|






|
|
|
|
Artigos
& Teses

DOENÇA DE ALZHEIMER E
SEUS ASPECTOS ESPIRITUAIS
O Perispírito, a Memória
e o Tempo
Iso Jorge Teixeira *
Definição e Anotações sobre a Psicopatologia da Doença de Alzheimer
O “Mal de Alzheimer”, ou
Doença de ALZHEIMER, é um quadro demencial, irreversível, com
solapamento progressivo, principalmente, da MEMÓRIA do paciente e de
outras funções cognitivas (intelectuais).
Em geral, a doença começa a partir dos 65 anos, mas há vários casos de
início precoce, isto é, a partir dos 45 anos.
Para entendermos bem as características e evolução dessa Doença é
preciso tentar explicar o que se denomina LEI DA REGRESSÃO MNÊMICA DE
RIBOT... Segundo esta, quando uma pessoa apresenta uma alteração mnêmica
(da memória) “orgânica”, primeiramente é comprometida a “memória de
fixação” e “memória de curto prazo”, ou seja, a pessoa começa a se
esquecer de acontecimentos ocorridos mais recentemente e, com o
progredir da Doença, a memória para fatos mais antigos também será
deteriorada. Outro aspecto da “Lei de RIBOT” é que as funções psíquicas
mais complexas são afetadas, também, mais precocemente do que as funções
mais simples. É por isso que, no início da Doença de ALZHEIMER o
paciente costuma se “perder” em via pública ou mesmo esquecer-se de
fatos os mais corriqueiros, pois a memória recente estando comprometida,
o paciente fica “desorientado” no tempo e no espaço; além disso, o
paciente costuma apresentar alterações “ético-sociais” -, o “pudor” (que
é uma função complexa) fica comprometido; conseqüentemente, não é raro
indivíduos bem educados apresentarem sintomas como despir-se na frente
de uma multidão de pessoas, não conseguindo ajuizar eticamente a sua
conduta.
A propósito, certa vez, tratamos um paciente com Doença de ALZHEIMER
cujo primeiro sintoma foi urinar em via pública, exibindo a genitália
para os transeuntes, no entanto, era um Sr. com um passado de moral
ilibada e muito responsável e elegante...
Enfim, a Doença de ALZHEIMER vai afetando, progressivamente, as funções
corticais do paciente, pois o que acontece é que há uma ATROFIA DO
CÉREBRO do paciente e, por isso mesmo, as funções cognitivas
(intelectuais) e até motoras (de movimento) são deterioradas pela
doença, irreversivelmente, porque as células cerebrais não se regeneram,
uma vez atrofiadas não são substituídas por outras, íntegras; por isto,
diz-se que o tecido cerebral é “tecido nobre”, isto é, as células
lesionadas não são substituídas. Exatamente como varias pessoas
vivenciam: “na parte física vemos que a pessoa vai definhando, perdendo
o movimento e a noção das coisas.”
Visão espírita do “Mal de Alzheimer’
Na época do lançamento de O LIVRO DOS ESPÍRITOS (OLE), de ALLAN KARDEC
(1857), não se conhecia a fisiopatologia da Doença de ALZHEIMER, por
isso, a Codificação não se refere à Doença especificamente, porém,
podemos extrair algum conhecimento sobre o que acontece com o Espírito
da pessoa com essa Doença se analisarmos bem a resposta à questão
156 de OLE e, com tal análise, não podemos nos furtar a um melhor
entendimento da natureza e propriedades do PERISPÍRITO e suas
correlações com a MEMÓRIA e o TEMPO,,,
Assim, leiamos a questão 156 de OLE e a primeira parte da resposta:
“A separação definitiva entre a alma e o corpo pode verificar-se antes
da cessação completa da vida orgânica?
“- NA AGONIA, ÀS VEZES, A ALMA JÁ DEIXOU O CORPO, QUE NADA MAIS TEM DO
QUE A VIDA ORGÂNICA (...)”.
+ + + +
+ + + + + + + + +
+ + + + + + + + +
+ + + + + + +
MORTE CORPORAL E ESPÍRITO
O Espírito desliga-se definitivamente do corpo porque este está morto,
mas
não é o desligamento do Espírito que causa a morte do corpo
+ + + + + + + + +
+ + + + + + + + +
+ + + + + + + + +
+ +
Parece-nos, que nas doenças
crônicas em geral, que afetam o cérebro (como é o caso da Doença de
ALZHEIMER), estando este deteriorado, ele não mais reagiria ao comando
do Espírito - a vida na doença de ALZHEIMER se resumiria, praticamente,
à vida orgânica, VEGETATIVA, “a alma já deixou o corpo”, embora não
definitivamente, pois isto só ocorre na desencarnação...
