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Artigos
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CÉLULAS-TRONCO E
DOUTRINA ESPÍRITA
Américo Domingos Nunes Filho *
Tema, de grande actualidade, empolga classe médico-científica
As células-tronco
correspondem à fonte formadora do corpo físico, podendo dar criação a
todos os tipos de células, ensejando a geração dos tecidos, constituindo
os órgãos e sistemas. São igualmente capazes de recuperação tecidual,
reparando áreas danificadas, não só cicatrizando feridas, como também
regenerando órgãos enfermos. As células-tronco, com maior facilidade de
formação de outros tipos de células, são as encontradas no embrião
(fertilização em vitro), no estágio de blastocisto (100 células), cerca
de oito dias após a fecundação do óvulo, sendo dotadas de plasticidade
alta, possuindo elevada capacidade de diferenciação, a ponto de se
transformarem em um organismo completo. Existem também as chamadas
células-tronco adultas, retiradas da medula ou tutano do osso esterno ou
do ilíaco do próprio doente, como, igualmente, da pele e tecido nervoso.
Outras fontes de obtenção: o cordão umbilical, a placenta e os dentes de
leite.
No Brasil, nas pesquisas com células-tronco, são utilizadas as adultas,
por causa das questões éticas e do impedimento da legislação em vigor,
em relação às embrionárias. Outro dado importante é a possibilidade de
rejeição, quando essas células provêm de outro indivíduo, mesmo sendo um
embrião. Trabalhos com células-tronco estão sendo realizados em todo o
mundo. Em nossa pátria, as pesquisas estão bem avançadas, com os
primeiros resultados já aparecendo, principalmente na área da
cardiologia e da neurologia.
Em São Paulo, na USP, no Instituto de Ortopedia e Traumatologia, há uma
equipe de cientistas trabalhando com um protocolo de pesquisas, visando
a recuperação de pacientes paralíticos com lesão de medula espinhal,
introduzindo, através de cateter, solução de células-tronco adultas, na
coluna, esperando que elas se transformem em células nervosas,
recompondo os neurônios afetados. Maravilhoso constatar a possibilidade,
no futuro, de um paralítico poder andar por meio da aplicação das
células-tronco, acarretando a reparação do local afetado. Que lindo! A
ciência curando, assim como o próprio Cristo o fez.
Em tese, centenas de doenças poderão ser erradicadas de nosso orbe,
através da terapia por células-tronco, deixando, portanto, de ser a
Terra, no futuro, planeta de provas e expiações, sendo promovida, então,
a mundo de regeneração.
Implicações doutrinárias
As pesquisas com células-tronco, envolvendo embriões, estão causando
muita ansiedade nos meios religiosos, porquanto há necessidade de
sacrificar os embriões, mesmo em fase inicial, sendo constituídos de
apenas 100 células. Em verdade, através da fertilização in vitro,
técnica também conhecida como bebê de proveta, muitos embriões estão
sendo manipulados em laboratórios e a oferta é grande.
Algumas nações, inclusive a nossa, estão utilizando células-tronco
adultas; portanto, sem a utilização de células embrionárias e estão
obtendo ótimos resultados iniciais. Como as pesquisas estão em fase bem
precoce, ainda é prematuro chegar a alguma conclusão a respeito da
técnica ideal. Fica no ar uma questão: Se, no futuro, o sucesso das
experiências apenas ocorrer com a clonagem terapêutica, exatamente
sacrificando os embriões, como se comportarão as religiões?
Será que nós vamos proceder como na Idade Média, levando qualquer
Galileu a um tribunal, querendo sufocar suas idéias? Será que estaremos
contrários ao progresso científico, principalmente se doenças tão graves
puderem ser erradicadas do planeta? Será que deixaremos de obter a cura
de um mal, até então incurável, como a paralisia, que nos acomete ou a
um familiar, devido a não aprovação de uma crença religiosa?
Os cientistas afirmam ser imprescindível não descartar o material
embrionário nas pesquisas, porquanto as células-tronco de embriões são
muito versáteis, proporcionando maior facilidade no acompanhamento de
todo o processo de diferenciação celular, facilitando a ciência
assenhorear-se dos mecanismos gênicos, envolvidos no processo.
A oposição dos grupos religiosos é intensa e radical. É muito fácil
combater as idéias, quando estão na fase de elaboração e encaminhamento.
