de transformação íntima na mesma existência...
Certamente, este ato irrefletido, caríssima leitora, não foi o único em
sua vida e a sua admissão como erro já é um passo para sua evolução
espiritual – razão maior para aqui estarmos encarnados.
O fundamental para o Espírito é a transformação íntima e isto pode ser
conseguido, pois contamos com a Misericórdia Divina, que não pune ninguém.
Esta é a melhor forma de evitar-se o aborto: viver voltado para as coisas
espirituais desde a infância.
A lei de causa-e-efeito não deve ser confundida com a "marca de Caim" nem
com a "pena de talião". Antes de MOISES a Lei era extremamente severa,
primitiva, com a "marca de CAIM", por exemplo. Com MOISÉS predominou a
"pena de talião", mais branda que a anterior. E, com JESUS,
exemplificou-se a "Lei de Amor, de Misericórdia"... Este abrandamento da
lei terrena foi discutido por nós em nosso livro Agressividade: de CAIM ao
"serial-killers" (Editora DPL – São Paulo, Brasil, 2003), ao qual remeto
os leitores...
Atos irrefletidos de uma jovem irão comprometer, definitivamente, as
existências atual e futuras!... Não, setenta sete vezes não! Não será o
início tardio do trabalho na seara do Bem quem irá impedir que o
trabalhador receba o seu salário; como JESUS exemplificou na parábola dos
trabalhadores da vinha (Mt 20,1 – 16). Outra exemplificação de JESUS, em
assunto correlato a este, foi no pecado de adultério, que a lei moisaica
ordenava apedrejar, então, disse JESUS aos escribas e fariseus: "Quem
dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra." (
Jo 8 ,7 ).
DEUS , Pai infinitamente Misericordioso, não castiga seus filhos com penas
eternas, como acreditam os católicos, nem com ameaças fatalistas, como
certos arautos do Espiritismo, distorcendo a pureza da Doutrina ditada
pelos Espíritos Superiores...
Que as leitoras reflitam sobre a frase de JESUS, que serviria para os dias
atuais, tanto para os católicos quanto para o atual movimento espírita: "Acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus!" [Mt 16,11 ("in fine")].
Texto: Dr. Iso Jorge
Teixeira Texto publicado no "Jornal de Espiritismo" e oferecido por um membro da AME Porto que é responsável pelo espaço jornalístico da coluna "Medicina e Espiritualidade"
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