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Entrevistas

Núbor Orlando Facure
MÉDICO NEUROCIRURGIÃO E EX-PROFESSOR CATEDRÁTICO DE NEUROCIRURGIA
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Núbor Orlando Facure, médico neurocirurgião em
dedicatória do seu livro Cérebro e Mente à AME Porto. |
Núbor Orlando Facure, é médico neurocirurgião e espírita. Director do
Instituto do Cérebro de Campinas – São Paulo, ex-Professor Catedrático de
Neurocirurgia da Unicamp (Universidade de Campinas), escritor e expositor
espírita, foi entrevistado em exclusivo no Brasil pelo Jornal de
Espiritismo no Instituto do Cérebro que dirige desde 1987.
Como Professor Catedrático de Neurocirurgia e espírita, como conciliava
o espírito e matéria nas aulas que leccionava aos médicos na Faculdade de
Medicina?
Núbor Orlando Facure -
Para divulgar o pensamento espírita aos alunos considerei que, em primeiro
lugar, precisava conhecer profundamente a neurologia para não ser
criticado por falhas médicas que contaminariam minhas interpretações
doutrinárias. Por outro lado, nunca me inibi, diante de quem quer que
fosse, de revelar minha crença no Espiritismo. Vale a pena dizer que sendo
especialista em neurologia e interessado na interacção cérebro e mente,
sempre fui procurado por professores de outras áreas interessados em
conhecer um pouco mais sobre a mente e a fisiologia cerebral. Foi com os
físicos, matemáticos e químicos que nos surgiu a oportunidade de criar em
1987 o Instituto do Cérebro. É preciso dizer, também, que, estudando
intensamente os aspectos científicos do Espiritismo, ficamos numa situação
confortável para dialogar com segurança em qualquer meio científico. Não
vejo, até hoje, qualquer postulado Espírita que a Ciência oficial possa
recusar como inaceitável.
Tenho, quase que por obrigação, que destacar que toda essa atividade
profissional exercida com o compromisso espírita, só foi possível por ser
a nossa Universidade (Unicamp) totalmente aberta a expressão do pensamento
e, tivemos o privilégio de contar com alunos respeitosos e “vacinados”
contra qualquer preconceito. Tenho orgulho de ter instituído na
Universidade um curso de pós-graduação voltado ao estudo do cérebro e da
mente no qual a tônica foi a existência do Espírito, numa abordagem
científica sem fanatismos ou preconceito.
Como vê a relação cérebro-mente?
NOF -
Minha visão é dualista. Compreendo a mente como uma entidade autónoma que
instrumentaliza o cérebro para se expressar no mundo físico onde
existimos. Basta-nos ver os inúmeros fenómenos da actividade mental que
nos permite perceber a mente como passível de se exteriorizar independente
do cérebro.
O Espiritismo nos oferece uma contribuição extraordinária ao nos informar
da existência de um “corpo espiritual”, também chamado de perispírito, que
intermedeia a interacção entre o cérebro e a mente. Essa hipótese, abre
uma enorme perspectiva de trabalho experimental, ao se confirmar pela
exteriorização da Alma no transe sonambúlico, onde se constata, por
exemplo, a clarividência e a memória extracerebral, com maior ou menor
nitidez.
Em sua opinião, qual a fisiologia da mente?
NOF -
Vejo a mente como sinónimo de Espírito. Sendo assim, ela é depositária de
toda experiência que cada um de nós acumula em suas inúmeras encarnações.
Daí a grande complexidade que se revela no comportamento, nas preferências
e aptidões de nós todos. Aqui também, precisamos incluir o perispírito
para compreender toda extensão da dinâmica que alimenta a fisiologia da
mente, pois, é nele, que estão sedimentadas as nossas memórias que, por
sua vez, revelarão as inúmeras personalidades que já vivenciamos em
múltiplas experiências de vida.
O que é a energia mental?
NOF -
Sem qualquer traço pessoal que possa sugerir humildade, tenho obrigação de
reconhecer que me falta competência para responder a esta pergunta. Trago
apenas algumas lições que os Espíritos nos ensinaram nas obras de Kardec.
Existem dois elementos no Universo: a matéria e o Espírito. Não nos é
possível, ainda, conhecer a origem e natureza íntima do Espírito, mas, foi
nos ensinado, que toda matéria procede de um elemento primitivo que os
Espíritos denominaram “fluido cósmico universal”. Creio que faríamos um
grande progresso, em termos de Ciência, se nos empenhássemos mais no
estudo desses fluidos. São eles que conferem as propriedades da matéria e,
pela sua interferência ou actuação, a matéria poderá sofrer mudanças
radicais em suas propriedades. O Espírito só pode actuar no mundo material
através da intermediação desse fluido. O pensamento emitido pelo Espírito
é transmitido através dele, o que pode esclarecer a sua importância na
transmissão e actuação da energia mental.
