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Mário Moreira e Américo Castanheira

DEPOIMENTOS INÉDITOS DE DOIS GIGANTES DO MOVIMENTO ESPÍRITA PORTUGUÊS

(da 2º geração, após António Joaquim Freire e companheiros... até aos dias de hoje)

 

Mário Moreira

Mário Moreira.

 

 

 

 

 

Mário Moreira e Américo Castanheira, com 66 anos de idade, fundadores da primeira associação espirita portuguesa devidamente regulamentada, conta ao JE como tudo se processou; antes, durante e depois da "revolução dos cravos".
Actualmente dirigem o frutuoso Centro Espírita Caminheiros da Luz, sitiado na Rua Pedro Hispano, 968, 4200 - Porto, desde 31 de Maio de 1987 - data de sua fundação.

 

 

Américo Castanheira

Américo Castanheira.

Jornal Espírita - Como tudo começou?
Mário Moreira - As pessoas vieram parar ao espiritismo naquela época pelo sofrimento. A minha mulher veio pelo sofrimento, e eu por tabela vim com ela. Graças a Deus que foi bom. Se não fosse pela minha mulher era capaz de não ter tido a graça e a felicidade de viver o espiritismo. E ver aquilo em que minha mulher estava sequiosa, sedenta de algo que pudesse de facto a sustentar. E foi através dela que conseguimos elaborar e melhorar toda a nossa estrutura familiar e comportamental até aos dias de hoje. E a vida continuou a florescer até hoje...
Américo Castanheira - A mediunidade, pela forma dolorosa que foi no seu inicio, levou um grupo composto por sete elementos, em que eu próprio era o sétimo, a procurarmo-nos libertar do sofrimento e da dor devido ao nosso desequilibro. Laurentino Simões, um trabalhador da primeira linha, desencarnado, acerca de duas décadas, era o esteio, o elemento fulcral do grupo. Mário Moreira e sua companheira de jornada Bernardina Moreira, Albuquerque Rocha, Avelino Cardoso, Fernanda Barbosa e eu.
Inicialmente, no tempo do Estado Novo, não havia qualquer liberdade religiosa. Essa dita liberdade era somente para o catolicismo. Os espíritas não tinha qualquer possibilidade de se reunir livremente nem publicamente. Essa condicionante, impostas pelo estado ditatorial, levou-nos a juntar no campo, na mata, nos montes, em qualquer outra parte, a coberto da visão, das autoridades policiais de então. E foi assim a pouco e pouco - no tempo da Liberdade do "25 de Abril de 1974" - que esse pequeno grupo, viria a fundar o primeiro Centro Espírita da cidade do Porto - Núcleo Espírita Cristão
 

JE - Onde se reuniam?

Laurentino Simões

Laurentino Simões, um trabalhador da primeira linha, junto ao túmulo de Allan Kardec em Paris.

AC - Reuníamos nos montes, tendo uma recordação e um aprendizado para nós extraordinário, bem como para vocês, leitores e jovens, pois é História. Nesse tempo, quer chovesse quer nevasse, quer fizesse tempestade ou não, nós nos reuníamos sempre da mesma forma. Por vezes o clima era muito agreste e com muita chuva, e não havia os meios tecnológicos ao dispor como hoje os há. Os automóveis e meios de transporte eram muito escassos. Desta forma o grupo foi crescendo, mas esses sete elementos continuavam fieis ao compromisso assumido, sendo elementos preponderantes, na agregação, formação e contribuição - no que actualmente vocês, jovens directores, encontram e participam na enorme dinâmica do movimento espirita português. Ao contrario dos restantes novos elementos que ficaram somente pela assistência. Com o tempo os automóveis já eram mais e continuávamos reunidos em vários "centros" improvisados a "céu aberto" - nos montes. Reparem, os palestrantes, quando o tempo estava muito mau, particularmente no Inverno, já que hoje essa estação do ano não é tão rigorosa como outrora, como sabem, ficavam no carro do meio sentados. Os restantes elementos paralelamente a esse, abriam as portas dos carros e janelas, sentados dentro de suas viaturas e escutavam-no.
 