A Sra. poderia, talvez, argumentar que um corpo não poderia viver sem
alma, o que não seria verdade... O que mantém a vida corporal é o
“FLUIDO” VITAL e não o Espírito, a vida só se extingue pela exaustão dos
órgãos e não pela ausência do Espírito (cf. resp. à questão 68 de OLE).
É preciso que se repita: o Espírito desliga-se definitivamente do corpo
porque este está morto, mas não é o desligamento do Espírito que causa a
morte do corpo...
Obviamente, ainda há uma ligação, muito tênue, entre o Espírito e o
corpo de uma pessoa com Doença de ALZHEIMER, mas o rompimento de tal
ligação só não é definitivo porque a pessoa ainda não desencarnou, pois
o Espírito nada mais tem a fazer estando o cérebro sem NENHUM controle
seu... Sabemos que a alma desprende-se do corpo, pouco a pouco,
gradativamente, nas doenças orgânicas, crônicas (cf. se depreende da
resposta à questão 155-A de OLE) e, num grau avançado da Doença,
acreditamos que a alma está quase totalmente liberta do corpo.
Como um paciente com Doença de ALZHEIMER sente-se interiormente?
Parece-nos que isto irá depender não só da evolução espiritual da
pessoa, como também, do estágio evolutivo da doença, da demência. Quando
as funções cognitivas (intelectuais) estão seriamente comprometidas, a
pessoa nada sente, isto é, não há nenhuma repercussão ESPIRITUAL do que
se passa no corpo... Aliás, KARDEC afirmava mais ou menos isto, em
outras palavras, quando disse que de nada adianta ser um bom violinista
se o violino estiver danificado. Como tocar boa música, nessa situação?
Prezados Srs. leitores e leitoras, o grande sofrimento na doença de
ALZHEIMER é dos familiares e da Sociedade, não é do paciente. É muito
duro, às vezes desesperador mesmo, ver um ente querido, um ser humano,
desconhecer seus próprios parentes, não saber pronunciar seus nomes (na
afasia motora) e, às vezes, nem reconhecer as coisas do ambiente
(agnosia) e nem ter coordenação para os mais simples movimentos úteis,
como vestir uma roupa (apraxia), certamente, como dizem alguns: “é um
sofrimento ver uma pessoa tão dinâmica ir definhando aos nossos
olhos.”... Aí está: a doença de ALZHEIMER é uma PROVA, extremamente
difícil para os familiares e exige muita resignação e muito Amor e,
antes de tudo, a certeza na IMORTALIDADE DA ALMA e de sua
INDIVIDUALIDADE após a morte e confiança na Providência Divina e aí está
a “vantagem” de ser espírita, se é que assim podemos nos exprimir,
porque a Doutrina Espírita é Consoladora justamente porque nos dá essa
CERTEZA (através de FATOS positivos) nas respostas a questões
existenciais que todos já fizeram algum dia: por que aqui estamos? Para
onde vamos? Por que sofremos?...
Enfim, cuidar muito bem dos pacientes, embora acreditemos que não é
fácil, mas as dificuldades são postas em nossa vida para crescermos
espiritualmente e, quem sabe, se este gênero de prova não foi solicitado
pelos familiares. antes de reencarnar?!
A nosso ver os familiares devem ficar tranqüilos quanto ao suposto
sofrimento dos pacientes, pois, praticamente ele não existe, e aí é que
devemos agradecer à Providência Divina, pois, na maioria das vezes o
próprio paciente não percebe o seu comprometimento cognitivo, nem se dá
conta que sua memória está gravemente comprometida. Se eles forem um
Espírito com certa elevação, devem estar sentindo-se muito melhor que os
familiares, disto temos absoluta certeza, pois estando o Espírito dela
com uma tal emancipação, as coisas terrenas praticamente não a
afetariam.
Onde ficarão “impressas”
as vivências presentes e passadas?