Queremos ver a reação dos segmentos religiosos (O Espiritismo, como o
Consolador Prometido por Jesus, certamente estará fora desse contexto),
se as curas, através das células-tronco, provindas de células
embrionárias, se processarem, fazendo os paralíticos andarem, os cegos
verem, a insuficiência cardíaca desaparecendo do contexto médico, assim
como numerosas doenças sendo erradicadas do nosso orbe. Duvidamos que os
conceitos religiosos serão inquestionáveis em caso de necessidade
premente da cura, através das células-tronco embrionárias, para si
próprio, para um familiar ou mesmo para um amigo.
Imagine, estimado leitor, você, por exemplo, sofrendo intensamente de um
mal só curável pela terapia com utilização de embriões, com até mesmo a
possibilidade de andar ou de enxergar novamente e, infelizmente, recusar
o tratamento que o levaria à libertação porque sua religião não permite.
E se, porventura, exemplificando, o necessitado for seu próprio filho?
Certamente, em obediência a preceitos religiosos, o indivíduo,
infelizmente, deixará de receber o alívio imediato. Na dimensão
espiritual será recebido, não com glória (como pensam os
fundamentalistas de todas as religiões), mas com grande pesar.
Sendo o Espiritismo, o Consolador prometido por Jesus, certamente as
respostas serão obtidas. O Mestre ressaltou que não deixaria a
humanidade órfã, porquanto “seriam ensinadas todas as coisas” (João
14:26). Afinal, estamos no limiar de uma nova era, na qual os enigmas
serão decifrados e as barreiras do desconhecido sofrerão um intenso
processo de desmoronamento.
Aos espíritos, reencarnados com o “talento” da pesquisa, lhes são dadas
a permissão e a responsabilidade do conhecimento e do avanço científico,
em nosso orbe, e os religiosos têm a obrigação de acompanhar o
desenvolvimento da ciência, interferindo, quando necessário, através de
colaboração com a Bioética. Certamente, o evolver amplo do crescimento
científico, sendo inevitável, acompanhado do desenvolvimento moral,
assentará, em nosso planeta, a mudança vibratória de mundo de provas e
expiação para o de regeneração.
O cientista está incumbido pela Divindade de expandir o conhecimento
científico terreno, enquanto o religioso deve ter precaução e
discernimento na perquirição dos assuntos da ciência, que não são da sua
alçada, não se furtando, porém, a participar dos debates, quando
alicerçado no conhecimento científico e, assim mesmo, através da
Bioética. No nosso modo de entendimento, o Espiritismo é a religiosidade
do amor universal e da fé raciocinada, amalgamada com o espírito
científico.
No episódio da clonagem da ovelha Dolly, foram utilizados 277 embriões e
apenas um vingou. A presença do princípio inteligente deu vida a um dos
embriões, os outros, apesar de ser utilizado o mesmo procedimento
técnico, não chegaram a termo, exatamente porque não possuíam o
princípio transcendental gerador da vida em total plenitude.
As pesquisas recentes com clonagem reprodutiva de animais estão
revelando resultado positivo em apenas 1% dos casos; portanto, 99% dos
embriões resultantes de animais clonados, utilizando o raciocínio e a
lógica, são desprovidos de princípio espiritual, enquanto a taxa de
sucesso na fertilização assistida, com aperfeiçoamento das técnicas,
está em torno de 20% a 30%.
Importantes esses dados, porquanto sabemos pela questão 344 de OLE que a
união da alma ao corpo se realiza na concepção. Logo, pelo menos 70% a
80% dos embriões de laboratório, descartados, que são utilizados nas
pesquisas de células-tronco, são despojados de espíritos, totalmente de
acordo com a codificação espírita, a qual, com muita felicidade, afirma
que pode haver formação de corpos que jamais tiveram um espírito
destinado, desenvolvendo-se, apenas, segundo as leis biológicas, porém
não sobrevivem (natimortos) (Questão 356 de OLE).
Se imaginarmos um estudo imaginário de emprego de células-tronco em
ovelhas, 276 embriões poderiam ser aproveitados, sem qualquer sacrifício
do princípio inteligente. O mesmo pode acontecer na espécie humana,
sabendo que pode haver formação de embrião sem que haja o espírito
organizador da forma ali presente. Portanto, as células-tronco podem
provir de um embrião desprovido de espírito.
Teoricamente, a obtenção de células-tronco embrionárias, através da
clonagem terapêutica, contendo o princípio transcendental, baseando-nos
nas pesquisas realizadas com a ovelha Dolly e com outros animais, é de
1%. Dos embriões resultantes da fertilização assistida, em tese, somente
20 a 30% contêm espírito. E agora, como raciocinaremos, diante do fato
da obtenção das células-tronco ser conseguida às custas do sacrifício da
entidade extrafísica?
