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Entrevistas

Iso Jorge Teixeira
PROFESSOR DE PSICOPATOLOGIA E PSIQUIATRIA EXPLICA-NOS
A LIGAÇÃO ENTRE
DOENÇA BIPOLAR E ESPIRITISMO COM DEPOIMENTO DE UMA DOENTE
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Dr. Iso Jorge Teixeira |
Iso Jorge Teixeira é médico psiquiatra, professor de Psicopatologia e
Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do
Rio de Janeiro, coordenador há mais de 10 anos do Curso de Pós-graduação
Lato sensu de Psiquiatria, denominado Curso de Especialização em
Psiquiatria, escritor, articulista e colunista no Jornal de Espiritismo e
em entrevista exclusiva, no Rio de Janeiro, fala-nos sobre a Doença
Bipolar, também designada por Doença Maníaco-Depressiva que afecta 10% de
portugueses (1) com consequências que podem ser devastadoras na vida
social, profissional, familiar e afectiva dos doentes.
O que é a doença bipolar?
Iso Jorge Teixeira – A Doença Bipolar, também chamada atualmente
Transtorno Afectivo Bipolar, é uma doença mental cíclica, caracterizada
por fases de euforia, chamadas maníacas e de tristeza muito intensa,
chamadas depressivas, com “intervalos lúcidos” entre as fases. Por isso
mesmo ela foi denominada, no passado e até na segunda década do século 20,
loucura ou psicose maníaco-depressiva (PMD).
A doença tem início, em geral, na idade madura, entre 30 a 40 anos; o que
não impede que haja casos de início mais precoce ou mais tardio.
O paciente com Doença Bipolar pode apresentar, predominantemente, as fases
depressivas (o que é mais comum) e poucas fases de euforia (maníacas). É
uma doença que afecta mais o sexo feminino do que o masculino, na
proporção de 3 para 1.
Quais as suas causas?
IJT – As causas da Doença Bipolar são genético-constitucionais, embora
o ambiente seja importante (como em toda doença mental) para o
desencadeamento dos sintomas.
Houve época em que se dava mais importância ao aspecto constitucional das
doenças mentais, isto é, às características corporais e físico-químicas do
indivíduo predisposto. Assim, o antigo psiquiatra ERNST KRETSCHMER
demonstrou, estatisticamente, que a expressiva maioria de pacientes com
psicose maníaco-depressiva (PMD), atual Doença Bipolar, apresenta o
biótipo pícnico, isto é, pessoas com a face arredondada ou em forma de
pentágono, tórax atarracado, abdome globoso, etc. Tal visão nada tem de
comum com a Frenologia, como admitem alguns desavisados.
A visão do famoso psiquiatra português, BARAHONA FERNANDES, na década de
60, demonstra ainda o florescimento da visão de KRETSCHMER. Disse o
eminente prof. Catedrático em seu livro “Filosofia e Psiquiatria –
Experiência portuguesa e suas raízes”:
“No trabalho clínico quotidiano com os doentes mentais, as novas
perspectivas de Kretschmer vinham plenamente ao encontro da necessidade
pragmática de apreciar o ‘conjunto da constituição’ dos doentes e dos
indivíduos sãos e suas famílias, considerando correlativamente a sua
morfologia corporal, a doença mental de que sofriam e o tipo
caracterológico das suas personalidades.” (op. cit., Editora Atlântida,
Coimbra, 1966, p. 133).
Mais adiante, BARAHONA FERNANDES mostra a diferença entre o tipo físico e
temperamento (normal) de um pícnico (em SANCHO PANZA) e leptossômico (em
D. QUIXOTE), diz ele ilustrativamente com os personagens do livro “Don
Quixote de la Mancha”, de CERVANTES:
“Desde Cervantes - Sancho Pança de corpo atarracado, homem prático,
concreto, realista e conciliador, e D. Quixote, de formas alongadas, homem
sonhador, idealista e abstracto – até Shakespeare, citado na portada da
obra ‘princeps’ de Kretschmer na fala de César a Antonio, a propósito de
Cássio, homem magro e que pensa demasiado; César tinha-o por perigoso e
queria-o mais gordo.
As investigações de Kretschmer mostraram, além disso, haver correlações
estatísticas, válidas, entre o tipo corporal, o tipo caracterológico e a
própria doença dos indivíduos estudados e, ainda, com a constituição de
suas famílias.” (op. cit., p. 133).