JE- Como estudavam?
AC - Nesse tempo quando andávamos pelos montes não conhecíamos sequer as obras de Kardec. Uma das vezes no monte, durante a nossa reunião, Bernardina Moreira, teve uma manifestação, e nessa comunicação, um espírito amigo advertiu-nos para estudar-mos as obras de Allan Kardec e de André Luiz. Obras essas desconhecidas por todos nós. O Espiritismo tendo uma das mais vastas literaturas de que se conhece até então, ficamos a conhecer essa realidade. Nesses tempos estudávamos versículo a versículo do novo testamento de uma bíblia protestante ou católica. Tínhamos a noção que foi o fenómeno que nos fez despertar.
"O Evangelho Segundo o Espiritismo" foi a primeira obra que nós tivemos e começamos a estudar. O ESE, LE, LM, começamos a estudar, pois estavam na Biblioteca Municipal do Porto. Tinha um amigo que lá trabalhava que me emprestou todos os livros de Kardec. A partir daqui todos estudávamos esses livros já amarelados com o tempo e em português antigo. Depois começou a surgir alguns provenientes do Brasil e assim começamos...
 

JE - Quais foram as maiores dificuldades?
AC - As dificuldades que tivemos outrora, era a perseguição total por parte das entidades policiais. Existe uma historia bastante interessante que reporta a esse período.
Nos anos 60/70, o grupo reunia semanalmente, todas as terças-feiras, ás 21h30, em casa do casal Moreira que abria as portas a toda a gente. Muitas vezes a policia rondava a casa mas nunca teve qualquer intervenção. A própria vizinhança, quer dos andares superiores e laterais, nunca se pronunciou, pois bastava um telefonema para a PIDE - policia política do estado, ou a GNR - Guarda Nacional Republicana, e todo o mundo ficaria sem jeito.
Um certo Domingo, num belo pinhal, nos arredores da cidade do Porto, estava toda a gente em prece, lembrando o tempo de Jesus, e a GNR conhecedora de alguns dos nosso hábitos, apesar de tentarmos despistar, foi ter connosco. Laurentino Simões e Mário Moreira apercebem-se e de imediato os agentes perguntam naquele tom duro e intimidatório "O que os senhores andam a fazer?" e Laurentino, responde de forma simples "Estamos a orar, como Jesus o fazia no seu tempo. Os senhores querem ter a bondade de participar? Estejam à vontade." Responderam os agentes, face a um convite cheio de bondade e paz, "Não, não... de maneira nenhuma!!! Só viemos ver o que os senhores andam a fazer, sempre, por estas bandas. Bom dia e passem muito bem." desta forma, lá foram os agentes à sua vida, e nós, sempre vigiados de perto pelos agentes de autoridade. (risadas...!)
 

JE - Como nasceu a ideia de fundar uma associação espirita?
AC - Essa persistência continuou até que chegou o dia da Liberdade do povo português, - o 25 de Abril de 1974. Tudo naturalmente se modificou. Esse grupo de sete elementos reuniu-se depois do 25 de Abril, na Travessa da Fontinha, nº 35, Porto, onde funcionava então a "Cruzada de Bem-fazer por Amor" - instituição caritativa fundada pelo Juiz Quintela que se destinava ao auxilio dos mais carenciados em particular aqueles que o estado português não ligava nenhuma. Todavia não íamos tratar de assuntos propriamente espiritas, mas mais dos propósitos dessa instituição. A determina altura, em 1974, apareceu aqui um brasileiro, o engº Gasparetto, que veio fazer um estagio ao Porto no "Monteiro & Ribas" - grande empresa de curtumes portuguesa -, pois tinha e tem uma fabrica de curtumes em S. Paulo. Como veio passar uma larga temporada na Invicta, procurou indagar sobre o movimento espirita em Portugal, em especial aqui no Porto. Foi lhe indicado a casa particular do Laurentino Simões. A 3 de Outubro de 1974, aparece-nos pela primeira vez na "Cruzada Bem-fazer por Amor" na companhia do confrade Laurentino. Nesse celebre dia e reunião, através da mediunidade que Gasparetto tinha, nos entusiasmou a fundar o primeiro Centro Espirita da cidade do Porto. Nessa reunião, deu-nos a indicação das entidades espirituais, também presentes, e que já estava preparada uma equipe no plano espiritual para nos incentivar à pratica do espiritismo publicamente. Continuamos nos reunindo, mas já com a ideia fixa da formação dessa associação espirita. Contudo não foi unanimemente aceite pelo grupo de sete elementos, havendo um ou outro que não concordava. Assim em 31 de Março de 1975 abre a publico pela primeira vez na Rua do Almada, Nº 30, Porto (se a memória não me falha) o primeiro centro espirita. Ainda não devidamente legalizado, porque algumas das pessoas não tinham interesse que fosse legalizado. Assim eu e o Mário Moreira demos o primeiro passo no sentido de sua legalização. O facto é que o Centro Espirita legalizou-se e funcionou até 1979.
 