Como dissemos, o sintoma principal na Doença de ALZHEIMER é a
deterioração da MEMÓRIA e tem havido muita distorção doutrinária, a
nosso ver, em relação à questão do PERISPÍRITO, que, para alguns, seria
o “arquivo” das nossas experiências terrenas.
O PERISPÍRITO, A MEMÓRIA E O TEMPO
Existem outras obras, além das básicas , da DOUTRINA ESPÍRITA? Creio que
não, pois não me consta que a Espiritualidade Superior tenha se
manifestado doutrinariamente, depois de KARDEC, com a “concordância
universal dos seus ensinos”; eis, talvez, uma das causas dos aspectos
polémicos citados por alguns. Há um adágio, cuja autoria eu desconheço,
do qual gosto muito: quando os “espíritas” igrejeiros insistirem,
estereotipadamente, em que FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO, que, aliás,
é uma verdade; poderemos complementar com o adágio: - E FORA DA
CODIFICAÇÃO NÃO HÁ DOUTRINA ESPÍRITA...
Perispírito - Matéria e
Espírito - Densidade e ponderabilidade da matéria
Como vários estudiosos dizem, o “perispírito” possui características
“especiais” de DENSIDADE, PONDERABILIDADE e PLASTICIDADE. Está perfeito!
Perguntaríamos, então, ao leitor: conhecemos a densidade e a
ponderabilidade do “perispírito”?!...Embora seja “matéria”,
desconhecemos a natureza íntima do perispírito. Por que? Porque só
conhecemos, aliás não completamente, a matéria “terrena”. As qualidades
de EXTENSÃO, IMPENETRABILIDADE e que IMPRESSIONA OS SENTIDOS cessam,
quando desejamos conceituar a matéria constitutiva do perispírito (cf.
resposta à questão 22 de O Livro dos Espíritos de ALLAN KARDEC).
Portanto, só podemos definir a “matéria”, muito genericamente, como “o
liame que escraviza o espírito; é o instrumento que ele usa, e sobre o
qual, ao mesmo tempo, exerce a sua ação” (cf. resposta à questão 22-A,
op. cit.).
A matéria com que lidamos na Terra possui densidade, ponderabilidade,
contudo, a matéria considerada como derivada do “fluido universal” é
IMPONDERÁVEL para nós, encarnados e imperfeitos. E isso é exposto
claramente em resposta à questão 29 (op. cit.), diz ela: “A
ponderabilidade é atributo essencial da matéria? E a resposta: “- Da
matéria como a entendeis, sim; mas não da matéria considerada como
fluido universal. A matéria etérea e sutil que forma esse fluido é
imponderável para vós, mas nem por isso deixa de ser o princípio da
vossa matéria ponderável.”. A seguir, KARDEC comenta:
“A ponderabilidade é uma propriedade RELATIVA (o destaque é nosso). Fora
das esferas de atração dos mundos, não há peso, da mesma maneira que não
há alto nem baixo.”
É interessante ressaltar que a ponderabilidade dos corpos depende,
necessariamente, dos fatores cósmicos atuantes do mundo em que se
encontram; da lei de gravidade, por exemplo, em nosso planeta.
Vários cientistas estudaram a questão da MATÉRIA, tais como: CHARLES
RICHET, MORSELLI, CESARE LOMBROSO, W. J. CRAWFORD, WIILLIAM CROOKES,
etc., inclusive estudaram os fenômenos de “ectoplasmia”. Contudo, tais
estudos foram realizados, fundamentalmente, em MÉDIUNS, isto é, com
“fluidos animalizados” do médium em “conjunção” com os da
Espiritualidade desencarnada. Assim, W. CROOKES no seu notável estudo da
médium FLORENCE COOK na qual se manifestava principalmente o espírito de
KATIE KING, além dos estudos com a médium EUSÁPIA PALADINO realizados
por RICHET, LOMBROSO, CRAWFORD e outros... Todas essas experiências,
realizadas em geral por cientistas, a princípio, céticos em relação ao
mundo espiritual, serviram para a comprovação da realidade do mundo
espiritual e pouco mais se conseguiu. A propósito, na obra “O Psiquismo
experimental”, ALFREDO ERNY relata que escreveu ao Sr. CROOKES, em 1892,
e perguntou-lhe se KATIE KING ter-lhe-ia feito revelações sobre o outro
mundo, recebendo do ilustre químico a resposta:
“Tive muitas conversações com KATIE KING, e naturalmente lhe fiz várias
perguntas a respeito do outro mundo. As respostas não satisfizeram.