Hoje, com o estudo mais sofisticado da era tecnológica, sabe-se que há
alterações bioquímicas nos receptores das células cerebrais (neurônios),
especialmente de uma substância denominada serotonina, que explicaria os
sintomas da Doença Bipolar.
E seus sintomas?
IJT – Os sintomas da Doença Bipolar dependem da fase da doença (fase
maníaca ou fase depressiva).
Se o paciente estiver em MANIA, os três sintomas fundamentais são: 1-
euforia, isto é, há hipertimia, o ânimo do paciente está exaltado de forma
quase permanente, exibindo uma alegria excessiva; 2- excitação
psicomotora, ou seja, o paciente mostra-se extremamente inquieto – não
conclui as tarefas rotineiras, chegando a importunar as pessoas devido à
intensa inquietude; 3- aceleração do fluxo do pensamento, podendo atingir
ao que se denomina fuga-de-idéias. Assim, o paciente mostra-se tagarela,
podendo ficar rouco de tanto falar, havendo verdadeira verborragia.
Decorrente desses três sintomas básicos, o paciente costuma apresentar
insônia e perturba o sono dos familiares; idéias de grandeza, em função da
excitação e é freqüente o paciente realizar despesas supérfluas,
dilapidando o próprio patrimônio, às vezes com prodigalidade, inclusive
assinar cheques sem provisão de fundos, com conseqüências médico-legais,
psiquiátrico-forenses.
Quando cessa a fase maníaca, o indivíduo volta à normalidade completa
(“intervalo lúcido”), até apresentar nova fase (maníaca ou depressiva).
Na fase DEPRESSIVA o paciente, também, apresenta três sintomas
fundamentais que, por assim dizer, são opostos aos da Mania. São eles: 1-
tristeza vital, isto é, uma tristeza que não decorre de acontecimentos
desagradáveis. É uma tristeza que brota do corpo, daí o paciente não ter
explicação para o seu estado-de-ânimo, pois não se trata de uma tristeza
psíquica; 2- inibição psicomotora, na qual o paciente fala e gesticula de
forma lenta, vagarosamente e permanece a maior parte do tempo deitado; 3-
inibição do fluxo do pensamento, havendo, aqui, uma lentidão dos processos
psíquicos. O paciente fala muito pouco e de forma bem vagarosa,
apresentando o chamado bradipsiquismo.
Decorrente desses três sintomas básicos, o paciente deprimido costuma
apresentar idéias de suicídio, que muitas vezes não se consumam devido à
falta de ânimo e à inibição psicomotora; insônia ou hipersonia; anedonia,
isto é, falta total de prazer por quase tudo, prazeres estes que outrora
eram cultivados; anorexia, na qual o paciente não só perde o apetite, como
se recusa a se alimentar; podendo levar a complicações orgânicas, se não
houver tratamento imediato; o paciente pode chegar a apresentar idéias
“delirantes” de ruína, de culpa, de pecado. O deprimido sente-se como se
estivesse “carregando o mundo nas costas”, como disse um nosso paciente.
Como tratar a doença bipolar?
IJT – No tratamento farmacológico da Doença Bipolar utiliza-se para a
fase depressiva os medicamentos designados antidepressivos, sendo
atualmente mais usados os inibidores seletivos da recaptação da serotonina
(Fluoxetina, Paroxetina, Sertralina, etc.). Os antigos antidepressivos
(Imipramina, Clomipramina, Amitriptilina, etc.) ainda são usados com muito
sucesso e sua vantagem é o menor preço.
A aplicação da electroconvulsoterapia (ECT) é reservada para os casos
gravíssimos de depressão, com risco iminente de suicídio, com ótimos
resultados.
Na fase maníaca utiliza-se medicamentos chamados neurolépticos (típicos e
atípicos), como Haloperidol, Cloropromazina, Risperidona, Olanzapina, etc.
Tanto na Mania quanto na Depressão está indicado o Carbonato de Lítio,
como preventivo das crises. Há colegas que utilizam o Lítio não só como
preventivo, mas, também, para debelar a fase maníaca...
E como tratar os pacientes?
