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Américo Domingos Nunes Filho

MÉDICO PEDIATRA, INVESTIGADOR E ESCRITOR COMENTA SOBRE FETOS E CRIANÇAS COM DEFORMAÇÕES

 

Dr. Américo Domingos Nunes Filho

Dr. Américo Domingos Nunes Filho

Américo Domingos Nunes Filho é médico pediatra, dos mais ilustres investigadores sobre fetos e crianças com deformações, escritor, expositor espírita, vice-presidente da ADE-RJ – Associação de Divulgadores do Espiritismo do Estado do Rio de Janeiro, sócio honorário da AME PORTO – Associação Médico-Espírita da Área Metropolitana do Porto, fundador e presidente da AME-RIO – Associação Médico-Espírita do Estado do Rio de Janeiro –, onde, concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal de Espiritismo.
 

 

Contou-nos que estava a fazer um parto, e que o recém-nascido surgiu, aparentemente hígido, parecendo sadio, quando reparou que o bebé tinha uma agenesia oftálmica ou ocular, isto é, nasceu sem os globos oculares, e totalmente desprovido da visão. O que sentiu no momento?
Américo Domingos Nunes Filho – Na época, ainda estudante de medicina e não espírita, fiquei revoltado contra Deus. Ensimesmado em graves lucubrações, refletia: “Por que o Pai, artífice maior do cosmos, cria a desarmonia?” Muitas dúvidas surgiam, confrontando a minha crença religiosa, então dogmática, com o que estava observando racionalmente.
Naquele instante, pensava como a divindade se me apresentava injusta, dando vida a criaturas deficientes, ao lado de outras normais. Uns, portando malformações, e outros saudáveis.
A ultrapassada teologia dogmática propaga que todos os seres terrenos são descendentes de Adão e possuidores de apenas uma existência física. Assim sendo, deveriam todos os filhos de Deus nascer com as mesmas atribulações, sem o estabelecimento de diferença ou distinção entre as pessoas.
Seria extremamente injusto alguém passar por uma aflição muito intensa, por causa do deslize de um antepassado, chamado Adão, ao qual nem chegou a conhecer. Também sem fundamento que os sofrimentos dos descendentes do “primeiro homem” sejam diferentes, alguns nascendo aleijados, outros cegos e a maior parte das natividades verificando-se com recém-nascidos normais.
 

Na sua experiência como médico pediatra teve vários casos de malformações, um deles, a criança era portador de agenesia sexual, isto é, um bebé com ausência do órgão sexual. Como abordou os pais do recém-nascido?
ADNF – Procurei transmitir muita calma, tentando amenizar a intensa ansiedade vivida pelos genitores, que intentavam, através do meu atendimento médico, solução para o doloroso caso. Encaminhei o paciente para a cirurgia, para eliminação urgente da urina através da exteriorização da uretra, sabendo que não havia a possibilidade de qualquer outro procedimento, inclusive transplante ou colocação de uma prótese peniana.
 

Como explicar estes dois casos vividos por si, à luz da doutrina espírita?
ADNF – A aclaração sensata provém da doutrina das vidas sucessivas ou palingênese, por ser a única que preenche o vazio da alma humana à procura de um esclarecimento a respeito de si mesma. Quem é o homem? O que faz na Terra? Qual é o seu porvir?
Sem o princípio da pluralidade das existências nunca se entenderá o porquê de todas as coisas.
O Espiritismo é fé raciocinada. De imediato, o profitente da Doutrina Consoladora de Jesus, codificada pelo sábio francês, Allan Kardec, questionará dos que negam a reencarnação a causa espiritual do nascimento de seres monstruosos, alguns vindo ao mundo, sem cérebro (anencéfalos), outros trazendo, já no berço, deficiências mentais.
Sem a doutrina palingenésica, Deus parece, ao olhar perquiridor, muito pouco criativo; inclusive, parecendo lembrar uma vulgar personalidade sado-masoquista, divertindo-se ao formar seres sem nenhuma possibilidade de crescimento evolutivo espiritual.
Afinal, para que, então, Deus cria a imperfeição? Certamente, os dogmáticos religiosos tentarão uma resposta, baseada no chamado pecado original, dizendo que o sofrimento entrou no mundo por causa do erro do primeiro homem, Adão. Outros alegarão “mistério”, ou então, “não se pode discutir os desígnios divinos”.
Cada ser se encontra sintonizado em determinada faixa evolutiva espiritual. Os que aceitam a reencarnação são aqueles que raciocinam, perscrutando as dessemelhanças da vida humana sob a ótica do amor, sabendo que não há favoritismo no mundo, sendo o espírito o artífice do seu crescimento e evolução.
Jesus disse: “Eu tenho muitas coisas para vos ensinar, mas não podeis compreender agora”. Felizmente, chegou o momento do conhecimento da verdade que o Consolador prometido por Jesus (Espiritismo) revela.
O Mestre, em sua sublime estada na Terra, ensinou a divina Lei de Causa e Efeito: “Se o teu olho te faz tropeçar, corta-o e lança-o fora de ti. Melhor entrares na vida sem o olho”. “Eis que já estás curado. Não erres mais para que não te suceda coisa pior.” “Embainha a tua espada, pois todos os que lançarem mão da espada, pela espada perecerão.”
Quando é plasmada no corpo físico a lesão que estava situada no espírito, a cura acontece, já que o remorso não existe mais. Não estará mais o ser vivenciando o que fez de errado no passado, porquanto conseguiu resgatar o que o afligia. Passa agora a lembrar do sofrimento que o levou à desencarnação, apagando a lembrança do remorso aterrorizante anterior. Antes, o comportamento era de algoz, depois do resgate o ser apresenta-se como vítima.
Uma só existência física é insuficiente para o espírito assenhorear-se do alfabeto cósmico e, principalmente, para elaborar as primeiras linhas da escrita do Universo.
Em verdade, o homem, outorgado por Deus como ser imortal, é herdeiro do Infinito.
A reencarnação representa, em todos os sentidos, uma dádiva dos céus, sempre misericordiosa, concedendo preciosas oportunidades para a aquisição das experiências, em todo o transcurso da evolução.
 

