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Entrevistas

Manuel Aguilar Garcia
GENERAL FRANCO PERSEGUE E FUSILA ESPÍRITAS ESPANHÓIS
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D. Manuel Aguilar Garcia |
D. Manuel Aguilar Garcia, da cidade de Montilla (Andaluzia Espanhola),
nasce a 7 de Março de 1926 no período final da Restauração dos Borbones.
Em plena ditadura de Miguel Primo de Ribera, como espírita, o jovem Manolo
passa pela convulsão de vários períodos históricos: desde a 2ª Republica
(1931-1936), a Guerra Civil (1936-1939), o Pós-Guerra (1939-1975) mais
conhecido pela Ditadura do General Franco, o período de Transição
(1975-1978) e finalmente pela Democracia Restaurada (1978). Homem meigo e
sincero, de uma cultura invulgar para um semi-analfabeto. Aqui fica a
entrevista de quem muito viveu e venceu...
Como conheceu o espiritismo?
Pelo casamento de minha irmã que era médium. Seu marido conhecia o
espiritismo, que já se praticava em Montilla desde 1918. A partir dessa
data, minha família começou a frequentar um Centro Espírita.
Havia então um Centro Espírita em Montilla?
Sim, havia. O Centro Espirita Amor y Progreso, do qual ainda faço
parte.
Lembra-se como tudo aconteceu?
Tinha 9 anos. Face a um comerciante local de tinajas* (vasilhas
cerâmicas para a fermentação do vinho), que percorria varias localidades
da região espalhou os ideais espíritas pela cidade. Sendo muito bem aceite
pelo povo. Minha mãe e irmã quando chegavam comentavam entre elas sobre a
doutrina espírita e eu escutava atentamente.
Que papel tinham os comerciantes à época?
Os comerciantes à época eram como jornalistas da actualidade.
Levavam e traziam a informação ao povo das localidades por onde passavam.
Tinham grande mobilidade, logo, tinham acesso a muita informação. Entre as
quais, as provenientes de Paris e de imigrantes espanhóis que regressavam
da cidade luz com a Boa Nova – O Espiritismo.
Qual a razão desse papel?
Período difícil. Muita fome, muito trabalho e total isolamento.
Naquela época estávamos totalmente isolados do resto de Espanha e do mundo
e os comerciantes eram a própria noticia.
Existiam comerciantes espíritas?
O espiritismo havia sido difundido pelos comerciantes. Um dos que
conheci, era espírita e actuava como um verdadeiro difusor da doutrina
espírita.
Esse isolamento não teria sido benéfico também?
Sem duvida alguma. Face a esse isolamento, o ambiente sócio-cultural
na Andaluzia proporcionou a difusão das Obras de Allan Kardec. Os
espíritas multiplicavam-se. Não foi por mera casualidade que Amália
Domingo Soler – a grande Senhora do Espiritismo espanhol – nasceu na
Andaluzia.
Quando mudou esta situação?
A partir da Guerra Civil (1936-39). A igreja, o exército e os
latifundiários passaram a ser os donos, os senhores, os juízes e carrascos
por toda a Espanha. Haviam duas sociedades distintas: eles, os senhores
feudais, militares e padres, e nós, o povo que trabalhava e morria para
eles. Sem dinheiro, comida, médicos… éramos autênticos escravos.
O que aconteceu aos espíritas?
Foram perseguidos, torturados e fuzilados. Em Agosto de 1936, dois
membros do Centro Espírita Amor y Progreso de Montilla, Pedro Almenta
Varga e Solano Flores, são fuzilados.
Fuzilados por serem espíritas?
Sim.
Do que se recorda daquela época?
Era muito jovem. As reuniões desapareceram momentaneamente. Era um
período de terror. O espiritismo era bastante aceite pelo povo, e por
estarmos isolados, todos se conheciam uns aos outros. Os padres e
militares conheciam-nos um-a-um. Época difícil.
Algo mudou na vossa família?
Sim. Meu tio, era um político contra o regime fascista e foi fuzilado
também em Agosto de 1936. A partir desse momento, meu familiar que fora
assassinado, começa a se comunicar através de minha mãe que era médium de
efeitos físicos. Ele, informava-nos de como ia a Guerra. Estávamos muito
bem informados por meu tio, e ficamos muito surpreendidos de como tinha
terminado.
O que o senhor fazia?
O que toda a gente fazia. Trabalhar duramente. Muitas horas por dia
no campo para podermos levar algo para casa para comermos.
Quando recomeça a frequentar as reuniões na clandestinidade?
Depois de regressar do serviço Militar Obrigatório, que à época durava 2
anos.
De que ano está a falar?
Fui liberado da vida militar em 1949.
O Centro Espírita Amor y Progreso continuava a existir?
Sim. Mas na clandestinidade. As reuniões continuavam. Mudávamos de local
sistematicamente, para despistar os padres e militares que nos perseguiam.
Tinham livros?
Sim, tínhamos livros. Eram o nosso tesouro. Estavam escondidos dentro de
um tabique na casa do alfaiate da nossa povoação. Sendo o nosso tesouro,
estavam muito bem escondidos dos padres e militares. Envolvíamos com um
saco de yuste* (tecido feito de fibras vegetais) para protege-los, porque
para compra-los, custava-nos muito.
Protegiam os livros?