JE - Como a associação evoluiu, face à enorme procura dos portuenses?
AC - A 29 de Setembrode 1979, nessa altura já com dois pisos alugados, era insuficiente para o publico. Vimo-nos na necessidade de arranjarmos umas instalações mais amplas, que aconteceu exactamente com o NEC - Núcleo Espirita Cristão, onde ainda hoje funciona, sitiado na Rua Santa Catarina. Foi-nos indicado e fomo-lo visitar à meia-noite, ainda não tinha instalação eléctrica, mas à base de fósforos lá fomos apreciando o seu espaço. Encontramos exactamente aquilo que satisfazia nossos desejos. O grupo manteve-se mais ou menos unido, e após algumas divergências, levou à divisão desse grupo inicial de sete elementos. Eu o Mário Moreira, sua esposa Bernardina Moreira e Fernanda Barbosa, formamos então um outro grupo, ficando um outro elemento separado. Isso levou-nos a sair do NEC, e a fundar o Centro Espirita Caminheiros da Luz, onde estamos agora. Foram setenta dias exactos, que levou, entre a nossa saída e a abertura deste novo espaço da cultura espirita. Conseguimos arranjar esta casa, onde tem vindo a sofrer alterações para melhorarmos ainda mais, como é natural. Aqui continuamos como podem ver.
 

"Actualmente, a Doutrina Espirita tem uma implantação muitíssimo grande a nível do País, mas mormente da cidade do Porto. É um facto inegável. Afirmo mesmo, plagiando Divaldo Pereira Franco, »O Porto é a capital do Espiritismo»".
 

Esta casa foi inaugurada a 31 de Maio de 1987, estando presente um confrade brasileiro, Adelino da Silveira, de S. Paulo. Esta casa não era nossa propriedade, todavia era de um confrade nosso que a comprou, pois era muito abastado financeiramente. Em que nós depois liquidamos. Actualmente o prédio é propriedade do CECL.
 

JE - Quais as dificuldades que tiveram para organizar e fundar a nova Federação Espírita Portuguesa?
AC - A Federação Espirita Portuguesa, tinha sido proibida de funcionar no tempo do Estado Novo. Foi o então Secretario de estado da educação nacional, pai do actual, prof. Marcelo Rebelo de Sousa, ex-presidente do Partido Social Democrata - PSD, que mandou fechar todas as associações espiritas, existentes de então. Durante esse tempo e até 1975/76, havendo também umas querelas entre os dirigentes da Doutrina Espírita. Surge a questão "sobre a continuidade da Federação anterior, ou dar continuidade a uma nova Federação?" As divergências estavam em pauta, mas ao analisar a situação como tal deve de ser, acredito que a Federação antiga por ter sido desmembrada, devido a um decreto do Estado Novo e estando largos anos sem actuar, não havia condições para haver continuidade. Contudo o governo pós 25 de Abril, também não teve qualquer interesse em resolver esta situação, já que tinham sido confiscados todos os bens da FEP, e que não eram poucos, inclusivemente alguns prédios quer em Lisboa quer no Porto, aqui na Rua Alvares Cabral, bem como a própria sede da Federação, onde hoje funciona o "Teatro Laura Alves". Esses não os queriam devolver. Foi um período de enorme confusão na jovem Democracia portuguesa. Pois os jovens governos sucessivos recusavam-se a devolver, como ainda hoje acontece. Foi necessário fundar uma nova federação, já que também as associações de outora se tinham dissolvido, e surgiram outras novas. Nós próprios também fomos fundadores da nova Federação, como "Secretario" do novo Conselho Directivo, (nós, naquela altura do NEC), bem como uma outra associação, Centro Espirita Perdão e Caridade de Lisboa, que foi assinada em cartório a escritura da sua constituição, na capital. Onde foi nomeada a nova presidente, Maria Raquel Duarte Santos, casada com o também espirita, Comandante Isidoro Duarte Santos, já falecido. Apesar da idade avançada, ainda está encarnada.
 