IJT – Na fase depressiva, além de ser essencial o tratamento
biológico, deve-se utilizar a psicoterapia, portanto, isso deve ser
realizado por profissional médico, por um psiquiatra, porque outro
profissional não pode prescrever medicamentos psicotrópicos, por força da
lei. Não obstante, nada impede que se forme uma equipe multiprofissional,
com a participação de enfermeiro, psicólogo, assistente social, além do
psiquiatra.
Se a inibição psicomotora não for muito intensa, o paciente pode ser
estimulado a realizar caminhadas, ou mesmo, está indicada a psicodança,
como preconizavam alguns psiquiatras em meados do século 20.
Na fase maníaca, além dos medicamentos, se a excitação não for muito
intensa (hipomania), também, cabe a psicoterapia por profissional médico,
evitando-se muitos estímulos dirigidos ao paciente, porque o excesso de
estímulos ambientais poderia aumentar a excitação, levando ao furor
maníaco.
Em todos os casos (maníacos e depressivos) moderados, julgamos útil a
aplicação de passes como conduta complementar ao tratamento, se não for
contra o credo do paciente ou da família.
Como lidar com uma crise?
IJT – Tanto na fase maníaca, quanto na depressiva é recomendável a
internação do paciente em hospital psiquiátrico ou unidade psiquiátrica de
hospital geral, se houver na localidade, porque há risco para si próprio
na Depressão e risco para si mesmo e para outrem na Mania.
Em casos moderados de Depressão a família deve admitir que se trata de
doença, pois muitas vezes o paciente é visto como “preguiçoso”,
“vagabundo”, etc., porque não consegue realizar as tarefas quotidianas,
devido à falta de ânimo. Nos casos de hipomania deve-se evitar, sempre,
discutir com o paciente, para não excitá-lo cada vez mais, no entanto, é
preciso precaução quanto aos gastos excessivos, que deverão ser sempre
monitorados e impedidos pelos familiares. Em casos em que haja
impossibilidade completa para este controle, está indicada a interdição
legal, situação esta que deve ser evitada quando possível, pois o paciente
perderá direitos civis.
Em qualquer dos casos, o paciente precisa de ajuda, mesmo na hipomania, na
qual ele se sente feliz; mas, aqui, trata-se de uma felicidade fictícia,
posto que vivemos momentos de felicidade e não numa alegria perene,
extravagante, como ocorre nos quadros maníacos.
É possível prever essas crises?
IJT – Não. Por isso mesmo é importante a manutenção do paciente sob
acompanhamento médico, com medicação preventiva (Carbonato de Lítio), que
aliás, previne um pouco mais de 50% dos casos, especialmente os quadros
maníacos.
Quanto maior o número de fases (“crises”) e quanto menor o chamado
“intervalo lúcido”, pior é o prognóstico, isto é, maior é a probabilidade
de recidiva, de nova “crise”; e quanto maior o número de casos congêneres
na família e se o biótipo do paciente for pícnico, também o prognóstico é
pior.
Como evolui a doença?
IJT – A doença evolui por fases de Mania ou Depressão, e no período
interfásico o paciente volta ao estado de normalidade, ou seja, após cada
fase há restitutio ad integrum - o indivíduo restabelece-se integralmente,
até que ocorra uma nova fase. Diferentemente das Esquizofrenias, a Doença
Bipolar não deixa seqüelas na personalidade, embora alguns autores
discordem desta afirmação. O problema principal da doença é que ela é
cíclica, com recidivas freqüentes e, por isso, pode haver uma devastação
paulatina da vida sócio-familiar, profissional, etc., embora os recursos
terapêuticos atuais consigam um relativo sucesso.
Existe alguma relação entre doença bipolar e obsessão?
IJT – A nosso ver, qualquer doença mental predispõe a pessoa à
obsessão, mas a obsessão não é causa primária de Doença Bipolar. Os
achados científicos até o momento demonstram que a Doença Bipolar é
essencialmente material, física, orgânico-cerebral, embora com
manifestações psíquicas.
Um paciente está sendo tratado pelo seu médico e dirige-se a uma
associação espírita onde lhe é dito para parar imediatamente com a
medicação. O que ele deve de fazer?