Como disse, eram o nosso tesouro. Tínhamos que os preservar. Cada livro
que comprávamos, custava-nos muito mesmo. Às vezes passávamos fome para os
ter. Como estavam escondidos em locais pouco usuais, surgiu um outro
problema, os ratos. Os ratos chegaram a destruir algumas partes. Cada
livro tinha um valor incalculável para o conhecimento da doutrina
espírita. Era a único meio e o mais valioso que contávamos para estudar.
Como sabes o estudo para um espírita é fundamental.
Como faziam para comprar?
Todos nós éramos muito pobres. Cada um dava uns cêntimos e íamos
guardando até atingir algum valor, o que por vezes levava anos para
adquirir mais uma obra de Kardec.
Durante a ditadura do General Franco, que faziam para não serem
descobertos?
Estávamos constantemente vigiados pela Guardia Civil. Numa povoação
pequena, todos conhecíamos uns aos outros. Partilhávamos nosso ideal com
nossos vizinhos e amigos. Inclusive no campo. O padre sabia de nossa
existência. Tínhamos que ter muito cuidado. Todos eles sabiam que nossa
família era espírita. Assim, reuníamo-nos em casa de familiares, amigos e
muitas vezes em lararetas* (pequeno lagar). Dávamos a entender que íamos
em visita social ou trabalhar, como se fossemos casais, famílias ou
amigos. Não poderíamos ter um sítio fixo.
Como nunca foram descobertos!?
Graças a nossos Guias espirituais. Nossos antigos irmãos desencarnados
que haviam fundado o Centro Espírita Amor y Progreso, regressavam para nos
ajudar. Aconselhavam-nos quando deveríamos de mudar de sitio e para onde.
Muitas vezes a Guardia Civil, ia a uma casa em que já tínhamos reunido
tentando nos apanhar e revistavam tudo para apanhar vestígios – o nosso
Tesouro (Os Livros). Nunca nos apanharam, graças aos irmãos desencarnados
que sabiam antecipadamente do que iria acontecer e sugeriam-nos o que
fazer.
Tem alguma recordação dessas reuniões?
Varias são as histórias. Posso te contar que uma noite, cerca das 3 de
madrugada, éramos quinze homens, saímos de uma reunião que tínhamos feito
numa casa na periferia de Montilla. Saímos todos juntos, pois a caminhada
era longa, quando surge a Guardia Civil. Assustamo-nos. Tranquilamente os
saudamos. Aproximaram-se e começaram-se a rir, pois pensaram que saímos de
um bordel. Já que a casa que estávamos era junto ao bordel. Repito, sempre
e em todo o momento, nossos Guias nos avisavam de tudo.
Que mais informações os Guias vos davam?
Nossos Guias Protectores nos aconselharam também, sobre as medidas a
tomar para assegurar o progresso do povo debilitado e faminto. Face a essa
indicação, montamos uma Cooperativa Vitivinícola em Montilla. Essa
Cooperativa foi para a frente, graças à força de vontade de três grandes
homens com “H” maiúsculo; António de la Torre, José de la Torre, Francisco
Salido e eu próprio. Nao foi fácil. Foi difícil falar com o povo, pois
tinham medo. Depois de muitos esforços e conversando com muita gente,
fizemos frente aos grandes proprietários da zona, já que estes não tinham
qualquer interesse que nosso projecto fosse materializado. Tudo fizeram
para o gorar. Com essa Cooperativa os Senhores, ficavam sem mão-de-obra
barata e sabiam que o povo começaria a ter melhor qualidade de vida. Algo,
que era impensável para os senhores feudais. Mais tarde, criamos a
conselho de nossos Guias Espirituais, uma Cooperativa de Serviços
Comunitários. Assim prosseguimos nossa marcha em duas frentes; no
espiritual e no social. Diria mais, António de la Torre alem de fundador
das Cooperativas, foi um trabalhador e impulsionador do Movimento
Cooperativista em nossa Comarca. Foi um grande expoente do Espiritismo
Social da época.
Como eram vistos pelo povo de Montilla?
Os vizinhos tinham-nos em grande consideração e respeito. O mesmo não
poderia dizer a igreja, os militares e os senhores feudais. Quando
fundamos a Cooperativa e viram suas vidas melhorar, o povo, entendeu que
era esse o caminho. Por outro lado, também recorriam ao Centro Espírita
para obter ajuda espiritual e muitos se juntaram a nós. Assim,
continuávamos a trabalhar até à morte de Franco.
E depois da Democracia restaurada a 22 de Novembro de 1975?
Começamos com a legalização do Centro Espírita Amor y Progreso. Fomos
também membros fundadores da Federação Espírita Espanhola, junto com
Rafael González Molina e outros companheiros. E participamos no Congresso
Espirita Nacional de 1981.
Face a sua vivência que mensagem deixaria aos espíritas da actualidade?
Sou um defensor do Espiritismo pela vivência que tive e por fortalecer
minha natureza biopsicossocioespiritual. Sinto Deus na Natureza e tenho a
certeza de que a vida continua depois da morte. O Espiritismo “matou” a
morte. Sinto, sinceramente, este postulado do Espiritismo que tem sua
Cultura na melhoria da vida e do mundo actual. Finalizo com maiúsculas:
Espíritas, deixem de adulterar a Filosofia do Espiritismo que é o berço de
todas as criaturas que têm fome e sede de conhecimento. Adelante!
Texto oferecido pelo autor,
que é membro da AME Porto,
e publicado no "Jornal
de
Espiritismo” de Portugal

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