Geralmente ela dizia que estava proibida de dar essas informações.”
Portanto, vários leitores leram algumas obras atuais estabelecendo as
“correlações do Espírito com a matéria”, pontificando a natureza
eletromagnética dessa matéria, tenham muito cuidado; pois no
Espiritismo, infelizmente, há muitos espíritos pseudo - sábios, embora a
Física moderna têm lançado muita luz sobre tais obscuros problemas.
Creio que deverá demorar muito para que conheçamos, aqui na Terra, a
densidade e ponderabilidade do perispírito; talvez isto ocorra com a
regeneração da Terra... Talvez... Talvez... Por enquanto, há boas
hipóteses-de-trabalho, nada mais, o que já é um avanço considerável...
Perispírito e
participação na elaboração do pensamento e no desenvolvimento da
inteligência
Não concordo com que o
perispírito - embora seja matéria quintessenciada - esteja “alheio à
elaboração da inteligência e do pensamento”. Na erraticidade, na Terra e
em outros mundos o Espírito terá sempre o seu envoltório (perispírito),
exceto os Espíritos muito Superiores e os Puros, se não estiverem
encarnados; aliás, esta é uma eventualidade rara mas não impossível,
embora não estejam mais sujeitos à encarnação, eles podem encarnar-se em
“missão”, nada impede!... Frisamos isto, aqui, como um obstáculo aos
sofismas dos roustainguistas.
Como disse a Espiritualidade Superior: “(...) o Espírito muda de
envoltório, como muda de roupa.” (cf. resposta à questão 94 ‘in fine’ de
O Livro dos Espíritos). Só podemos conceber o Espírito sem a matéria
“pelo pensamento” (cf. resposta à questão 26, op. cit.).
Embora a Inteligência e o Pensamento sejam atributos inalienáveis do
Espírito, haverá sempre co-participação do perispírito em relação ao
Pensamento e à Inteligência. Por que o perispírito não está “alheio à
inteligência e ao pensamento”? Justamente porque o perispírito é o liame
entre o mundo espiritual e o material. Onde houver matéria, aí estará o
perispírito, mais grosseiro como o nosso ou menos grosseiro como na
erraticidade e nos mundos mais evoluídos.
Sem a participação do perispírito não há progresso material nem
espiritual. Como citamos, anteriormente (questão 26 de OLE), a separação
entre o perispírito e o espírito é uma abstração do pensamento dos
encarnados e inferiores, como nós.
Memória humana (psíquica
ou verdadeira) e Memória animal (Memória orgânica ou Memória - hábito) -
A questão do tempo - A “durée” bergsoniana
As explicações da função do
perispírito como “arquivista temporário” ou como “biblioteca do
espírito”, são interessantes didaticamente, todavia, não há rigor nessas
explicações... A memória humana não é um mero repositório de engramas
(imagens fixadas e conservadas) “arquivados”.
Coube ao filósofo HENRI LOUIS BERGSON (1859-1941) a distinção entre
MEMÓRIA ORGÂNICA (ou MEMÓRIA-HÁBITO) e MEMÓRIA PSÍQUICA (ou MEMÓRIA
VERDADEIRA). Esta seria apanágio, “específico”, do ser humano.
Com o prof. NOBRE DE MELO podemos definir MEMÓRIA, genericamente, como
“a propriedade ou capacidade psíquica de “fixar, conservar” (em
latência) e “reproduzir”, “evocar” ou “representar” (voltar a apresentar
na consciência), sob a forma de “imagens representativas ou mnêmicas”
aquelas impressões sensoriais recebidas, transmitidas e conscientizadas
sob a forma de sensações.” (A . L. NOBRE DE MELO. PSIQUIATRIA - Vol. I.
Civiliz. Bras. / MEC, Rio de Janeiro, 1979, p. 398). Prosseguindo, diz o
nosso mestre da Psiquiatria brasileira, já desencarnado:
“Mas, assim, genericamente concebida, a memória deixa de ser, é óbvio,
atributo específico do ser humano”. E exemplifica: “Um cão, digamos,
que, alguma vez, tenha sido corrido a pedradas, fugirá espavorido se
alguém fizer menção de arremessar-lhe seja o que for, e isso, por
efeito, unicamente da dolorosa lembrança anterior fixada”.(op. cit., p.
398 - 399).