JE - Quais as dificuldades que encontraram, como Federação, em desalojar os espíritas dos seus hábitos enraizados, fruto da ditadura?
AC - Obviamente que no governo salazarista os espiritas de então, como nós próprios também, nos juntávamos em casas particulares, e com o advento da "revolução dos cravos" esse habito ainda perdurou uns bons pares de anos. Assim, pós o período ditatorial, pensamos que o primeiro centro a abrir as portas aos portugueses de norte a sul, foi o nosso - naquela altura o NEC -, depois o Centro Espirita Perdão e Caridade de Lisboa, que tendo a sua sede própria, não funcionava no período salazarista. Estes foram os dois primeiras associações que aparecerem ao publico na jovem democracia portuguesa, apesar de haver repito, alguns grupos familiares isolados que mais tarde formaram associações devidamente regulamentadas. Para nós que já estávamos bem regularizados, foi-nos difícil desaloja-los, ou seja, fazer com que esses grupos familiares saíssem "cá para fora", e se constituíssem legalmente, pois tinham ainda hábitos muito enraizados. Foi um trabalho árduo, mas compensador.
 

JE- Havia periódicos no período Salazarista?
AC- Inicialmente o Comandante Izidoro Duarte Santos e depois sua esposa Raquel Duarte Santos, após seu falecimento, mantiveram a revista "Estudos Psíquicos" uma publicação mensal, em que a figura de Eduardo Mattos se destaca, pois foi um esteio no espiritismo antes do 25 de Abril de 1974. Alem deste grande homem, manter a "Revista Fraternidade" também mensal, sempre com tiragem regular, ele aproveitava sempre os brasileiros espiritas que vinham a Portugal e ás vezes por mote próprio, propiciava a vinda de brasileiros a Portugal, que depois aqui no Porto faziam seus seminários e palestras. Laurentino Simões, aqui no Porto, era o que tratava da recepção desses amigos brasileiros e do local das suas palestras. Sendo o único espirita que deu a cara à luta durante o período do Estado Novo. Conhecido por toda a parte como espirita, inclusive pelas autoridades policiais. Toda a gente sabia da existência dum espirita em Portugal - Laurentino Simões. Então ele levava-os a fabricas, cantinas, e mesmo no meio da mata, ao ar livre, ou seja onde fosse possível os brasileiros transmitirem sua experiência e conhecimento. Divaldo Pereira Franco muitas vezes deu palestras, naquele tempo, ao ar livre, escondido da policia.
 

JE- O "Jornal Espírita de Viseu", é o periódico de maior tiragem da Europa. Qual o vosso contributo no arranque desse órgão fundamental da divulgação da cultura espírita?
AC - Aí está mais uma questão deveras interessante e desconhecida pelos espiritas. Há espiritas que dão a cara à luta, existem outros que têm uma acção dedicadíssima mas não se mostram,. procuram viver no anonimato. O Jornal Espirita surge exactamente numa pessoa dessas, escondida, metida no anonimato. Mas que tem desenvolvido uma acção e uma obra em prol do Espiritismo, qualquer coisa de grandioso. Ele vai-me permitir, revelar pela primeira vez, porque é um homem notável, extraordinário, sendo um dos grandes divulgadores do espiritismo, apesar de "escondido"... Falamos do Sr. José Lopes Ferreira da cidade de Viseu. Partiu dele a ideia e iniciativa de fundar o "Jornal Espirita de Viseu", no ano de 79/80. Realço somente que as novas instalações do ACE de Viseu, um salão belíssimo, de enorme qualidade, tendo capacidade para 800 a 900 pessoas, foi construído por Lopes Ferreira. A nossa associação quando a compramos também teve o seu contributo financeiro. O nosso relacionamento com esse ilustre amigo é dos mais bonitos. Pediu-nos o contributo de ajudarmos nesse projecto audacioso, para a época em questão. Fui comprar as maquinas aqui no Porto. O valor era avultado, mas quase tudo foi financiado pelo Lopes Ferreira. e começaram a ser distribuídos gratuitamente a todas as associações, existentes.
Não pude aceitar a direcção deste periódico, face a meu empenho na elaboração de toda a estrutura da "Mansão do Caminho". Embora juridicamente exista, segundo as leis portuguesas, com escritura realizada no 5º Cartório Notarial do Porto - "A Mansão do Caminho", ainda não foi possível concretizar esse nosso "sonho" que dura há muitos anos. Mas tudo se encaminha para começarmos a construir esse edifício destinado a albergar todos os pobres que não tenham qualquer condição mínima para viver. Destina-se aos mais humildes, aos mais necessitados e crianças abandonadas, Só nos falta o espaço físico.
 