O que é um feto acárdico?

Dra. Lígia Almeida e Dr. Américo Domingos Nunes Filho

Dra. Lígia Almeida e Dr. Américo Domingos Nunes Filho presidentes das respectivas AME’s – Associação Médico-Espírita da Área Metropolitana do Porto e da Associação Médico-Espírita do Rio de Janeiro

ADNF – A Questão 356 de O Livro dos Espíritos (OLE) afirma que pode haver formação de corpos que jamais tiveram um espírito destinado, desenvolvendo-se, apenas, segundo as leis biológicas, porém não sobrevivem (natimortos).
A Questão 136 (a) de “OLE” ensina que a alma não pode habitar um corpo privado de vida orgânica. Contudo, a vida orgânica pode animar um corpo sem alma.
A Questão 136 (b) de “OLE” enfatiza que o corpo físico desprovido de alma corresponde à simples massa de carne sem inteligência, em nada se comparando com um homem.
Na área médica, não há dúvidas de que, juntamente com outros natimortos sem aparência humana, o feto acárdico se enquadra nesses sublimes ensinos da espiritualidade superior.
Conhecia apenas o assunto, através do manuseio de obras especializadas, até que obtive a oportunidade de ter o meu próprio material e constatei que ele não era portador de órgãos, apresentando-se completamente oco.
Publiquei minhas pesquisas, na Revista Internacional de Espiritismo, de Matão, São Paulo, em outubro de 1997, seguindo-se logo após várias edições. Depois, foi igualmente inserida, na França, em matéria de capa do primeiro número do relançamento da Revista Espírita, criada por Kardec.
Tratou-se de um facto marcante, provando que a codificação espírita está atualizadíssima, ressaltando a afirmativa de Kardec de que a revelação espírita é caracterizada por sua origem divina, pela sua iniciativa pertencente aos espíritos e pela sua elaboração, conseqüente fruto do trabalho do homem (“A Gênese”, cap.I, n.13). A propósito, estou, no momento, empenhado nas pesquisas, relacionadas ao tema células-tronco e suas implicações doutrinárias e, com muita alegria, a minha fonte de consultas é “O Livro dos Espíritos”, a par com o progresso científico, embora tenha vindo a lume, em meados do século XIX. *
 

O que é um feto anencéfalo?
ADNF – Trata-se de recém-nascido malformado, apresentando vestígios de cérebro. Certamente o espírito reencarna nessas condições, trazendo imperfeições decorrentes do mau uso do livre-arbítrio, na utilização, no pretérito, do intelecto para fins criminosos.
 

Os fetos acárdicos e anencéfalos são considerados pela medicina seres humanos? Terão eles espírito?
ADNF – O feto acárdíco e o recém-nascido anencéfalo são seres humanos. O que os diferencia é exactamente a presença do espírito no anencéfalo. O Livro dos Espíritos (Q.336) esclarece que se uma criança nasce com vida, está sempre predestinada a ter uma alma. O anencéfalo não é um natimorto. Ele vive algumas horas. Ao contrário do acárdico, o anencéfalo é portador do tronco encefálico, da região talâmica e até mesmo das porções do córtex cerebral, responsáveis pelo controle automático das batidas cardíacas e da capacidade de respirar por si próprio, ao nascer.
 