IJT – O paciente deve procurar outra associação espírita, porque não há
seriedade nas pessoas que recomendam suspender uma prescrição médica, sem
que sejam médicas. Mesmo que o fossem, haveria aí infração dos princípios
deontológicos, que devem nortear a ação de qualquer médico, espírita ou
não. Se o paciente se sentir prejudicado pela conduta de uma determinada
associação dita espírita e se puder provar a ação do eventual trabalhador
da associação, o código penal prevê o curandeirismo como crime em alguns
países, no Brasil, por exemplo, e uma ação na Justiça estaria justificada.
O que poderá acontecer se o paciente fizesse o que lhe tinha sido
recomendado na associação espírita?
IJT – A suspensão brusca de determinados medicamentos psicotrópicos pode
provocar a ação invertida (“rebound”) – o fenômeno chamado “rebote”, isto
é, pode haver um quadro mental grave, de conseqüências terríveis,
inclusive a morte física.
O ideal no tratamento dos transtornos mentais, quaisquer que sejam, é
aliar o tratamento medicamentoso ao apoio espiritual, inclusive, a
desobsessão, se obsessão existir...
Será razoável a um espírita que não é médico, por melhor das intenções
que tenha, dar palpites sobre assuntos médicos?
IJT – Diz o povo, aqui no Brasil, que “de médico, poeta e louco, todos nós
temos um pouco”. As pessoas não-médicas, acreditam poder dar palpites em
assuntos médicos especializados devido ao pensamento mágico, daí o perigo
do surgimento de “aprendizes de feiticeiros”, para os quais , no Brasil, a
lei prevê punição, estabelecida no Código Penal Brasileiro.
Todos nós podemos ajudar o nosso semelhante com uma palavra de carinho,
reconfortante espiritualmente, mas não se deve avançar em assuntos, que se
desconhece, por mais estudiosos que sejamos e por melhor das intenções que
tivermos.
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Belvedere Bruno, Carlos de Brito Imbassahy, Luís
de Almeida e Iso Jorge Teixeira |
O que uma associação espírita pode oferecer a pessoas nesse estado
maníaco-depressivo?
IJT – Uma associação espírita pode oferecer àqueles pacientes que admitem
o Espiritismo, que assista a palestras em que se estude a Doutrina dos
Espíritos, se o paciente não estiver em fase aguda da doença.
Os passes magnéticos também são muito úteis, especialmente para o influxo
de energias reconfortantes, contudo, os passes são complementares ao
tratamento médico-psiquiátrico.
A desobsessão também deve ser feita, quando ficar comprovado haver a
atuação de obsessor(es). Mas, que seja um trabalho realmente científico e
não comportamentos plenos de misticismo, como é comum ocorrer em
determinadas associações espíritas aqui no Brasil e alhures. Como
dissemos, uma pessoa com transtorno mental está predisposta à ação dos
obsessores; neste caso, a obsessão não seria “causa” de Doença Bipolar e
sim oportunismo dos obsessores, embora seja importante lembrar que para
que haja obsessão é necessário ocorrer sintonia entre Espíritos...
Que proposta a doutrina espírita apresenta para a doença bipolar?
IJT – Salvo engano, não há nenhuma referência específica à Doença Bipolar,
mesmo com outra denominação, na Doutrina dos Espíritos.
A Espiritualidade Maior faz referências genéricas à “loucura”, afirmando
que no suicídio por loucura, “o louco não sabe o que faz”, isto é, na
loucura a pessoa perde o controle do livre-arbítrio e é o que acontece,
tanto na depressão quanto na mania e as leis terrenas prevêem este
aspecto, tanto do ponto de vista cível quanto penal. Assim, não há
responsabilidade nem imputabilidade no ato de uma pessoa com Doença
Bipolar em “crise” e a Lei Divina também é Misericordiosa nestes casos,
onde existem atenuantes para o suicídio consumado.
Como médico psiquiatra, como analisar os pacientes com transtornos
Maníaco-Depressivos: de um ponto de vista meramente médico ou
médico-espírita?
IJT – Os transtornos maníaco-depressivos analisados do ponto de vista
puramente médico-psiquiátrico, isto é, biológico, sem os subsídios do
princípio espiritual, revela-nos uma doença que altera o funcionamento das
aminas cerebrais na transmissão do impulso nervoso das células cerebrais
(neurônios). Assim, a substância serotonina (uma amina cerebral) estaria
funcionalmente em menor atividade nas sinapses (local de conexão dos
neurônios).
