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Entrevistas

Salvador Martín
MOVIMENTO ESPÍRITA ESPANHOL
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Salvador Martín,
presidente da Federação Espírita Espanhola. |
Com objectividade, fala-nos o jovem Salvador Martín, Presidente da
Federação Espírita Espanhola (FEE) e membro da Comissão Executiva do
Conselho Espírita Internacional (CEI).
Nascimento do espiritismo em Espanha
Como surge o movimento espírita?
Salvador Martín – Praticamente desde o ano da publicação de “O Livro dos
Espíritos” os espanhóis já haviam “importado" o espiritismo para este
país, possibilitando o nascimento do movimento espírita espanhol. Algumas
pessoas, assim como Leon Denis, tinham encontrado “O Livro dos Espíritos”
em livrarias parisienses.
Existiu algum factor determinante que o tenha dinamizado?
SM – Se existiu um facto que marcou “um antes e um depois” na divulgação
do espiritismo neste país pode-se dizer que foi o “Auto de Fé de
Barcelona”, um decreto da igreja que ordenava a queima de mais de 300
volumes e opúsculos enviados por
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Dirigentes da Catalunha e da FEE. De pé:
Carmen González, Vincent Baltzer, Taina, Eric Degreve, Teresa Vázquez
(FEE), Rosa, Alba Mei (bebé) e Paqui. Em baixo: José Moreno, Anna
Vasquez, Blas González (vice-presidente da FEE) e Cláudio Iasbeke. |
Kardec à Lachatre. Na
ocasião, Kardec, que estava bastante preocupado ante este acto injusto,
recebeu informação espiritual de que esta acção bárbara, em lugar de
prejudicar a causa espírita, muito iria contribuir para a sua divulgação.
E assim ocorreu, durante essa queima pública muitos espíritas e não
espíritas rebelaram-se contra um dos últimos actos da “Inquisição
espanhola”, e o erro crasso do bispo inquisidor foi amplamente divulgado
em todo o país, e isso contribuiu para suscitar interesse por aqueles
livros espíritas.
O
I Congresso Espírita Internacional, celebrou-se em Barcelona nos dias 8 a
13 de Setembro de 1888. Qual a razão desta importante escolha mundial?
SM – A ideia de celebrar um Congresso Internacional Espírita surgiu do
“Centro Barcelonês de Estudos Psicológicos”, segundo a “Federación
Espiritista del Vallés”, que depois recebeu o apoio de valiosas pessoas do
nosso país e, posteriormente, do estrangeiro.
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Dirigentes da Andaluzia: José de la Torre,
Manolo (um dos sobreviventes à Guerra Civil e Ditadura Franquista,
tendo amigos espíritas que foram assassinados pela Guarda Civil) e
Mercedes Garcia de la Torre (presidente da AEA). |
Aquela ideia empreendedora
foi administrada pela “Sociedad Espiritista Española”, em 1873, por motivo
da Exposição Universal de Viena, a qual foi retomada dois anos mais tarde,
quando foi celebrada a Exposição de Filadélfia, ocasião em que assumiu o
caracter de Exposição Espírita e onde se tomou a decisão de realizar este
grande congresso.
A realização deste evento o que trouxe à sociedade vigente da época?
SM – Segundo palavras dos organizadores, o I Congresso Espírita
Internacional representou o terceiro grande passo na história do
Espiritismo. O primeiro havia sido o interesse surgido na América com
relação aos fenómenos promovidos pelos espíritos e o segundo, e mais
importante, a publicação das obras de Allan Kardec. E podemos dizer que
realmente não há presunção nas palavras dos organizadores, pois este
congresso foi o autentico impulsor do movimento espírita, comandado de
modo dinâmico e eficaz pelos espíritas espanhóis da época.
Guerra Civil e a ditadura franquista
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Tony (Espanha), Luís de Almeida (Portugal) e
Divaldo Franco (Brasil) |
O General Francisco Franco (1892 – 1975) durante a Guerra Civil e com a
tomada do poder pelo ditador a 30 de Janeiro de 1938, perseguiu e fuzilou
espíritas. Quais as implicações que estes factos históricos tiverem no
movimento espírita?
SM – Pode-se dizer que conseguiu extinguir, de forma quase completa, os
numerosos centros espíritas que existiam em diversas regiões espanholas, e
que na época contabilizavam várias centenas. A Federação Espírita
Espanhola, que havia organizado o V Congresso Espírita Internacional, em
Barcelona, em 1934, também desaparece; e com ela submerge todo o movimento
espírita, que passa a existir em total obscurantismo, e do qual consegue
sair somente depois do fim do regime franquista e com a instauração da
democracia na Espanha.
Democracia
A
22 de Novembro de 1975 renasce a democracia, quando D. Juan Carlos l foi
proclamado Rei de Espanha. Como voltou a prosperar o movimento espírita
sobrevivente?
