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Entrevistas

Luís de Almeida
COMO UM CIENTISTA EUROPEU VÊ
O ESPIRITISMO
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Luís de Almeida |
Luis de Almeida é licenciado
em engenharia aeronáutica, mestre, doutor e Pós-doutor em astrofísica e
cosmologia multidimensional. Actualmente é um dos cientistas e
pesquisadores que integra a Agencia Espacial Europeia. Espírita desde bem
jovem e ex-ateu convicto e orgulhoso como se definia, teve contato com o
espiritismo com a oferta aos 15 anos de “O Livro dos Espíritos”.
Interessou-se pela racionalidade, lógica e inteligência do tipo de
perguntas colocadas por Kardec bem como das respostas dadas pelos
espíritos. Desde então nunca mais parou… É ainda jornalista, conferencista
e articulista espírita escrevendo para os midia espíritas há mais de 20
anos. Aqui fica a visão de como um pesquisador europeu de profissão vê o
espiritismo.
O Espiritismo é uma Religião?
Não, não é. Usualmente define-se o Espiritismo como uma religião.
Inclusive, em alguns locais, o Espiritismo é tratado como mais uma
religião, a par de centenas de outras. Allan Kardec definiu o Espiritismo
de forma bem clara e transparente. Se o Espiritismo fosse mais uma
religião perderia o seu carácter Universalista e seria apenas mais uma, no
meio de um milhar oriundas do cristianismo, e mais de três milhares
provenientes de outras sensibilidades religiosas.
O pensamento de Kardec é bem claro, pelo que não se entende muito bem,
essa infeliz afirmativa. Pessoalmente, acredito que seja por ignorância ou
má-fé.
Entretanto leiamos Kardec: (1) «Porque, então declaramos, que o
Espiritismo não é uma religião? *
Porque não há uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e que, na
opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; desperta
exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o
Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí senão uma
nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos em
matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de
cerimónias e de privilégios; não o separaria das ideias de misticismo e
dos abusos contra os quais tantas vezes se levantou a opinião pública.Não
tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção
usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre
cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis porque simplesmente se
diz: doutrina filosófica e moral.» *
Acreditamos que podemos amar profundamente o próximo e pôr em prática essa
notável nobreza, aproximando-nos de Deus, através do crescimento interior
de cada um, sem haver necessidade de se reduzir o Espiritismo a uma
religião, contrariamente ao pensamento de Kardec. Não devemos confundir
moral com religião. A moral tem um sentido mais abrangente, mais
Universalista, englobando todas as sensibilidades religiosas, sendo ela
própria, uma disciplina da Filosofia. O conceito de religião é redutor
limitando-se apenas a uma religião, é limitativa, absolutista, estática, e
sendo a mais pura antítese, da lógica e do raciocínio e o espiritismo tem
seus alicerces na lógica e no raciocínio. É dinâmico e progressista.
Espiritismo é uma seita?
Não, não é. Mas poderá vir a ser uma pequena seita religiosa de meia dúzia
de fanáticos ávidos de poder e dinheiro no dia que tentarem fazer do
espiritismo uma religião e subsequentemente mais uma fábrica de fazer
dinheiro e de explorar a humanidade. Como o espiritismo não tem qualquer
expressão a nível europeu e mesmo mundial (exceptuando o Brasil) não
passaria disso mesmo, de uma pequena e muito insignificante seita
religiosa…. a par de tantas outras!
Como diz o dicionário da língua portuguesa: «Seita é uma doutrina ou
sistema que se afasta da crença geral; é um conjunto de indivíduos que
professam essa doutrina; um partido, uma facção, ou um bando.»
Seria isso mesmo… um bando de indivíduos que professam uma doutrina que se
afasta da crença geral… Isto para não falar que por toda a Europa, com
excepção significativa de Portugal (10 milhões de habitantes, dos quais
meia dúzia de milhares de espíritas), Espanha (45 milhões de habitantes,
em que meia dúzia de centenas são espíritas) e Suiça (7 milhões de
habitantes, entre os quais meia dúzia de dezenas de espíritas) Ásia,
Oceânia, Africa e América Central e do Norte a existência de espíritas
locais quase não existe... isto para não dizermos que é nula. A que existe
é difundida por meia dúzia de imigrantes brasileiros existindo um ou outro
português, estando estes em muitos países misturados com praticas
esotéricas e outras crendices do oculto, o que vulgariza ainda mais esse
espiritismo religioso, fanático e comercial no qual muitos o querem
tornar., repetindo os mesmos erros do passado.