Como explica a existência de vida orgânica nos fetos que não tem espírito? Qual a explicação da medicina para estes casos? E a da doutrina espírita?
ADNF – O princípio básico da formação dos compostos orgânicos nos seres vivos reside no código genético existente em cada célula. A célula somática primicial (célula-ovo ou zigoto) (resultante da fusão de um óvulo com um espermatozóide), contém, no seu núcleo, o DNA (ácido desoxirribonucléico) com toda a informação genética para gerar um novo ser. O DNA nas células fica extremamente condensado e organizado, empacotado, em cromossomos. Quando o espermatozóide se une ao óvulo, 23 cromossomos do pai se unem aos 23 cromossomos da mãe, constituindo o ser humano. Logo após a fecundação (fusão do óvulo e do espermatozóide), o zigoto começa a se dividir: uma célula em duas, duas em quatro, quatro em oito e assim por diante. Pelo menos até a fase de 8 (oito) células, cada uma delas é capaz de se desenvolver em um ser humano completo. São chamadas de totipotentes.
A partir da fase de blastócito, as células somáticas, que ainda são todas iguais (pluripotentes), começam a diferenciar-se nos vários tecidos que vão compor o organismo. A ciência considera essa fase um mistério, porque desconhece o factor espiritual, campo organizador da forma física.
Nos fetos desprovidos de espíritos, como os acárdicos, a estruturação somática também acontece no cadinho celular, através do metabolismo induzido pela troca iônica, denominada de “bomba de sódio-potássio”, desenvolvendo uma diferença de potencial elétrico, contribuindo para o funcionamento da célula e, por conseguinte, do corpo em sua totalidade.
Essa electricidade gerada, animalizada, está bem de acordo com a tese do princípio vital, descrita genialmente por Kardec, no século XIX, em “A Gênese”, cap. X, nº 19, dizendo que esse princípio seria uma espécie particular de eletricidade animal, totalmente de acordo com o pensamento científico atual.
Na obra “Evolução em dois Mundos” (pág. 195), o espírito André Luiz, pela psicografia do estimado Chico Xavier, traz o esclarecimento de que nas gestações frustras, quando não há espírito reencarnante para arquitetar as formas fetais, o fenômeno obedece aos moldes mentais maternos.
No caso do feto acárdico, sendo um dos conceptos gemelares, a medicina afirma que como não possuem função cardíaca, a circulação somente é possível em virtude da comunicação se processar com os vasos provenientes do gêmeo normal, através de anastomoses entre as duas circulações fetoplacentárias.
É importante também conjecturar que, na junção do espermatozóide com o óvulo, certamente se forma um campo de força, propício à formação inicial das células embrionárias, a partir do ovo ou zigoto. A presença de milhões de células fecundantes masculinas seguramente favorece o processo. Portanto, na intimidade das células reprodutoras pulula energia incomensurável, constituindo-se em verdadeiro estopim da “bomba de sódio-potássio”, patrocinando a vida orgânica, com ou sem a presença do espírito.
 

Dr. Danilo Júlio Lucca

Dr. Danilo Júlio Lucca, vice-presidente da AME RIO - Associação Médico-Espírita do Rio de Janeiro

Os anencéfalos podem ser utilizados para transplantes?
ADNF – Sim, ao contrário dos acárdicos, possuem órgãos, os quais podem ser aproveitados para a doação.
 

Se os pais souberem antecipadamente dessas malformações ainda no período de gestação, será licito recorrer ao aborto?
ADNF – De maneira alguma, deve-se praticar o aborto (nesse caso é o eugênico). Trata-se de horripilante crime, cuja vítima não tem como se defender.
 

 

Qual a razão da existência de fetos natimortos?
ADNF – Segundo ensinamento kardeciano, trata-se de prova para os pais.
 

Nas lesões congênitas e nos casos teratológicos, qual a explicação espírita?
ADNF – Como já foi dito anteriormente, necessidade da expiação para a obtenção da cura espiritual.
 

Como explica, sob o ponto de vista espírita o nascimento de gémeos ostentando apreciáveis anormalidades como os acárdicos ou anencéfalos?
ADNF – Não existe, na literatura médica, relato de gêmeos acárdicos. Somente um dos gêmeos é acárdico. Quanto aos gêmeos anencéfalos, certamente encontravam-se, em vivência pretérita ligados pelo ódio e retornaram juntos à arena física. Ainda por cima, utilizaram o exuberante intelecto para a prática do mal.
 

Por que Deus permite tais atrocidades ou será que não são?
ADNF – O homem está subordinado à divina Lei de Causa e Efeito, apontada por Jesus, em vários ensinamentos: “A cada um segundo as suas obras”. “Quem erra ou peca, é escravo do erro ou pecado”. “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”. ”Quem leva para cativeiro, para cativeiro vai”. Não existe o acaso. Cada ser é responsável pelos seus próprios passos. A responsabilidade é pessoal. O que parece barbaridade revela apenas uma verdade: somos hoje o que construímos ontem e seremos amanhã o que fizermos agora. A Doutrina Espírita, com seus racionais postulados científicos, inicia o trabalho de esclarecimento da humanidade. Afinal, o homem encontra-se no limiar de uma nova era, na qual os enigmas serão decifrados e as barreiras do desconhecido sofrerão um intenso processo de desmoronamento. O Mestre Jesus previu esse grande momento, dizendo que o Consolador seria enviado, não somente para relembrar o que ele ensinou, como igualmente espargir novas lições.


 

Texto oferecido pelo autor, que é membro da AME Porto,

e publicado no "Jornal de Espiritismo” de Portugal

 

 
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