JE - Como vê o Espiritismo ao longo desse tempo até aos dias de hoje?
AC - Desde esses tempos ate os dias de hoje, o Espiritismo sofreu uma enorme vivacidade. Hoje, a sociedade civil portuguesa, já olha para o espiritismo como mais uma cultura bem consolidada. Actualmente, a Doutrina Espirita tem uma implantação muitíssimo grande a nível do País, mas mormente na cidade do Porto. É um facto inegável. Afirmo novamente, plagiando Divaldo Pereira Franco, "O Porto é a capital do Espiritismo". Encontramos muitas associações no Grande Porto, sendo as maiores de toda a Europa, à excepção da cidade de Viseu. E esse número quer de militantes quer de associações tendem a aumentar progressivamente, é a voz da experiência que fala (risadas). Basta vermos os inúmeros eventos aqui na Invicta, da classe médica e cientifica, "na busca do espírito", sempre com cientistas espíritas presentes. É uma realidade bem patente.
A aflição à face da terra é grande, as convulsões e perturbações são constantes, as pessoas têm necessidade de encontrar a solução e a terapia, para o sofrimento, dores, angústias, ou seja as interrogações que apoquentam o homem da actualidade. E as pessoas encontram na Doutrina Espírita esse consolo, amparo e entendimento, aprendendo a se autodescobrirem.
 

JE- Face à sua experiência, que expectativas aguarda das novas gerações?
AC - Eu alimento as maiores esperanças numa saudável divulgação do espiritismo. O espiritismo tende a expandir-se cada vez mais. E só poderá acontecer com a vossa geração e as vindouras. Com a nossa geração, não é possível, pois estamos a ficar velhos e cansados. Cansados, pelo tempo, pelo desgaste natural do corpo físico. Estamos a pensar seriamente, em dar cargos de responsabilidade à juventude, como vocês próprios, que já são dirigentes de associações antigas da cidade e do país. E que muito têm contribuído para a divulgação do espiritismo. Caso não se faça isso, a Doutrina Espirita tenderá a estagnar, a estabilizar e não progride. Somente com o progresso é que o espiritismo crescerá. E esse facto só convosco, alias como vocês vêm dando provas de enorme maturidade doutrinaria, cultural e intelectual, dignas de registro.
Eu acredito na juventude. Hoje já se vê muita juventude nos centros espiritas. Quando começamos era muito difícil para não dizer impossível captar jovens. Hoje tudo é muito mais simples. Normalmente as pessoas procuram o Espiritismo de três maneiras: a primeira é pelo sofrimento e pela dor, encontram o alivio e algumas gostam e ficam; outras é pela curiosidade, algumas acabam por ficar; a terceira e ultima situação, que já têm a sua fé enraizados em si mesmos, e é no espiritismo que assentam os seus arrais. Agora é preciso dar continuidade face à sua massa ascensional. Antes a cidade do Porto tinha somente dois centros espiritas, hoje tem muitos. Um sinal claro do seu progresso, e a juventude encontra no espiritismo o argumento de força da sua massa também.
Porque não podemos acreditar no ateísmo, muito propalado, e alguns até dizem "graças a Deus que sou ateu" (risadas...). Estes já se denunciaram. Todavia isso é um complexo de superioridade, que pensam que esta na moda, dizer-se ateu. Assim fogem, aos padrões que a sociedade e elas próprias colocaram de "normalidade" para se mostrarem diferentes, do normal. Mas no seu subconsciente está bem lactente a semente divina. Não acredito no ateísmo, muito menos que hajam ateus. Nós, trazemos sempre algo, do passado que nos recorda a nossa proveniência.
 

 

Texto oferecido pelo autor, que é membro da AME Porto,

e publicado no "Jornal Espírita da Federação Espírita do Estado de São Paulo”

 

 
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