Sendo esse fluido suscetível a actuação do Espírito, creio que ele pode
ser entendido como a energia primitiva que inunda nosso Universo.
Aventuro-me a sugerir que ele corresponde ao “sopro divino” dos textos
bíblicos e em seus fundamentos deve conter as propriedades da energia
primitiva que unificaria as quatro forças elementares do Universo físico.
Como o “fluido cósmico” inunda todo o Universo e, de suas transformações
resulta tudo que existe, creio que ele é a mais sublime expressão do
pensamento de Deus.
Como relaciona a mediunidade com a fisiologia cerebral?
NOF -
Todo fenómeno mediúnico se processa através do cérebro do médium. Em
termos psicológicos já nos são conhecidos alguns mecanismos envolvidos com
fenômeno. O condicionamento, a sugestão, a aceitação e a sintonia mental
são considerados fundamentais. Por outro lado, em termos orgânicos,
abordando a fisiologia cerebral, venho defendendo minha sugestão de que a
mediunidade seria um fenómeno de “automatismo cerebral”, com a
participação de duas mentes. O Espírito comunicante e o médium – que
compõem uma parceria sensitiva – motora mais ou menos harmónica, capaz de
produzir o fenómeno. Sendo assim, tenho sempre destacado, que, em termos
de mediunidade, não há produção independente. Tanto o médium que se presta
à transmissão da mensagem como o Espírito que a transmite, são autores e
co-autores de todo conteúdo da mensagem, seja ela oral, escrita, pictórica
ou psicométrica.
Sem poder entrar em detalhes numa entrevista como essa, quero anotar
apenas que, os automatismos motores a que me refiro, já têm suas vias
neurais muito bem conhecidas no ambiente da neurologia. E, se a
mediunidade inclui o cérebro do médium para se revelar, é fundamental
conhecer e respeitarmos as conexões dos centros nervosos ao propormos
qualquer teoria para explica-la.
E com as doenças espirituais?
NOF -
Desde que iniciei os meus estudos na Faculdade de Medicina procurei lidar
com a existência da Alma para compreender a extensão maior do sofrimento
humano. Nunca me permiti excluir o conhecimento espírita, que trago desde
criança, para completar minha formação acadêmica. Minha busca maior foi
sempre a de lidar com os conhecimentos da fisiologia cerebral ampliada
pelas expressões da espiritualidade que tive a felicidade de testemunhar
com nossos médiuns.
No início me preocupava em aprender a catalogar correctamente os quadros
clínicos. Parecia-me ser importante produzir um diagnóstico correcto
quando se tratava de uma doença física ou de uma manifestação de natureza
espiritual. A maturidade profissional, entretanto, me permitiu acumular
experiência nos dois campos. Hoje, posso afirmar que toda expressão de
doença que ocorre em nós, é fruto amargo produzido por nós mesmos. Somos a
própria vítima quando nos sedemos a invigilância. O campo mental que
vivenciamos é expressão de inteira responsabilidade nossa. Qualquer
escolha e qualquer decisão que tomamos, agrega elementos que irão compor a
psicosfera com a qual estaremos circulando pelo mundo.
A psicografia do nosso querido Chico Xavier, com destaque para André Luiz
e Emmanuel, nos brindou com uma vastíssima literatura nos ensinando essas
verdades cristalinas.
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Os médicos: Lígia Almeida, presidente da AME
Porto e Núbor Orlando Facure, director do Instituto do Cérebro de
Campinas, S. Paulo. |
Será, de facto, a Glândula Pineal o órgão da mediunidade por
excelência?
NOF -
Minha visão, como neurologista exige um pouco mais para explicar toda a
fisiologia do fenómeno mediúnico. A importância da pineal mereceu muito
destaque nas obras de André Luiz e, a partir daí, os estudiosos espíritas
se encarregaram de alça-la a uma espécie de vedete com brilho exponencial.
Para mim, os instrumentos com os quais a Ciência de hoje nos permite
acessar o sistema nervoso são muito limitados. Conhecemos os neurônios e
seus circuitos, os neurotransmissores e sua actividade nas sinapses, e o
DNA com suas mensagens químicas interferindo na construção das proteínas.