Primeiramente, a certeza de que o acaso não pode presidir os fenômenos
vitais, já que o Universo é regido por leis sábias e precisas. Efeitos
inteligentes não podem ter como causa fatores casuais. Segundo Kardec,
“um acaso inteligente já não seria acaso” (“OLE”, Q. 8). Portanto, está
tudo sob controle superior, existindo uma Soberana Justiça, regendo toda
a vida, proporcionando cada indivíduo passar pelas experiências
necessárias ao seu progresso evolutivo, visando uma harmonia futura,
dentro do contexto evolutivo, no qual toda a criação divina está
mergulhada.
A Questão 345 de “OLE” é valiosíssima para o assunto em tela, já que a
união do espírito com o corpo,desde o momento da concepção, não é
definitiva, podendo o ser extrafísico renunciar a habitar o corpo que
lhe está destinado. Portanto, os laços fluídicos, que o prendem ao
embrião, facilmente podem ser rompidos. Se o espírito está ligado a um
embrião, fecundado em laboratório, e não utilizado, não desejando
participar, por algum motivo, da doação de suas células-tronco, mediante
o seu livre-arbítrio, pode libertar-se, rompendo os frágeis laços,
deixando seu corpo embrionário, aproveitado para o trabalho terapêutico.
Nesse caso, não haveria presença de espírito, no momento da retirada das
células-tronco.
Em outra possibilidade, estaremos diante, certamente, de encarnações
grandiosas, compulsórias, de seres que negaram a vida no passado e agora
doam seu precioso arcabouço físico, justamente suas células-tronco.
Sendo espíritos, por exemplo, sem comando e psiquicamente desagregados,
essas encarnações, perfumadas pelas flores da fraternidade legítima,
dando ou doando de si próprios, serão muito necessárias aos seus
espíritos, desejosos de paz e ansiando pela redenção espiritual.
Estamos, em tese, nos referindo aos ovóides, seres espirituais que
sofrem um processo de auto-aniquilamento, isto é, ostentando pensamentos
transitórios de desintegração psíquica dentro de si mesmos, vivenciando
intenso remorso.
Acreditamos que muitos homicidas e suicidas se encontram nessa faixa de
sofrimento, assumido suas estruturas perispirituais a forma esférica,
porém sem perda de sua integridade. Assim como diz o benefeitor
espiritual André Luiz no livro “Libertação”: “Há apenas perda da
forma e não do veículo”. É claro que “Deus é Amor” e utiliza-se de
tudo, aproveitando esses irmãos para reencarnarem, sim, e nessas
condições. Muitas vezes, a regressão psíquica é de tal monta,
apresentando o perispírito tão retraído, que, após a concepção, quase
nada conseguem arquitetar. Porém, apresentam-se aptos, para doar as
células da camada interna do blastocisto, exatamente as cobiçadas
células-tronco. De qualquer forma, está havendo uma melhora psíquica,
porque já estão recebendo as bênçãos de agradecimento da vida por
movimentarem forças vibratórias intensamente amorosas.
Não é difícil imaginarmos o que é o sofrimento espiritual, vivenciado
num tempo que parece não ter fim, já distanciado do mundo físico, sem
ter a carne para servir de “mata-borrão”. Esses espíritos padecem
intensamente. A Misericórdia Divina propícia esse processo de depuração
espiritual, reencarnando os ovóides compulsoriamente em corpos sem
condições de desenvolvimento normal, porém servindo para que a
fraternidade legítima seja praticada nessas condições. Certamente foram
seres que, em diversas encarnações, utilizaram suas vidas contra a vida
e, agora, estão utilizando suas vidas para a vida, doando, sob as
bênçãos do Alto, suas tão ardentemente desejadas linhagens de
células-tronco.
No futuro, esperando que esteja bem próximo, acreditamos que os
espíritas estarão em uma posição bem confortável, em relação às
células-tronco embrionárias. Não nos negaremos a uma possível cura e, ao
mesmo tempo, mesmo sabendo da pequena possibilidade de ter estado algum
espírito ali presente, oraremos ao Pai para que abençoe e guarde, se lá
estava, o irmão espiritual, ovóide ou quem quer que seja, que
proporcionou a possibilidade do resgate de faltas pretéritas, sendo
veículo do expurgo da aflição e do sofrimento, acarretando a extinção da
expiação.
Dedico este artigo aos abnegados cientistas, em todos os países, que
estão trabalhando nas louváveis e memoráveis pesquisas com
células-tronco.
* Médico Pediatra
Presidente da
AME-RIO – Associação Médico-Espírita do Estado do
Rio de Janeiro
e Vice-Presidente da
ADE-RJ – Associação de Divulgadores de Espiritismo
do Estado do Rio de Janeiro
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