SM – A figura de Rafael González Molina foi, sem sombra de dúvida,
determinante, uma vez que ajudou a impulsionar a recuperação da legalidade
do espiritismo na Espanha. Ele conseguiu reunir alguns dos espíritas
espanhóis sobreviventes e fundar diversas instituições espíritas, entre as
quais se destaca a Federação Espírita Espanhola.
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Salvador Martín, Pilar Doménech, Pepe, Blas
González e José Antonio |
Quando foi fundada a FEE?
SM – Depois de muitas lutas jurídicas e administrativas travadas entre
Rafael González Molina, primeiro presidente da moderna Federação Espírita
Espanhola, e o Ministério do Interior funda-se novamente a FEE, em 10 de
outubro de 1984, com a Asociación Espírita Española (Madrid), Fraternidad
Humana (Tarrasa), Centro de Estudios y Divulgación Espírita (Madrid),
Centro Espírita la Voz del Alma (Barcelona) e o Centro Espírita Amor y
Progreso (Montilla).
Actualidade
Qual a composição da actual directoria?
SM – Depois da última Assembleia-geral da FEE, realizada em Dezembro de
2003, esta junta foi reeleita e segue composta por Blas González, como
vice-presidente, Esteban Zaragoza, como secretário, Luís Marchante, como
tesoureiro, e por mim, como presidente.
Qual
o papel da FEE no movimento associativo?
SM – Nosso papel fundamental é o de promover a união de todos os espíritas
espanhóis. Para isso destaco, como um dos actos más importante para a
realização deste fim, os congressos nacionais que são realizados
anualmente. Porém, é o trabalho constante dos centros espíritas, na busca
da formação com base na linha das obras fundamentais que esse papel se faz
mais efectivo.
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X Congresso Espírita Espanhol, Gandia |
Quantas associações federadas existem?
SM – Actualmente existem 15, porém, sabemos que há um grande número de
associações não federadas que desejam associar-se à FEE, sendo que algumas
estão somente à espera de trâmites legais, para além de outras
solicitações de reingresso que serão efectivadas já na próxima Assembleia.
E as não federadas?
SM – Recentemente surgiram novos grupos com o apoio da Federação, os quais
estão à espera de serem federados, de modo que contando todos os não
federados esse número estaria em torno das 20 associações.
Existem Uniões regionais?
SM – Sim, e recentemente todos os centros de Castilha-La Mancha que
pertencem à FEE realizaram um encontro para promover a união e colaboração
mútua.
E encontros nacionais?
SM – Também. Estes ocorrem todos os anos, no mês de Dezembro, por motivo
dos Congressos Espíritas Nacionais.
Quais
as maiores dificuldades que sentem no trabalho que desenvolvem?
SM – As mesmas que certamente enfrenta o movimento espírita a nível
mundial: a existência da vaidade, do orgulho e a ignorância com respeito
aos valores e princípios espíritas mesmo entre aqueles que, erroneamente,
se autodenominam “espíritas”, o que dificulta a verdadeira união dentro do
marco da Fraternidade que deve primar no âmbito do movimento espírita com
um todo.
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XI Congresso Espírita Espanhol, Benidorme |
Que projectos têm para o futuro?
SM – Aumentar os laços de união de todos os espíritas através,
fundamentalmente, da formação e da promoção de conferências, seminários,
cursos, etc. Conquistar, no âmbito da sociedade espanhola, maior
credibilidade para espiritismo, fazendo com que deixe de ser algo
relacionado com questões que pouco têm a ver com o movimento espírita,
como por exemplo confundi-lo com questões esotéricas. Divulgar amplamente
os princípios contidos na obra de Allan Kardec para que chegue até o homem
actual esta mensagem de consolo, levado-o a compreender que é cultivando
os valores morais que encontrará de modo efectivo a chave da felicidade e
da paz interior, tão perdida nos tempos de hoje.
Em
que áreas?
SM – Por ordem de importância destacaria as seguintes áreas: formação
doutrinária, formação mediúnica, divulgação escrita, organização de
congressos, promoção de seminários e conferencias, e também a Internet.
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Dirigentes espíritas espanhóis |
E na Internet?
SM – A Internet tem e representa um papel fundamental dentro do marco da
divulgação já que, actualmente, existe um grande número de pessoas que
“encontram” o Espiritismo graças a esse veículo de informação, ao nosso
site (1) e ao nosso chat (2), e que descarregam desde a web (3), as Obras
Básicas da Codificação Espírita. Recentemente, a Internet também passou a
cumprir uma tarefa formativa, pois há duas semanas estamos levando a cabo
o Curso Sistematizado da Doutrina Espírita, com ampla participação de
espíritas espanhóis e da América do Sul e Latina. Curso ao qual se poder
ter acesso através do chat da Federação Espírita Espanhola, todas as
quartas-feiras, às 22h00 (4) em
http://www.espiritismo.cc.
O Departamento Infanto-Juvenil (DIJ) surge em 8 de Dezembro de 1998 em
Ciudade Real. Como dinamizam essa faixa etária?
