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Entrevistas

Dora Incontri
COORDENADORA DO PRIMEIRO CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU
DE “PEDAGOGIA
ESPÍRITA” EFECTUADO NUMA UNIVERSIDADE
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Prof. Doutora Dora Incontri |
Dora Incontri é paulistana e jornalista de formação. Investigadora e
escritora, tem dedicado a sua vida ao ensino. Mestra, doutora e
pós-doutorada em Filosofia da Educação pela USP - Universidade de S. Paulo
–, é ainda fundadora da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e
directora da Editora Comenius na cidade de Bragança Paulista – S. Paulo,
onde, recebeu e concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal de
Espiritismo.
Como Prof. Doutora e coordenadora do primeiro curso de pós-graduação
lato sensu de “Pedagogia Espírita” jamais efectuado numa Universidade,
contando ainda, com um vasto corpo docente na Universidade Santa Cecília
da cidade de Santos, São Paulo, como vê este momento histórico?
Dora Incontri -
Foi uma luta imensa para chegarmos até aqui, mas considero realmente um
marco histórico este curso, pois pela primeira vez adentramos uma
instituição acadêmica pelas portas da frente, oferendo um curso, com
reconhecimento do Ministério da Educação. O espiritismo precisa sair dos
guetos fechados dos centros, para inserir-se na cultura contemporânea,
oferecendo a alternativa sólida de sua proposta. E a Universidade ainda é
o local privilegiado para isso!
O que é uma Pedagogia Espírita?
DI -
Costumo sempre começar por dizer o que a Pedagogia Espírita não é, antes
de dizer o que ela é. Não se trata de uma proposta de educação sectária,
doutrinante, que pretenda formatar a cabeça de quem quer que seja, numa
catequese espírita, à moda jesuítica do passado. O espiritismo em si mesmo
respeita a liberdade de consciência e não é proselitista, conforme
alertava Kardec. Trata-se, ao invés, primeiro, de um resgate pedagógico do
espiritismo – isto é, entendemos e praticamos melhor a doutrina espírita
se a entendemos e praticamos como proposta educacional que é. Segundo,
trata-se do impacto conceitual e metodológico que o espiritismo provoca na
ciência e na prática da educação. A partir do ponto de vista de que a
criança é um ser reencarnado, de que o ser humano é interexistente, como
dizia Herculano Pires, de que a meta da vida é um processo de educação
permanente com vistas à eternidade, muda-se nossa perspectiva do para quê
e como educar…
A quem se destina?
DI -
A Pedagogia Espírita se destina a qualquer pessoa. Não poderá haver uma
proposta de educação que seja exclusiva de um grupo, de uma classe… Não se
tratando de uma proposta sectária, podemos aplicá-la na relação com
qualquer ser humano. Apenas, o educador, este sim, precisa estar embebido
da cosmovisão espírita, porque é dela que derivam os princípios
fundamentais da Pedagogia Espírita.
E que princípios são estes?
DI -
Didaticamente, costumo enfeixá-los numa tríade: a liberdade, a ação e o
amor. A aprendizagem de fato, tanto intelectual quanto moral, só se dá num
processo de construção autônoma do indivíduo. Esteja ele criança,
adolescente, jovem, maduro, velho, encarnado ou desencarnado, o espírito é
sempre livre, dono de si mesmo, responsável pela sua própria evolução.
Outros poderão ajudá-lo, orientá-lo, influenciá-lo, estimulá-lo, mas ele
deverá tomar a si mesmo nas mãos e cumprir o que o Espírito da Verdade
recomendava: “tomai vossa dócil argila nas mãos”, ‘vós sois os artífices
da vossa imortalidade”. Essa liberdade que todos nós temos, outorgada pela
Divindade, nos é dada justamente para agirmos e na ação experimentarmos o
bem e o mal, para termos o mérito e a responsabilidade de nossos atos.
Assim, em todos os níveis de aprendizagem – seja aprendendo uma virtude
moral, uma fórmula de matemática, uma profissão, ou qualquer coisa que
contribua no aperfeiçoamento de nosso espírito, só aprendemos realmente na
prática e nunca apenas em teoria. Por isso, grandes pedagogos como
Comenius, Rousseau, Pestalozzi, pregavam a educação ativa.
Vemos, pois, que o grande desafio da educação e, portanto, do educador é
conquistar a vontade livre do educando para uma ação voluntária no bem…
Mas como despertar (sem impor) essa vontade? Aí entra o terceiro princípio
da Pedagogia Espírita: o amor. Só o amor toca a essência divina da alma,
acordando-a para o impulso evolutivo.
Como interpreta a relação Educador/Educando?