Do ponto de vista, meramente psicológico, a depressão seria uma perda da
libido objetal, com a conseqüente regressão a fases do desenvolvimento
infantil, onde os objetos maus são introjetados levando à perda da
auto-estima. A mania seria um mecanismo de defesa contra a depressão,
seria o “sorrir para não chorar”, assim é vista pelos psicanalistas, mas
na realidade há uma alegria verdadeira na Mania... O maníaco não transmite
uma falsa alegria, que nos faça pensar em um disfarce para encobrir a
depressão ...
Do ponto de vista psicológico-existencial haveria uma alteração
fundamental da vivência do tempo – na depressão seria uma “atrofia no
porvir” e na mania, existe uma “atomização do tempo vivido”.
Do ponto de vista médico-espírita a Doença Bipolar – como todas as doenças
mentais de caráter essencialmente genético-constitucional – é um
compromisso reencarnatório de reajuste; não haveria propriamente a
evolução do Espírito, nem involução (que nunca ocorre), e sim, estagnação,
semelhantemente ao que ocorre nos casos de retardamento mental.
Como distingue em seus pacientes se têm problemas neuropsicológicos ou
de foro espiritual ou ambos?
IJT – Os problemas neuropsicológicos conduzem a uma sintomatologia e
evolução típicas, revelando muitas vezes disfunções do Sistema Nervoso
Central (SNC), que podem ser detectados através de exames especializados,
denotando a organicidade deles. Quando se trata de um problema somente
espiritual, o que é raro, além de não haver tipicidade dos sintomas
conhecidos das doenças, não há lesões nem disfunções cerebrais e a
história dos “problemas” são muito úteis em cada caso, pois a vida
espiritual de um indivíduo é personalíssima.
Se o problema afectar tanto o orgânico quanto o espiritual – o que é
freqüente para aquele que, como nós, analisa o homem como um todo
biopsicossocial e ESPIRITUAL -, iremos observar a história da doença e a
biografia do indivíduo , incluindo sua vida espiritual, naquilo que ele
tem de projeto-de-vida.
Enfim, enquanto a Psicanálise está preocupada em buscar o passado do
indivíduo, interessa-nos como psiquiatra-espírita a prospecção, os
projetos, o futuro da pessoa. Há um adágio que diz: “o futuro a DEUS
pertence”. Não é bem assim. Ele é parcialmente verdadeiro, porque não
podemos prever o que acontecerá no futuro, mas os projetos de uma pessoa
darão o sentido de vida dele; por exemplo, dirão o que um indivíduo tem
realizado do ponto de vista espiritual, tanto no Bem quanto no Mal, sem
maniqueísmos, é claro!
Como conduz esses casos?
IJT – Procuramos conduzir os casos sempre aliando o nosso conhecimento de
Psiquiatria ao legado kardequiano e literatura congênere, séria. Temos
alguns casos em que tratamos medicamentosamente pessoas, que se sentiam à
vontade para falar de suas mazelas espirituais e a quem recomendamos
freqüentarem Centros Espíritas sérios e lá, assistindo palestras,
recebendo passes e, eventualmente, sendo aplicado o eventual processo de
desobsessão, aconteceram resultados surpreendentes para aqueles que não
admitem o princípio espiritual ou que negam a materialidade de
determinadas doenças; estes confundem “materialidade das doenças” com
“materialismo”, que é muito diferente...
Aconselha seus pacientes a frequentar uma associação espírita idónea,
quando necessitam?
IJT – Sim, é isso que fazemos quando o paciente e a família admitem o
credo espírita. Quando não acreditam, respeitamos a crença deles, mas
mesmo assim não deixamos de abordar os aspectos espirituais envolvidos na
vida do paciente e da família, genericamente, apontando sempre,
oportunamente, a realidade da vida espiritual depois da morte, o porquê de
estarmos encarnados, a imortalidade da alma e a importância da prática do
Bem
Vivenciar a mensagem de Jesus será a “vacina” para a doença bipolar?
IJT – Até certo ponto, sim, porque o mestre JESUS em sua encarnação na
Terra deixou-nos um admirável exemplo de condução de vida, com a prática
do Bem e da caridade bem compreendida, sem concessões aos Espíritos
maléficos. Mas, não basta repetir, como ele mesmo disse, “ Senhor!