Penso que mais cedo ou mais tarde iremos reconhecer com nossos
instrumentos, a actuação dos fluidos espirituais, que de alguma forma
executam uma fisiologia que nos é na actualidade totalmente desconhecida.
É por isso que a pineal é vista “do lado de cá” como uma glândula de menor
importância do que as descrições que André Luiz nos oferece.
Quando nos foi revelada a circulação do sangue, a condução eléctrica pelos
feixes nervosos ou a atuação dos micróbios produzindo doenças, a Medicina
inaugurou, nessas ocasiões, novos paradigmas que mudavam por completo a
sua interpretação sobre a fisiologia dos fenómenos orgânicos. Creio eu,
que, o estudo da fisiologia dos “fluidos espirituais” nos abrirá um
extenso domínio de conhecimentos com capacidade, também, de alterar todo o
paradigma da Ciência Médica. A partir daí, compreenderemos melhor a
importância do influxo da energia mental na condução de toda orquestração
que a fisiologia celular exige.
Como diagnostica os distúrbios neurológicos de foro espiritual?
NOF -
Estudando as obras de André Luiz, na psicografia de Chico Xavier, elaborei
uma classificação para compreendermos o diagnóstico das “doenças
espirituais”. Sugeri a existência de dois grupos – as “auto-induzidas”,
que resultam de nossas próprias atitudes mentais e as “compartilhadas”,
onde ocorre a participação de entidades espirituais com os quais nos
associamos promiscuamente ou, aquelas que de alguma maneira se sentem
credoras de débitos que precisamos saldar. Dentro desses dois grupos foram
incluídos o desequilíbrio vibratório, a auto-obsessão, o vampirismo e a
obsessão propriamente dita. Ficam disponíveis os meus livros – O Cérebro e
a Mente; Muito Além dos Neurônios e minha homepage na Internet onde consta
a descrição completa dessa classificação (www.geocities.com/nubor_facure).
Que tipo de tratamento utiliza?
NOF -
Na minha actividade profissional desempenho o papel de um neurologista
como qualquer outro. O que faço questão sempre, é de, respeitosamente,
deixar claro aos meus pacientes que sou espírita e, quase sempre, posso
discutir com eles uma orientação espiritual para seus problemas médicos.
Em todo nosso país as pessoas são muito abertas a conversar sobre
espiritualidade. Felizmente, preconceito e fanatismo que costumam
prejudicar esse diálogo, é relativamente incomum. Para o tratamento
específico no campo da espiritualidade, considero ser muito mais adequado
apontarmos um Centro Espírita, onde já temos pessoal competente e
interessado nesse apoio que nos é fundamental.
Como médico neurologista, o facto de também ser espírita, contribui
para uma melhor Qualidade de Vida dos pacientes?
NOF -
Prefiro inverter a colocação. Quem se sente favorecido sou eu, pela
acolhida de uma grande clientela que me prestigia, aceitando-me como
médico e como espírita. Já estou clinicando há 40 anos como neurologista e
toda população da cidade de Campinas me identifica como médico espírita.
Com frequência os encontro nas minhas palestras nos Centros espíritas que
me honram com os seus convites.
No Instituto de Cérebro que pesquisas tem efectuado na comprovação da
existência do espírito?
NOF -
Como já afirmei, conheci o Espiritismo a partir dos sete anos de idade.
Com meus pais e irmãos sempre estivemos envolvidos com o meio Espírita de
nossa cidade natal. Preciso destacar que sou de Uberaba e ali foram
inúmeras as oportunidades de testemunhar com nossos médiuns a certeza da
vida espiritual. As cartas amorosas dos familiares já desencarnados trazem
detalhes de comprovação inegável. Os fenómenos de efeitos físicos que
presenciamos serviriam para afrontar a exigência de qualquer cientista
descrente. A possibilidade de caminhar lado a lado com o médium Chico
Xavier me permitiu conhecer tantos detalhes da espiritualidade que seria
ingratidão de minha parte exigir mais.
É por isso que não sentimos necessidade de comprovar experimentalmente a
existência de Espíritos. Pelo que já sabemos, eles estão, por sua vez,
esperando um pouco mais de nós. Nosso maior interesse, como se pode
perceber nessa entrevista, é conhecer mais e melhor os processos cerebrais
envolvidos na mediunidade e a contribuição que a classificação das doenças
espirituais pode trazer para alívio do sofrimento dos pacientes que nos
procuram.
Texto oferecido pelo autor,
que é membro da AME Porto,
e publicado no "Jornal
de
Espiritismo” de Portugal

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