Todavia, existem alguns, muito poucos, desses mesmos emigrantes
brasileiros que são valorosos trabalhadores em prol dum espiritismo que
tem por bússola Allan Kardec, deixando de lado o “espiritismo á
brasileira” bem diferente daquele que nasceu em França pelo professor
Hypolite Leon Denizard Rivail.
A velha frase proferida por muitos espiritólicos** incautos querendo
contornar o incontornável ao afirmarem que «O espiritismo não é uma
religião, MAS… também é… só que é diferente das outras…» cai por terra…!
Ou é ou não é… mas o que o que eles querem dizer, e não sabem o que falam,
é isso mesmo, que o espiritismo é uma pequena seita religiosa… Valha-nos
santa ignorância…
O que é o Espiritismo?
Allan Kardec foi o codificador da Doutrina Espírita, a partir da edição de
O Livro dos Espíritos, em 18/04/1857. Ele definiu o Espiritismo como «uma
ciência que trata da natureza, da origem e do destino dos Espíritos, e de
suas relações com o mundo corporal", acrescentando que ele é, "ao mesmo
tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência
prática, consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos;
como filosofia, compreende todas as consequências morais que decorrem
dessas relações»(2):
Pelo que podemos constatar, Allan Kardec, numa definição límpida de
Espiritismo não faz qualquer menção a ser uma religião. Será que o génio
de Kardec se esqueceu?
Qual o verdadeiro carácter do Espiritismo?
No Livro “O que é o espiritismo”, podemos observar uma conversa de Allan
Kardec com um padre, em que ambos estabelecem o seguinte diálogo (3):
«O sacerdote - Convenho em que, no que diz respeito às questões em geral,
o Espiritismo é conforme às grandes verdades do Cristianismo. Mas... e aos
dogmas? Não vai ele de encontro a certos princípios que a igreja ensina?
Allan Kardec – O Espiritismo é, antes de tudo, uma ciência, e não se ocupa
com questões dogmáticas. Como ciência, e como todas as filosofias, tem
consequências morais. Estas são boas ou más? Pode-se julgá-lo pelos
princípios gerais que acabo de recordar. Algumas pessoas se equivocaram
quanto ao verdadeiro carácter do Espiritismo. A questão é suficientemente
séria e de molde a merecer uma explicação de nossa parte.»*
Pelo que vimos acima, já podemos observar que o próprio Allan Kardec
considera o Espiritismo como tendo consequências morais e não
consequências religiosas como alguns pretendem. É tremendamente lógica e
racional esta conclusão de Kardec; uma vez que o Espiritismo leva à nossa
reforma moral, e não à nossa reforma religiosa. Alertando mesmo para a
gravidade de tal proposta.
Um pouco mais à frente, Kardec, ainda detalha mais esta questão...(4):
"Melhor observado depois de sua divulgação, o Espiritismo faz luz sobre
uma multidão de questões até hoje tidas como insolúveis ou mal
compreendidas. Seu verdadeiro carácter é, pois, o de uma ciência e não de
uma religião. A prova disso é que conta entre seus adeptos homens de todas
as crenças (...)".*
E aquela historia do “Religamento” a Deus ou "Religação"...!?
A palavra religião vem do latim "religio", cujo sentido se discute ainda
hoje, pelos maiores especialistas linguísticos da actualidade, sem ainda
qualquer conclusão: segundo Cícero vem de "relegere" (donde vem "ler",
significando primeiro "colher "); segundo Lactâncio, vem de "religare"
(ligar de novo); as diferentes acepções latinas da palavra cobrem também a
ideia de escrúpulo, de recolhimento, de laço entre os deuses e os homens.
Existem algumas teorias sofistas, (partindo de uma premissa falsa) de que
a palavra religião vem do latim religare que se considerarmos que o
Espiritismo nos "religou" a Deus (o que é um autentico paradoxo, já que
nunca estivemos separados do Criador), podemos chamar-lhe religião.
Independentemente da etimologia ou semântica da palavra, já que até os
linguistas mais conceituados do mundo, desconhecem a sua proveniência,
vamos novamente ver o que Kardec diz a este respeito, ainda no mesmo livro
(5):
«O sacerdote - O senhor faz não obstante, as invocações segundo uma
formula religiosa?