DI -
É justamente desta relação afetiva entre educador e educando que nasce o
processo pedagógico. Não é à toa que Jesus nos ensinou a chamar Deus de
Pai. Pai é quem ama e educa. A relação que o próprio Cristo estabeleceu
com a humanidade, sendo ele o Mestre dos mestres, é uma relação de amor,
de doação total, de entrega e de sacrifício. Apenas um amor farto e
profundo consegue mover as vontades anestesiadas, dormentes, para que elas
se engajem na lei da evolução. O educador não é, assim, aquele que exerce
um poder de coação, de imposição e modelação, mas o que renuncia a todos
os poderes, para apenas se doar, exemplificar e contagiar o educando. E
quanto menos impõe, menos poder quer, menos exercita o autoritarismo, mais
poder de fato possui – o poder da autoridade moral e de tocar o outro.
Como propõe a Educação Moral, Intelectual e Estética?
DI -
Sempre pela prática. Não se aprende a ter virtudes, ouvindo belos sermões.
Não se aprendem as disciplinas (como até hoje se faz na escola) olhando o
professor explicar na lousa. É preciso aprender fazendo. É por isso que
todo processo de educação deve ter espaço para a ação livre, em que o
educando produza coisas: pesquisas, debates, relatórios, observações,
teatros, textos, multimídias, filmes, obras de arte… seja o que for. Todo
aprendizado deve resultar numa produção. E toda produção deve ter um
elemento estético. Já dizia Platão da identidade ontológica entre o Bem e
o Belo. Deve-se habituar a criatura a buscar a perfeição, a beleza, a
harmonia em tudo.
E da Educação Mediúnica?
DI -
Bom, aí, eu já tenho de quebrar alguns tabus reinantes no movimento
espírita (pelo menos no brasileiro). Assim como para o desenvolvimento de
qualquer outra pontencialidade do ser, a prática e a liberdade são
essenciais e são completamente anti-pedagógicos os cursos apostilados, com
passos iniciáticos. Primeiro lugar, a pessoa não se torna médium, ela é
médium. Precisa aprender a controlar o fenônemo, a direcioná-lo para o bem
etc… A educação mediúnica é a aprendizagem teórica e prática de como se
conduzir uma mediunidade que já está à flor da pele. Por isso, é absurdo
fazer a pessoa esperar anos, fazendo cursinhos, para só depois poder se
exercitar. Nessa altura, a mediunidade já se embotou.
Outro tabu a ser quebrado no movimento espírita e não o faço em meu nome,
mas era Kardec que pensava e agia assim, é a questão das idades. As
grandes mediunidades começam cedo, geralmente na adolescência, às vezes
até na infância. Então, não se pode esperar que o adolescente e o jovem
façam anos de cursos, como muitos centros aqui propõem, para depois darem
vazão à sua mediunidade. Lembremo-nos que o Livro dos Espíritos foi ditado
através das duas meninas Boudin, uma de 14 outra de 16 anos. Nesse
sentido, conto minha própria experiência: aos 11, comecei a psicografar,
as 14 li sozinha, de cabo a rabo, O Livro dos Médiuns e aos 15, sentei-me
à mesa mediúnica e comecei a receber espíritos, sob a orientação do Prof.
Herculano Pires. O desenvolvimento pois tem de ser natural, sem
formalidades. É preciso estudar sim, e muito e sempre. Mas o estudo só faz
sentido com a prática. Senão, daqui a pouco, aliás já o querem alguns,
teremos um espiritismo sem espíritos.
Qual a importância da Família numa Educação Integral?
DI -
A família é essencial no processo da educação. Mas é preciso resgatar algo
perdido neste mundo do trabalho desgastante e escravizante do
néo-liberalismo global: a vida privada, a vida em família. As pessoas hoje
não têm mais tempo para estar com o outro. E o principal de uma educação
equilibrada é ter tempo para estar com os filhos, para conversar, brincar,
contar histórias, observar as tendências positivas e negativas dos
espíritos que vieram até nós…Educar dá trabalho: muito diálogo, muita
atenção, muitas noites sem dormir. Digo sempre que há dois extremos a
serem evitados na educação em família, que são aliás os mais comuns. O
primeiro é o do “faça o que eu mando senão vai ver o que te acontece” O
segundo é “faça o que quiser, contanto que não me aborreça”. O primeiro é
o modelo autoritário, o segundo é o do indiferentismo. Nenhum dos dois é
educação. A educação não é nem um condicionamento à obediência, nem um
laissez-faire. É orientar sem impor, doar sem exigir, mas estar presente o
tempo inteiro, com amor intenso e preocupação, mas sem sufocar…
E o papel das Escolas?