Então, com aquela definição genérica, poderíamos dizer que a simples
capacidade de armazenar (“arquivar”) e reproduzir impressões deixadas
pelos estímulos e excitações do meio externo pode ser encontrada até nos
organismos unicelulares, num disco CD, numa fita cassette e nos robôs
eletrônicos da moderna Cibernética. Mas seria simplesmente isso a
memória humana? Não, a memória orgânica existe no Homem como em qualquer
animal, mas a memória humana tem algo de específico...Vejamos a
explicação do prof. NOBRE:
“Algo diversos, sem dúvida, são os fatos que definem a chamada “memória
psíquica” ou “verdadeira”, esta sim, apanágio do ser humano. Aqui, não
somente se verifica a possibilidade de reprodução mecânica ou automática
(ecforia) de imagens perceptivas fixadas e conservadas “(engramas)”, mas
também a revivescência “(evocação) voluntária” ou “involuntária”, isto
é, mercê de associações fortuitas, de estados psicológicos passados, dos
pensamentos, sentimentos, emoções, desejos e fantasias, que constituem o
patrimônio de nossa experiência vivida. Quer isso dizer que o homem
recorda, não apenas os acontecimentos do mundo externo ou circundante,
que lhe é dado aos sentidos, mas também os de sua realidade interna, e
suas significações respectivas, reconhecendo-os e localizando-os em
determinado momento da existência. A memória psíquica ou verdadeira
implica, em suma, um FATOR INTENCIONAL SIGNIFICATIVO [o destaque é
nosso], que, a libera do FATALISMO [destaque nosso] da memória
orgânica.” (op. cit., p. 399).
+ + + +
+ + + + + + + + +
+ + + + + + + + +
+ + + + + + +
MEMÓRIA HUMANA
A memória orgânica existe no Homem como em qualquer animal,
mas a memória humana tem
algo de específico
+ + + +
+ + + + + + + + +
+ + + + + + + + +
+ + + + + + +
Enfim, caríssimos leitores,
a “memória humana, verdadeira”, não é um simples “arquivo”, estático, de
nossas vivências pretéritas. Nem a memória de um computador é assim!...
O élan vital caracterizado por BERGSON implica numa continuidade do
tempo e numa duração (“durée”). Ou, como dizem os filósofos
existencialistas, implica numa “intencionalidade, significativa”... O
movimento humano é para o futuro, evolutivo; nunca retroagimos. Nossas
vivências passadas são sempre modificadas pelo nosso psiquismo presente
e pelas nossas perspectivas futuras... Quando me lembro de uma vivência
ocorrida na minha infância, estando com 61 anos, tal vivência não é
hoje, rigorosamente, igual àquela que tive na infância. O que mudou? O
meu passado? Não, eu mudei e, portanto, mudou a minha vivência.
Além disso, a lembrança ATUAL de um acontecimento será vivenciado
diferentemente pelas pessoas, o que levou, inclusive, o escritor
italiano LUIGI PIRANDELLO a falar na “Verdade de cada um”... Aliás, a
vivência atual pode ser modificada por uma série de “associações
fortuitas” como bem assinalava o prof. NOBRE. Através dessas associações
há “mudanças qualitativas” na duração (“durée”) e o passado é recuperado
, de acordo com o “bergsonismo” (cf. sua obra “Matéria e Memória. Ensaio
sobre a Relação entre o Corpo e o Espírito”). Assim, pode ser traçado um
paralelo entre o bergsonismo e a música do compositor CLAUDE ACHILLE
DEBUSSY e a obra do escritor MARCEL PROUST.
Obviamente, não cabe neste artigo uma análise pormenorizada da questão
do TEMPO VIVIDO, do tempo como DURAÇÃO. A propósito disse SANTO
AGOSTINHO, encarnado, nas suas Confissões em relação ao que seja o
tempo:
“Si nemo me quaerat, scio; se quarenti explicare velim, nescio” (Se
ninguém mo pergunta, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a
pergunta, já não sei.).[cf. op. cit. Livro XI – item 14].
Ou seja, a questão do tempo implica um caráter eminentemente
“intuitivo”. Ora, um filósofo, “encarnado”, afirma não poder explicar o
que é o tempo, imagine-se definir o tempo vivido no mundo espiritual!...