Allan Kardec - Anima-nos, certamente, um sentimento de religioso, nas
evocações e em nossas reuniões. Não existe, porem, uma formula
sacramental. Para os Espíritos o pensamento é tudo; a forma não vale nada.
Nós os invocamos em nome de Deus porque cremos em Deus e sabemos que nada
se cumpre neste mundo sem a Sua permissão e porque se Deus não lhes
permitisse vir, não viriam. (...) Isto tudo o que prova? Que NÃO SOMOS
ATEUS, O QUE DE NENHUM MODO IMPLICA EM QUE SEJAMOS RELIGIOSOS.» *
Observa-se aqui que Allan Kardec é bem pragmático ao fazer a diferenciação
entre NÃO SER ATEU e SER RELIGIOSO. Saber que Deus existe, é tão-somente
isso mesmo: não ser ateu.
Quem deseja que o Espiritismo seja mais uma religião?
Eis uma observação de Kardec, muito a propósito, na Revue Spirite de 1864,
p. 199, com respeito à divulgação do Espiritismo como uma religião pelos
doutores da Lei da era moderna:
«Quem primeiro proclamou que o Espiritismo era uma religião nova, com seu
culto e seus sacerdotes, senão o clero? Onde se viu, até o presente, o
culto e os sacerdotes do Espiritismo? Se algum dia ele (Espiritismo*) se
tornar uma religião, o clero é quem o terá provocado».*
O que Camille Flamarion atesta a respeito?
Camille Flamarion, conceituadíssimo astrónomo francês e espírita - para
muitos cientistas considerado o Dr. Carl Sagan do século XIX -, sendo
conterrâneo e amigo pessoal de Allan Kardec afirmou:
«Porque, senhores, o Espiritismo não é uma religião, mas uma ciência, da
qual apenas conhecemos o abecê. O tempo dos dogmas terminou. A Natureza
abarca o Universo. O próprio Deus, que outrora foi feito à imagem do
homem, não pode ser considerado pela Metafísica moderna senão como um
espírito na Natureza. O sobrenatural não existe. As manifestações obtidas
através dos médiuns, como as do magnetismo e do sonambulismo. são de ordem
natural e devem ser severamente submetidas ao controle da experiência. Não
há mais milagres. Assistimos à aurora de uma Ciência desconhecida.» (...)
«Aquele cuja visão é limitada pelo orgulho ou pelo preconceito e não
compreendem esses desejos ansiosos de nossos pensamentos, ávidos de
conhecimentos, que atirem sobre tal género de estudos o sarcasmo ou o
anátema! Nós erguemos mais alto as nossas contemplações!»
Bem e finalizamos... o Espiritismo é a doutrina mais bela que pessoalmente
temos conhecimento: Libertadora e consoladora de consciências. Não pune e
jamais castiga. Esclarece, educa, iluminando nossas almas. Retira o homem
da ignorância e da obscuridade e recoloca-o como um ser consciente e
responsável pelos seus actos e pensamentos. E assim entendemos melhor a
frase de Jesus: “Conhecereis a verdade e ela vos libertará”.
(1) "Revista Espírita", Ano
XI, Dezembro 1868, vol. 12, - Discurso proferido pelo Sr. Allan Kardec na
sessão anual comemorativa dos mortos na Sociedade de Paris, 1º de Novembro
de 1868
(2) Kardec, Allan - O que é o Espiritismo -, Prólogo, pág. 12, LAKE
(3) Kardec, Allan - O que é o Espiritismo -, Cap. I, Terceiro Diálogo - O
sacerdote, pág. 97, LAKE
(4) Kardec, Allan - O que é o Espiritismo -, Cap. I, Terceiro Diálogo - O
sacerdote, pág. 98-99, LAKE
(5) Kardec, Allan - O que é o Espiritismo -, Cap. I, Terceiro Diálogo - O
sacerdote, pág. 99-100, LAKE
* Grifos nossos.
** Espiritólico. Vocábulo criado por vários confrades espíritas que
significa ser um adepto incondicional da igreja, (foram fanáticos da
igreja em reencarnações passadas, todavia, os próprios nesta vida não se
recordam) e que se intitulam de espíritas, mas na verdade não o são. São
bem católicos de corpo e alma. Explicando este temo desta forma o que o
professor Allan Kardec nos disse: Se algum dia ele (Espiritismo*) se
tornar uma religião, o clero é quem o terá provocado.
Texto oferecido pelo autor,
que é membro da AME Porto,
e publicado no "Jornal
Espírita da Federação Espírita do Estado de São Paulo”

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