DI -
As escolas deveriam ser o local privilegiado do desenvolvimento integral
da criança. Mas para que isto de fato se desse, seria preciso uma
reformulação total do seu funcionamento. Já desde o ambiente – cadeiras e
quadros negros, sem verdes e coloridos – deveria ser substituído por algo
estimulante. Salas ambientes, entorno com natureza, computadores, salas de
teatro, música, laboratórios etc… Em seguida, o ensino fragmentado,
desinteressante, de conteúdos que os alunos não sabem de onde vieram, para
que servem e que sentido têm, deveria ser trocado por projetos
interdisciplinares, produções, aulas passeio – ou seja seria preciso
trazer mais vida à sala de aula. Deveríamos trabalhar a partir do
interesse das crianças e não impor-lhes programações insípidas, rígidas.
Em Portugal, há uma escola, que ainda não visitei, mas de que se fala
muito no Brasil – A Escola da Ponte, que me parece funciona um pouco desta
maneira.
E da Universidade?
DI -
Também a Universidade é um local que precisa de mais vida. Quando digo
vida, falo em liberdade de expressão, em participação, em ações concretas,
em conhecimentos práticos, em interação com a comunidade. Enfim, seja no
ensino das crianças, adolescentes ou jovens ou mesmo em qualquer
aprendizado de adultos, é preciso acabar com a maneira de ensinar apenas
por abstrações, sem ressonância com o interesse de quem aprende e sem
relação com a realidade.
Outra questão importante, no conceito de liberdade de pensamento, é que na
Universidade devemos questionar a hegemonia do pensamento materialista –
que não é necessariamente científico, pois o materialismo é um pressuposto
filosófico. Devemos abrir espaço, contra os preconceitos acadêmicos, para
a discussão de filosofias espiritualistas – como a espírita – e para a
pesquisa de fenômenos e fatos que demonstrem a evidência do espírito.
Como analisar a qualidade pedagógica de uma associação espírita?
DI -
Pelo grau de liberdade de expressão de seus participantes, pela
participação igualitária de todos, pela presença de projetos culturais e
educacionais, pela predominância da visão pedagógica em todas as
atividades. A assistência social, a parte mediúnica, a juventude, a
infância, os grupos de estudo – tudo deveria estar embebido da finalidade
máxima da doutrina espírita – que é a educação. E quando digo educação,
estou me referindo ao desenvolvimento das potencialidades do espírito, num
clima de amor e liberdade. Isso significa não criar hierarquias,
idolatrias, gurus de qualquer espécie, distância burocrática entre as
pessoas, mas nos relacionarmos de forma despojada, amistosa e fraterna…
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Dora Incontri e Luís de Almeida |
Sabendo que a Educação é o mais poderoso agente do progresso da
Humanidade, como vê o actual ensino espírita propalado em nossas
associações?
DI -
Ainda muito defasado, porque em geral segue métodos tradicionais. A
Pedagogia Espírita com seus princípios e aplicações deveria em primeiro
lugar ser aplicada nos próprios centros espíritas.
Quer comentar esta sua frase; Espiritismo como Educação?
DI -
É o que disse no início, o Espiritismo é uma proposta pedagógica. Enquanto
outras doutrinas, por exemplo, as do cristianismo tradicional, apontam
para uma idéia salvacionista, dentro da concepção de que o ser humano é um
ser corrompido pelo pecado original e precisa ser salvo, o espiritismo nos
desvenda o ser humano como um ser em aperfeiçoamento. E o projeto de sua
evolução está em suas próprias mãos.
E esta outra, tão propalada por si, que deu origem a um dos seus
livros; A Educação Segundo o Espiritismo?
DI -
Aí sim, trata-se da aplicação dos postulados espíritas ao campo da
educação, extraindo todas as conseqüências pedagógicas da nova visão que o
espiritismo nos dá do mundo, da realidade, de nós mesmos.
O que a levou a realizar e organizar, recentemente, o I Congresso
Brasileiro de Pedagogia Espírita?
DI -
A idéia nasceu da necessidade de se iniciar e organizar um movimento pela
Pedagogia Espírita a nível nacional. Este objetivo foi alcançado, pois
participaram mais de mil pessoas, do Brasil todo, em seguida fundamos a
Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e estão surgindo diversos
grupos e associações em diferentes regiões do país.
Que mensagem gostaria de deixar ao leitor?
DI -
Que estude o espiritismo que Kardec e compreenda a proposta vanguardista
de sua proposta. Não se trata de apenas uma religião a mais, mas de um
novo paradigma de conhecimento, uma nova educação, uma alternativa de
realizarmos finalmente o projeto cristão de instalação do Reino na terra…
Texto oferecido pelo autor,
que é membro da AME Porto,
e publicado no "Jornal
de
Espiritismo” de Portugal
Nota:
A Prof. Dra. Dora Incontri cedeu-nos a sua tese de pós-doutoramento
«Pedagogia Espírita - Um Projecto Brasileiro e Suas
Raízes».

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