Senhor!” para alcançar o “Reino dos Céus”. É preciso VIVENCIAR a mensagem
de JESUS, o que é muito difícil para nós, encarnados, inferiores.
Conhecemos algumas pessoas, que têm o nome de JESUS nos lábios,
especialmente, quando fazem uma “prece”, porém, a vida quotidiana delas é
totalmente contrária à exemplificação do mestre JESUS.
Vivenciar a mensagem de JESUS não é ser hipócrita, querer mostrar-se
“bonzinho” com o inimigo, nem “oferecer a outra face”, quando somos
ofendidos duramente. JESUS condena a “vingança” (cf. KARDEC anota no item
8, capítulo 12 de “O Evangelho segundo o Espiritismo”), e não a legítima
defesa. O próprio mestre JESUS quando foi ofendido não se comportou como
um “meigo nazareno”. A esse respeito, costumamos sempre lembrar do
comportamento de JESUS, quando foi esbofeteado por um guarda de ANÁS, que
não era o Sumo Sacerdote, e sim parente dele (CAIFÁS). JESUS foi firme,
não revidou o bofetão, mas reagiu à altura...
JESUS foi preso e conduzido à presença de ANÁS, que era sogro do Sumo
Sacerdote, CAIFÁS. Ao ser interrogado por ANÁS, respondeu:
“Falei abertamente ao mundo. Sempre ensinei na Sinagoga e no Templo, onde
se reúnem todos os judeus; nada falei às escondidas. Por que me
interrogas? Pergunta aos que ouviram o que lhe falei; eles sabem o que eu
disse.(...)” (João 18, 20-21).
Assim, JESUS mostrou-se firme ante o sogro do Sumo Sacerdote, que a rigor,
não tinha autoridade para interrogá-lo. Mas, prossigamos no texto
evangélico:
“(...) A essas palavras, um dos guardas, que ali se achavam, deu uma
bofetada em Jesus, dizendo: ‘Assim respondes ao Sumo Sacerdote? Respondeu
Jesus:
‘Se falei mal, testemunha sobre o mal; mas, se falei bem, por que me
bates?’ Anás, então, o enviou manietado a Caifás, o Sumo Sacerdote.” (João
18, 22-23).
Aí está: esbofeteado, JESUS reagiu à altura, de maneira enérgica,
demonstrando o duplo erro de ANÁS, que além de não ter autoridade para
inquiri-lo, não devia puni-lo com uma bofetada, sem julgamento prévio...
Ou seja, não houve “vingança” do mestre JESUS, mas ele não deixou de
defender-se contra ao que era injusto.
É este o JESUS que procuramos seguir e não o “meigo nazareno” de muitos
“espíritas”, cheios de pieguices. Quando a humanidade chegar no nível
atingido por JESUS temos certeza de que não só a Doença Bipolar
desaparecerá, como também as doenças mentais, em geral; mas isto ainda vai
demorar muito, pois a humanidade está muita atrasada do ponto de vista
espiritual.
Que mensagem deixaria a mais de 1 milhão de portugueses portadores
doença bipolar, também designada por doença maníaco-depressiva?
IJT – Em primeiro lugar quero agradecer a todos os trabalhadores do JORNAL
DE ESPIRITISMO pela oportunidade que nos tem dado para esclarecer e
consolar o leitor em nossa coluna SAÚDE e, agora, com essa ENTREVISTA,
esperamos ter contribuído não só para o esclarecimento, como também
trouxemos alguns tópicos da Filosofia Espírita, que, inegavelmente, é
consoladora por excelência.
Nossa mensagem não só aos portugueses, mas também aos leitores da Europa,
em geral, que são afectados pela Doença Bipolar ou Psicose
Maníaco-Depressiva é, em primeiro lugar, que não se desespere, procure um
médico, psiquiatra, de preferência espírita, para que alcance uma
qualidade de vida melhor, especialmente nas inter-relações familiares e
não deixe de seguir as prescrições do seu médico. Sabemos que este
conselho a um maníaco não teria muito sentido, pois ele não tem noção do
próprio estado mórbido, isto é, não se julga doente, mas o conselho serve
para os seus familiares, também.
Procure fazer reflexões constantes sobre o sentido de sua vida e seus
projetos existenciais, quando atingir o “período lúcido”, ou seja, na
interfase da doença.