SM – Esta área já promoveu três encontros de jovens. No entanto, o baixo
número de jovens e crianças espíritas nos indica que ainda há muito por
fazer e que os passos devem ser encaminhados mais no sentido de promover a
consciencialização dos pais espíritas sobre a necessidade de formar seus
filhos de acordo com os valores morais do espiritismo, através de cursos e
encontros infanto-juvenis. Já que não é por acaso que estes espíritos
encarnaram como seus filhos, não convém que desprezem a missão que lhes
foi confiada.
Quantas editoras espíritas existem?
SM – Actualmente duas; Editora Espírita Allan Kardec de Málaga e a Editora
Amélia Boudet de Barcelona.
Existem veículos de comunicação da mensagem espírita nos jornais,
programas de rádio e TV, peças teatrais ou musicais?
SM – Sim, através de jornais, revistas, diários regionais e intervenções
radiofónicas. Em quanto à televisão preferimos não ir, já que é um meio
onde este tema costuma ser ridicularizado e relacionado com outras
questões totalmente alheias ao espiritismo.
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Teresa, Blas, Nilson, Divaldo, Salvador, Tony
e Luís |
Em 1988 é realizado o I Congresso Espírita Internacional, em 1992 é
fundado o CEI. Desta vez, realizou-se o I Encontro Europeu Médico-Espírita
em 2003, organizado pela FEE, tendo por Coordenação Geral a Associação
Médico-Espírita do Brasil e contando com o apoio do CEI, sendo o primeiro
evento na área médico-espírita a realizar-se em toda a Europa. Como vê a
importância destes eventos internacionais realizados em Espanha?
SM – Sem duvida alguma que possuem uma importância capital, já que é
através dos congressos e encontros desse tipo que o movimento espírita
apresenta-se perante a sociedade; e mostra através das conferências o que
é realmente o espiritismo. Para além disso, também conseguem unir os
espíritas, fazendo-os compreender mais e melhor os princípios
doutrinários. E no caso concreto do I Encontro Europeu Médico-Espírita,
demonstrar o aspecto científico do espiritismo, pois é através dele que
hoje conseguiremos mais facilmente nos aproximar de muitos sectores da
sociedade.
O
Curso Básico de Espiritismo da ADEP, assim como os 4 Cursos Básicos de:
Expositores; Doutrinadores; Passistas e Atendimento Fraterno do CECA -
Centro Espírita Caridade por Amor - estão sendo traduzidos para o
castelhano: foram recomendados pela FEE e irão ser enviados para as
associações espíritas espanholas. Porquê?
SM – Exactamente. Como já mencionei, um dos compromissos mais importantes
desta Federação com relação aos centros que a compõem é o de melhorar e
contribuir com o maior número de ferramentas para conseguir apresentar as
obras fundamentais da codificação e o conhecimento espírita da forma mais
didáctica e compreensível para todos. Nesse aspecto fornecemos aos centros
todo o material que consideramos bom e útil, como pode ser o Estudo
Sistematizado da Doutrina Espírita, o próprio Curso Básico de Espiritismo
da ADEP, etc.
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Confraternização de espíritas catalães e
a AME Porto. |
O que conhece da realidade portuguesa?
SM – É uma sociedade muito semelhante à espanhola: uma sociedade europeia,
já cansada de sequências litúrgicas, cansada de mentiras católicas e de
fantasias religiosas que durante séculos foram sendo impostas. Com as
dificuldades também superadas de uma ditadura, ainda se debate entre o
materialismo dominante e necessita encontrar os porquês de sua existência,
os quais descobrirá mais cedo ou mais tarde, mas que alcançará,
fundamentalmente, através da razão e da lógica.
Que mensagem deixaria aos portugueses?
SM – Amigos, vizinhos desta península, se existe algo realmente importante
na mensagem espírita é a afirmação de que, acima de tudo, deve estar o
amor e a fraternidade. De nada servem as crenças, os debates linguísticos
e muito menos os dogmas de fé. Será somente o amor e nossa actuação dentro
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Duas coisas em comum: historiadoras e
espíritas. Maria José Cunha (Portugal) e Pilar Doménech (Espanha). |
da humildade e da caridade, seja qual for nosso nome, (espírita, católico,
muçulmano ou materialista...), o que marcará nosso bem-estar presente e
futuro. E encontrando-nos assim reunidos geograficamente, tão próximos
fisicamente, que devemos lograr ser um exemplo dessa verdadeira
fraternidade tão importante. Devemos estar cada vez mais próximos,
estreitar cada vez mais nossos laços de amizade, trabalhar pela conquista
da paz neste planeta, não banindo apenas as guerras do mundo, mas banindo,
sobretudo, o ódio e o orgulho que possam nascer em nossos corações e que
trazem como consequências a miséria, a desgraça e a dor a esta humanidade
que levou acabo grandes conquistas técnicas e científicas, que viaja ao
espaço, mas que ainda não soube viajar a seu próprio coração, nem
conquistar a paz em seus próprios lares.
Texto oferecido pelo autor,
que é membro da AME Porto,
e publicado no "Jornal
de
Espiritismo” de Portugal

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