A DURAÇÃO (“durée”) do ponto de vista “espiritual” é bem diferente da
nossa e isso foi explicitado na resposta à questão 240 de O Livro dos
Espíritos e KARDEC comentou a seguir:
“Os Espíritos vivem fora do tempo, tal como o compreendemos; a DURAÇÃO
[o destaque é nosso], para eles, praticamente não existe, e os séculos,
tão longos para nós, são aos seus olhos apenas instantes que desaparecem
na eternidade, da mesma maneira que as desigualdades do solo se apagam e
desaparecem para aquele que se eleva no espaço”.
O “TEMPO VIVIDO” pode alterar-se em algumas doenças mentais
(Esquizofrenias, depressão, etc.) e até em pessoas normais. Por exemplo,
o cantor popular brasileiro ROBERTO CARLOS diz nos seus versos na canção
“Amor sem limites”: “(...) Aprendi que pouco tempo é muito, se estou
longe de seus braços.” . E nos pacientes com a denominada Síndrome de
COTARD observa-se um “delírio de negação dos órgãos” (delírio niilista)
e um “delírio de eternidade”, em conseqüência, o paciente sofre muito
por julgar que nada existe e que aquela situação durará “eternamente”...
É exatamente pelo fato da “DURAÇÃO” ser diferente no mundo “espiritual”,
que muitos espíritos desencarnados, ainda apegados à vida carnal,
julgam-se no inferno, acreditando assim na “eternidade das penas”.
Assim, KARDEC dá inúmeros exemplos dessa situação na 2ª. parte do seu
livro “O Céu e o Inferno – A Justiça divina segundo o Espiritismo”.
Ilustrando-se isto, sugiro ao leitor que leia o caso BENOIST (op. cit.,
2ª parte, cap. VI, “Criminosos arrependidos”, especialmente as questões
3, 9 e 11); e que leia também o caso “Duplo suicídio, por amor e por
dever” (op. cit., 2ª parte, Cap. V, “Suicidas”, especialmente a resposta
à questão 4, atentando-se para o clamor da que foi a jovem PALMYRE:
“sempre assim!”).
EPÍLOGO
Acreditamos que nossas vivências sejam “impressas” em nosso cérebro e
aquelas mais importantes espiritualmente (intelectuais e morais) são
levadas ao Espírito, através do perispírito. Mas, tais vivências não
ficam ali “arquivadas”, o Espírito as modifica de acordo com o seu
“livre – arbítrio”.
Admitir-se o perispírito como “arquivista temporário” ou como
“biblioteca do espírito” é admitir-se a “memória orgânica”, pura e
simplesmente, e, portanto, cair num “fatalismo materialista
mecanicista”, ao qual muitos expositores que se dizem “espíritas” e
defensores do “Evangelho de JESUS” são conduzidos, alguns até
bem-intencionados...
Caro leitor, estou terminando este artigo... Precisarei utilizar o
comando “Salvar como” do meu computador para que ele fique arquivado.
Toda vez que clicarmos no título “O PERISPÍRITO, A MEMÓRIA E O TEMPO”,
aparecerá na tela todo o meu artigo, porque ele ficará na “memória” do
meu computador...
Embora as minhas vivências significativas também fiquem “arquivadas” no
meu Espírito, o comando “Salvar como” é sempre “Salvar automaticamente”
e eu terei acesso a elas clicando não o título, mas sim a “tecla”
VONTADE, aqui ou na erraticidade; contudo, nem todo o “texto” estará
disponível para ser revivenciado na minha consciência, como numa
“ecmnesia” (revivescência do passado individual), pois a “Providência
Divina” interdita pensamentos, emoções, sentimentos, etc. que sejam
inúteis para o nosso progresso espiritual.
Gostaríamos de dizer que as vivências do Espírito desses pacientes são
“qualitativamente” diferentes das dos seus familiares, pois o Espírito
deles estão parcialmente EMANCIPADOS do corpo, ao passo que os
familiares e nós, encarnados, vivemos as nossas experiências na “prisão”
da carne... O “Mal de ALZHEIMER” aniquila a vivência do tempo para o
corpo, porque este não “obedece” ao comando do Espírito.
* Médico Psiquiatra.
Professor Livre-Docente de Psicopatologia e Psiquiatria da Faculdade de
Ciências Médicas (FCM) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
(UERJ) - Brasil.
Coordenador do Curso de
Especialização em Psiquiatria (FCM-UERJ).
|
|
|
|
 |
|