Se o Sr. ou Sra. aceita os princípios espíritas, codificados por ALLAN
KARDEC, procure estudar e vivenciar a Doutrina dos Espíritos, porque ela é
consoladora, pois responde a perguntas essenciais do Homem: por que aqui
estamos encarnados, para onde vamos? Além disso, a Doutrina dos Espíritos
não é a elucubração filosófica de KARDEC, ela foi ditada por Espíritos
Superiores a centenas de médiuns e ela pode ser comprovada por metodologia
própria da Ciência Espírita, por FATOS inquestionáveis.
Seja resignado, porque a vida corporal é um breve período ante a
imortalidade da alma. A doença de hoje, provavelmente, tem razões
pretéritas e ela pode representar a ação da Providência Divina para
futuras aquisições espirituais, imperecíveis.
Ao deprimido, sugiro que busque ajuda, quando pensar em suicídio, pois o
sofrimento depois da morte será muito maior se tal idéia se concretizar
(leia-se, por exemplo, a segunda parte do livro “O Céu e o Inferno – A
Justiça divina segundo o Espiritismo”, de ALLAN KARDEC, referente aos
suicidas).
Ao maníaco, que busque ajuda (mesmo que julgue não ser necessária) quando
perceber (ou sua família perceber) que está vivendo como se a vida não
tivesse obstáculos e que esteja excessivamente alegre, com o humor muito
elevado.
A vida é para ser vivida com obstáculos e com o mérito de ultrapassá-los,
é esta a razão principal da nossa encarnação – aprendizado para evolução e
darmos um ou mais passos na escada de JACÓ, com todo o simbolismo
representado por esta.
(1) Segundo o portal português DescobrirCiencia.NET
http://www.cienciapt.net
DEPOIMENTO DA DOENTE
Virgínia Pinto, tem 41
anos, é da cidade do Porto e é doente bipolar. Aluna do Curso Básico de
Espiritismo de uma associação espírita da referida cidade.
Quando descobriu que era doente bipolar?
Em 2001 foi diagnosticada a doença. Tive depressão pós-parto em 1991. E
aos 9 anos de idade tentei suicidar-me.
Para si, o que é ser doente bipolar?
É ter um rótulo. E por isso as outras pessoas reagem de forma diferente.
Que sintomas apresenta?
Alterações de humor. Tanto se está feliz como muito triste, muitas vezes
sem razao aparente. Quando se está feliz podem cometer-se excessos do
tipo gastar dinheiro sem pensar se se pode ou não. Quando se esta muito
triste é muito fácil pensar em suicídio. O pior é conseguir não o
concretizar.
Como lida com uma crise?
Depende. Na fase alta (gastar muito) é o meu irmão que controla as contas
e os cartões, nem que queira, não posso gastar. Na fase depressiva ou
durmo e deixo passar a má fase, apoio-me na família ou penso em coisas
boas e que aquilo é a doença, não sou eu.
Leva uma vida normal?
Sim, o mais normal possível.
Como teve contacto com o espiritismo?
Desde miúda ouvia falar. Tinha conhecimento que havia pessoas
"especiais".
O que a levou a um centro espírita?
Estar doente. No fundo recusava-me a aceitar o que me diziam os médicos.
Conclui o CBE sem faltas. Gostou? Teve interesse?
Gostei. Aprendi muito. E percebi que, para alem de preguiçosa, ainda me
falta muito para aprender.
Que retrospectiva faz antes e depois da conclusão do CBE?
Antes, andava um pouco perdida, em busca mas não sabia do quê. Depois,
aprendi que tudo depende da forma como penso, e não dos outros. As coisas
acontecem porque "eu quero" e para eu melhorar.
Vai continuar a estudar e a frequentar os outros 5 Cursos que a
associação lhe oferece gratuitamente?
Claro. Ainda estou na primária.
A doutrina espírita trouxe-lhe algo de útil para a sua vida?
Imenso. Para alem de respostas, abriu-me o horizonte.
Que expectativas aguarda relativamente ao espiritismo?
Muito trabalho. Ainda tenho muito que aprender.
Texto oferecido pelo autor,
que é membro da AME Porto,
e publicado no "Jornal
de
Espiritismo” de Portugal

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